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Corrupção
Vampiros
da Saúde
Polícia
descobre gangue que
agia
havia catorze anos e
sugou 2 bilhões
de reais do Ministério da Saúde

Sandra
Brasil
Rafael Neddermeyer/AE
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Dida Sampaio/AE
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| O
advogado Luiz Cláudio Gomes da Silva, homem de confiança do
ministro Costa, é preso pela PF; ao lado, o empresário Lourenço
Rommel Peixoto, um dos três foragidos |
Durante
mais de uma década, um esquema de fraudes instalado no setor
de compras do Ministério da Saúde fez sangrar os cofres
públicos em mais de 2 bilhões de reais. Depois de
sobreviver a doze ministros, o esquema começou finalmente
a ruir na semana passada. Em uma ação batizada de
Operação Vampiro, a Polícia Federal prendeu
catorze pessoas entre empresários, lobistas e funcionários
do ministério acusados de, entre outras falcatruas, desviar
dinheiro público por meio da manipulação de
licitações para compra de hemoderivados derivados
do sangue usados para o tratamento de hemofílicos. Um dos
presos é Luiz Cláudio Gomes da Silva, homem de confiança
do ministro Humberto Costa e encarregado de tomar conta de um orçamento
anual de cerca de 1,5 bilhão de reais. Em sua casa, a polícia
apreendeu 120.000 reais, 20.000 dólares e 7.000 euros.
Em
um momento em que governo e oposição se preparam para
enfrentar-se nas eleições municipais, é natural
que surjam tentativas de transformar em escândalo político
um caso de polícia. A prisão de Gomes da Silva
levado para a Saúde a convite do ministro Costa ameaçou
respingar no PT. Da mesma forma, o fato de o esquema de fraudes
ter sobrevivido a uma dúzia de ministros trouxe imediatamente
à tona a lembrança de José Serra, que ocupou
com destaque a pasta no governo Fernando Henrique. Tudo leva a crer
que a politização de mais um escândalo de corrupção
é um equívoco nesse caso. Primeiro, porque nada indica
que o ministro Costa tivesse conhecimento de que um de seus funcionários
de confiança estivesse engordando a própria conta
bancária à custa de dinheiro público: a abertura
das investigações que culminaram na prisão
dos vampiros ocorreu a pedido do próprio Ministério
da Saúde. Os tucanos, por sua vez, também têm
um bom argumento para se considerar fora da história. Foi
no último ano da gestão de Serra que se criaram condições
para que os preços dos hemoderivados começassem a
despencar. Até 2002, cada unidade do fator de coagulação
VIII usado por 6.000 dos 8.000 hemofílicos em tratamento
na rede pública era comprada pelo ministério
por 42 centavos de dólar. Uma mudança no sistema de
compras fez com que, na última compra negociada pelo ministério
no governo FHC, o produto fosse adquirido por 16 centavos de dólar.
Desprezadas
as (até agora inexistentes) implicações políticas,
resta a triste constatação de que a administração
federal permaneceu por mais de uma década inerte, vendo escoar
pelo ralo uma dinheirama que seria suficiente para erguer mais de
dez Tribunais Regionais do Trabalho o prédio de 169
milhões de reais, superfaturado pela turma do juiz Nicolau
e patrocinar duas gangues como a da advogada Jorgina Maria
Fernandes, que, nos anos 90, lesou a Previdência Social por
meio de indenizações trabalhistas fraudulentas. Até
quando os recursos públicos continuarão a ser sugados
por Lalaus e Jorginas?
A
erradicação da corrupção é tarefa
complexa, mas, como todo processo intrincado, poderia começar
a ser feita por medida simples. Uma delas, defendem especialistas,
é a redução dos cargos de confiança.
"Enquanto houver apadrinhados políticos ocupando o lugar
de técnicos, as chances de corrupção sempre
serão maiores", afirma o advogado Jair Jaloreto Júnior,
especialista em direito penal empresarial. "Grande parte desses
apadrinhados não aceita cargos que pagam pouco apenas por
patriotismo", diz. Outra medida simples, mas de efeito potente,
é a substituição do sistema de licitação
pelo de pregão, que, no caso do Ministério da Saúde,
foi justamente um dos fatores que ajudaram a reduzir o preço
dos hemoderivados. O pregão é uma espécie de
leilão ao contrário: o governo procura o fornecedor
que irá oferecer-lhe o menor preço. O sistema ganha
da licitação em agilidade e transparência. Se
uma licitação demora em média quatro meses,
o pregão pode ser concluído em três semanas.
Em vez de envelopes fechados, sujeitos a violação
e adulteração, no pregão representantes das
empresas comparecem pessoalmente à disputa e ofertam seus
preços de viva voz. Alguns Estados, como São Paulo,
já adotaram o pregão eletrônico. Realizado via
internet, é considerado ainda mais seguro que a versão
tradicional.
Um
dos chefes do cartel da Saúde, segundo a Polícia Federal,
é o empresário brasiliense Lourenço Rommel
Pontes Peixoto. Rommel, dono de dois jornais, um em Brasília
e outro no Rio, agia nos bastidores do ministério desde a
época do escândalo PC Farias. Neste domingo, seria
realizada uma festa em comemoração aos seus 45 anos
numa casa às margens do Lago Paranoá, comprada especialmente
para passar os fins de semana com a família. Rommel vai ter
de se contentar com um bolinho clandestino. Com prisão preventiva
decretada, o vampirão, ao lado de outros dois suspeitos,
encontra-se foragido.
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Eles
resistiram a Alceni, Jatene,
Serra, Costa...
Fotos Sérgio Dutti,
Orlando Brito e Alcione Ferreira/Folha Imagem
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| Alceni
Guerra |
Adib
Jatene |
José
Serra |
Humberto
Costa |
Desde
1990, quando a quadrilha começou a agir, o Brasil
teve doze ministros da Saúde (Adib Jatene em
duas gestões), de diferentes partidos. Isso mostra
que esse tipo de corrupção não
tem coloração política e
também que a falta de controle no governo é
doença crônica
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