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Distrito
Federal
A
casa do espanto
A
Câmara Legislativa de
Brasília
tem uma bancada
de deputados com
biografias de arrepiar os cabelos

Policarpo
Junior
As
histórias a seguir não são obra de ficção.
Passam-se em Brasília, a menos de 10 quilômetros da
Praça dos Três Poderes, na Câmara Legislativa
do Distrito Federal, onde se fazem as leis da capital do país.
São fatos reais e seus personagens, pessoas de carne e osso.
O deputado Carlos Xavier era até o mês passado o corregedor
da Câmara, o responsável por fiscalizar a correção
das ações de seus colegas. Pediu licença do
cargo depois que foi acusado de ter mandado matar um rapaz que mantinha
um relacionamento amoroso com sua esposa. Carlos já se chamou
Adão. Não gostava do nome e recebeu autorização
da Justiça para trocá-lo. A denúncia do Ministério
Público aponta o parlamentar como o homem que contratou dois
criminosos para matar o amante da mulher. O rapaz, de apenas 16
anos, foi morto a tiros. Adão (ou Carlos) é atualmente
o vice-presidente da Comissão de Constituição
e Justiça.
O deputado José Edmar, presidente da Comissão de Assuntos
Fundiários, na qual são analisados os projetos que
tratam do uso das terras da capital, passou 29 dias preso no ano
passado. Ele é acusado de formação de quadrilha,
corrupção passiva e parcelamento ilegal do solo urbano.
O deputado Pedro Passos ficou nacionalmente conhecido por ter sido
flagrado em conversas comprometedoras sobre grilagem de terras.
Também foi apontado por uma CPI da própria Câmara
como o maior invasor de áreas públicas do Distrito
Federal. Teve a prisão decretada pouco antes da eleição
e conseguiu concorrer graças a um habeas-corpus. Ele é
o atual presidente da Comissão de Constituição
e Justiça.
O deputado Wigberto Tartuce, o "Vigão", não é
superlativo só no apelido. Vigão diz possuir "uma
grande vocação natural para as políticas de
amparo social". Não é exagero. Como deputado federal,
ficou conhecido por promover festas em sua casa de 3.000 metros
quadrados e 63 cômodos. Apesar de milionário, era com
o dinheiro do Congresso que ele pagava os salários de uma
dezena de serviçais domésticos. No cargo de secretário
do Trabalho do governo de Brasília, desapareceu, segundo
o Tribunal de Contas da União, com alguns milhões
de reais. O dinheiro chegou à secretaria de Vigão
para cumprir uma importante política de amparo social --
o treinamento de trabalhadores. Só que os trabalhadores não
foram treinados e o dinheiro sumiu.
O presidente da Câmara se chama Benício Tavares. Ele
está em seu quarto mandato e fez carreira como defensor dos
direitos dos portadores de necessidades especiais. Benício,
aliás, foi presidente e um dos fundadores da Associação
dos Deficientes Físicos do Distrito Federal. No ano passado,
foi condenado pelo Superior Tribunal de Justiça por desviar
dinheiro da entidade.
Os deputados Odilon Aires e Gim Argello eram correligionários
e sempre estiveram envolvidos com a complicada questão fundiária
da cidade. A relação entre eles, porém, azedou
depois que apareceu uma fita de vídeo em que Odilon reclama
com um grileiro de terras sobre a quantidade de lotes que havia
recebido por uma operação supostamente irregular.
Estava indignado. Seu colega Gim, que vem a ser o atual vice-presidente
da Câmara, segundo ele, ganhara seis vezes mais.
O deputado Júnior Brunelli é obreiro de uma igreja
evangélica que ficou conhecida em Brasília por vender
aos fiéis terrenos no céu. Um amigo de infância
acusou o parlamentar de ter montado um grupo para eliminar adversários
políticos. A polícia ainda está investigando
a denúncia, mas o deputado já foi prejudicado. Ele
bem que tentou, mas não conseguiu assumir a presidência
da Comissão de Ética da Câmara.
A
Câmara Legislativa de Brasília tem apenas treze anos
de existência. Se comparada à de outras grandes cidades,
é um parlamento juvenil. Mas seus hábitos e costumes
ultrapassam em muito os das velhas raposas. Se não bastasse
a biografia parecida com prontuário policial de um terço
de seus membros, a Câmara amarga o desgaste de custar muito
dinheiro do cidadão e oferecer muito pouco em troca. Ali
aprovaram-se apenas 65 projetos neste ano. Há uma lista imensa
de bobagens nesse meio. Em fevereiro, depois de anos de debates,
os deputados promulgaram um projeto que cria um pesqueiro onde pessoas
carentes podem ir tentar a sorte com vara e anzol. Outra lei aprovada
e ainda não promulgada prevê a implantação
em Brasília de banheiros públicos exclusivos para
homossexuais. A maioria dos projetos aprovados é ainda mais
inócua. Eles determinam a concessão de títulos
de cidadão honorário. No rol dos agraciados há
gente conhecida, como o ex-presidente da África do Sul Nelson
Mandela, o papa João Paulo II e Pelé, e gente nem
tão famosa assim, como o japonês Daisaki Ikeda, presidente
mundial da seita Soka Gakkai, e um comerciante que ninguém
conhece chamado Francisco César de Oliveira. Mandela e o
presidente da Soka Gakkai podem ser considerados efetivamente cidadãos
honorários de Brasília. Os parlamentares foram pessoalmente
até Tóquio e Pretória entregar os títulos.
O papa ainda não recebeu o seu, pois o deputado-autor não
conseguiu agendar a entrega junto ao Vaticano. Já Pelé
acabou tendo a honraria negada por ter demorado muito a reconhecer
uma filha legítima. O comerciante Oliveira devolveu o título.
Sua justificativa: sentiu-se "envergonhado" com a honraria.
Os
parlamentares brasilienses já perderam meses e meses discutindo
questões bizarras, como a escolha do animal-símbolo
da cidade. O primeiro escolhido foi um peixe chamado pirá-brasília.
Instalou-se a confusão. Um parlamentar considerou a escolha
uma indignidade. O peixe seria uma espécie em que os machos
são dados a práticas homossexuais. Especialistas foram
chamados para dar seu parecer sobre o peixe-símbolo. Os biólogos
atestaram que o pirá-brasília, espécie que
só existe no cerrado, não é propriamente homossexual,
mas sim hermafrodita. Com base na palavra dos sábios, o peixe
foi desclassificado. Em seu lugar foi entronizado o lobo-guará,
sobre cujo comportamento sexual nenhum parlamentar levantou dúvidas.
O lobo recebeu votação consagradora, tornando-se então
oficialmente o animal-símbolo de Brasília. Apesar
de ter um terço de seus deputados envolvidos em denúncias
de crimes pesados, em toda a história da Câmara um
único parlamentar foi punido. Trata-se de José Tatico,
hoje deputado federal, que, flagrado usando a verba de gabinete
para pagar os salários dos funcionários de um de seus
supermercados, foi punido. Punido? Recebeu apenas uma advertência.
Na quinta-feira passada, em meio às discussões sobre
o caso do deputado que mandou matar o amante da esposa, a deputada
Eliana Pedrosa teve de se ausentar da Câmara. Ela foi à
Polícia Federal visitar o irmão, preso na chamada
Operação Vampiro, um esquema que desviava verbas do
Ministério da Saúde. A Câmara Legislativa do
Distrito Federal é mesmo de arrepiar os cabelos. É
a casa do espanto.
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A
legislação também é de arrepiar
Helvio Romero/AE
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| Maluf:
apesar de tudo, ele pode ser prefeito
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Na
semana passada, o ex-prefeito Paulo Maluf lançou
sua candidatura à prefeitura de São Paulo.
Em clima de festa, na presença de deputados,
vereadores e perueiros, o ex-prefeito garantiu, com
aquela segurança que lhe é peculiar, que
vai administrar a cidade pela terceira vez. Nem parecia
o mesmo Paulo Maluf que, dias antes, fora apresentado
como dono de contas bancárias secretas no exterior,
com saldos fabulosos. Numa delas, num único dia,
houve depósito de 345 milhões de dólares.
Desde que o assunto começou a ser ventilado,
Maluf nega que tenha contas lá fora e, mesmo
agora, com documentos oficiais enviados ao Brasil pelas
autoridades suíças, ele segue negando
-- e se candidatando. Apesar de portar um escândalo
desse quilate no currículo, Maluf, tal como seus
colegas na Câmara Legislativa do Distrito Federal,
pode ser candidato, eleger-se e cumprir seu mandato
sem problemas. Pela lei das inelegibilidades, só
está proibido de candidatar-se o cidadão
que estiver cumprindo pena de uma condenação
judicial definitiva, sem nenhuma possibilidade de recurso.
Em qualquer outra situação, mesmo no caso
de prisão em flagrante, o cidadão mantém
o direito de ser candidato.
É
uma legislação de arrepiar. Como a Justiça
brasileira prima pela lentidão, e o andamento
de um processo é atravancado por badulaques jurídicos
que só servem para protelar uma sentença
definitiva, os casos de cidadãos suspeitos pleiteando
um cargo público são freqüentes.
No caso de Maluf, sua candidatura só seria impugnada
se seu processo estivesse julgado em definitivo até
a eleição em outubro próximo, mas,
como o imbróglio está apenas começando
a engatinhar na esfera judicial, é possível
que ainda demore uma década. Não é
exagero. Em 1993, um grupo de deputados foi pilhado
desviando dinheiro do orçamento, roubalheira
que ficou conhecida como "escândalo dos anões".
Alguns foram cassados e outros renunciaram aos mandatos
para evitar a cassação. Passados dez anos,
ninguém ainda foi julgado em definitivo.
Uma
vez condenado, porém, qualquer cidadão
perde o mandato que estiver exercendo. Além disso,
seus direitos políticos são suspensos
pelos três anos seguintes. Quando um suspeito
é eleito, ele segue sendo processado normalmente,
mas, pela lei, ganha o direito a um foro especial, à
exceção de vereadores, que são
julgados como qualquer cidadão comum. Leis estaduais,
contudo, têm estendido esse foro privilegiado
aos vereadores. Dessa forma, assim como os prefeitos
e deputados estaduais, eles podem ser julgados pelos
Tribunais de Justiça. Os governadores ficam na
esfera do Superior Tribunal de Justiça, em Brasília.
Já os deputados federais, senadores e presidente
da República são julgados pelo Supremo
Tribunal Federal.
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