Edição 1855 . 26 de maio de 2004

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Em foco: Gustavo Franco
Notas sobre o clima

"Apesar dos ciclones e do minueto
parlamentar, a retomada do crescimento
depende de influências sobre o clima
que estão fora do Banco Central"

Nos últimos tempos, não há outro assunto em círculos empresariais que a meteorologia econômica: "o clima de negócios" piorou, e não apenas em razão dos ventos gelados que vêm do norte, mais precisamente do Federal Reserve, mas também por conta de nosso "microclima", que andou instável. Estranhos ciclones, aparecendo onde nunca existiram, podem ter a ver com o aquecimento global, ou mais provavelmente com fatores locais. Não há sequer acordo de que tivemos um furacão, ou dois, a despeito da concordância sobre o vento forte e sobre os estragos que causaram.


Não se deve minimizar a importância disso que os empresários chamam de "clima", ou da "confiança", pois está muito bem assentada na teoria econômica a relação entre o estado geral das expectativas sobre o futuro, capturado nessas expressões, e o investimento, sem o qual não há crescimento. Sem dúvida, são muito abrangentes, além de subjetivos, os fatores que concorrem para decisões empresariais que implicam compromissos onerosos e duradouros, e de retorno incerto. Por isso mesmo não há uma relação mecânica entre os juros fixados pelo Copom para operações por um dia e o crescimento, como alguns parecem supor.

Na verdade, o governo pode não ter percebido, mas talvez o maior desafio de sua administração seja justamente o de mostrar capacidade de melhorar o "clima de investimento". Não basta afastar os riscos de ruptura, como conseguido ao longo do primeiro ano de governo, mas de seduzir e engajar o setor privado, pois é daí que virão o investimento e o crescimento, não do Banco Central. A tarefa requer uma postura muito mais abrangente, sincera e amistosa com relação ao capital e ao mercado, talvez fora do alcance do atual governo.

Parte do problema, como já observado, vem do norte. Firmou-se a convicção de que os juros nos EUA vão subir nos próximos meses e, na lógica da economia global em que vivemos, diferentemente do mundo acaciano de nossos ancestrais, as conseqüências vêm antes. Os mercados financeiros já anteciparam os efeitos nefastos da mexida que, ressalte-se, está ainda a meses de distância. E assim, por estranho que pareça, ainda não aconteceu, mas muitos dizem que o pior já passou.

De outro lado, cá no Brasil, Fazenda e Banco Central não piscaram e dizem que a turbulência é passageira e derivada de fatores externos, e que dentro de casa nada mudou. De fato, nada mudou recentemente e relativamente aos últimos anos, fenômeno esse que comporta pelo menos dois diagnósticos antagônicos, um benigno, outro de esquizofrenia.

Quem observa a distância a continuidade notada nas políticas macroeconômicas pode ter a impressão de que estamos num país maduro, de clima temperado e instituições consolidadas, onde a troca de governo não traz mudanças nas premissas básicas da macroeconomia. É o lado bom do "nada mudou".

Todavia, tanto o governo quanto a oposição, com as exceções de praxe, parecem se esforçar em demonstrar que não é bem assim, especialmente em vista da propaganda eleitoral televisiva e também do que está ocorrendo na discussão sobre o salário mínimo: o governo ataca a política econômica da administração FHC parecendo não reparar que a sua não é diferente, inclusive no tocante ao salário mínimo, questão em que se rendeu à realidade das contas públicas, ainda que de forma envergonhada, exatamente como no passado.

A oposição, por sua vez, critica as políticas de hoje, como se não fossem idênticas às que praticou no passado, ou como se tivesse algo diferente a sugerir, inclusive quanto ao salário mínimo. Nesse assunto, ao que tudo indica, vamos a plenário, com papéis trocados, para votar um valor irreal para o mínimo, com chances de a oposição ganhar, como em 1993, quando aprovou a chamada Lei Paim, tudo para forçar o tristonho veto, e o desgaste do então presidente Itamar Franco. Como poderá acontecer com Lula.

Não obstante os ciclones e o minueto parlamentar, o fato é que a retomada depende de influências sobre o clima que estão fora do BC, numa área onde a agenda do crescimento jaz meio inerte, descaracterizada e presa à falta de imaginação.


Gustavo Franco é economista da PUC-RJe ex-presidente do Banco Central
(gfranco@palavra.comwww.gfranco.com.br)

 
 
 
 
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