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Em
foco: Gustavo Franco
Notas
sobre o clima
"Apesar
dos ciclones e do minueto
parlamentar, a retomada do crescimento
depende de influências sobre o clima
que estão fora do Banco Central"
Nos
últimos tempos, não há outro assunto em círculos
empresariais que a meteorologia econômica: "o clima de negócios"
piorou, e não apenas em razão dos ventos gelados que
vêm do norte, mais precisamente do Federal Reserve, mas também
por conta de nosso "microclima", que andou instável. Estranhos
ciclones, aparecendo onde nunca existiram, podem ter a ver com o
aquecimento global, ou mais provavelmente com fatores locais. Não
há sequer acordo de que tivemos um furacão, ou dois,
a despeito da concordância sobre o vento forte e sobre os
estragos que causaram.
Não
se deve minimizar a importância disso que os empresários
chamam de "clima", ou da "confiança", pois está muito
bem assentada na teoria econômica a relação
entre o estado geral das expectativas sobre o futuro, capturado
nessas expressões, e o investimento, sem o qual não
há crescimento. Sem dúvida, são muito abrangentes,
além de subjetivos, os fatores que concorrem para decisões
empresariais que implicam compromissos onerosos e duradouros, e
de retorno incerto. Por isso mesmo não há uma relação
mecânica entre os juros fixados pelo Copom para operações
por um dia e o crescimento, como alguns parecem supor.
Na
verdade, o governo pode não ter percebido, mas talvez o maior
desafio de sua administração seja justamente o de
mostrar capacidade de melhorar o "clima de investimento". Não
basta afastar os riscos de ruptura, como conseguido ao longo do
primeiro ano de governo, mas de seduzir e engajar o setor privado,
pois é daí que virão o investimento e o crescimento,
não do Banco Central. A tarefa requer uma postura muito mais
abrangente, sincera e amistosa com relação ao capital
e ao mercado, talvez fora do alcance do atual governo.
Parte
do problema, como já observado, vem do norte. Firmou-se a
convicção de que os juros nos EUA vão subir
nos próximos meses e, na lógica da economia global
em que vivemos, diferentemente do mundo acaciano de nossos ancestrais,
as conseqüências vêm antes. Os mercados financeiros
já anteciparam os efeitos nefastos da mexida que, ressalte-se,
está ainda a meses de distância. E assim, por estranho
que pareça, ainda não aconteceu, mas muitos dizem
que o pior já passou.
De
outro lado, cá no Brasil, Fazenda e Banco Central não
piscaram e dizem que a turbulência é passageira e derivada
de fatores externos, e que dentro de casa nada mudou. De fato, nada
mudou recentemente e relativamente aos últimos anos, fenômeno
esse que comporta pelo menos dois diagnósticos antagônicos,
um benigno, outro de esquizofrenia.
Quem
observa a distância a continuidade notada nas políticas
macroeconômicas pode ter a impressão de que estamos
num país maduro, de clima temperado e instituições
consolidadas, onde a troca de governo não traz mudanças
nas premissas básicas da macroeconomia. É o lado bom
do "nada mudou".
Todavia,
tanto o governo quanto a oposição, com as exceções
de praxe, parecem se esforçar em demonstrar que não
é bem assim, especialmente em vista da propaganda eleitoral
televisiva e também do que está ocorrendo na discussão
sobre o salário mínimo: o governo ataca a política
econômica da administração FHC parecendo não
reparar que a sua não é diferente, inclusive no tocante
ao salário mínimo, questão em que se rendeu
à realidade das contas públicas, ainda que de forma
envergonhada, exatamente como no passado.
A
oposição, por sua vez, critica as políticas
de hoje, como se não fossem idênticas às que
praticou no passado, ou como se tivesse algo diferente a sugerir,
inclusive quanto ao salário mínimo. Nesse assunto,
ao que tudo indica, vamos a plenário, com papéis trocados,
para votar um valor irreal para o mínimo, com chances de
a oposição ganhar, como em 1993, quando aprovou a
chamada Lei Paim, tudo para forçar o tristonho veto, e o
desgaste do então presidente Itamar Franco. Como poderá
acontecer com Lula.
Não
obstante os ciclones e o minueto parlamentar, o fato é que
a retomada depende de influências sobre o clima que estão
fora do BC, numa área onde a agenda do crescimento jaz meio
inerte, descaracterizada e presa à falta de imaginação.
Gustavo Franco é economista da PUC-RJe ex-presidente do
Banco Central
(gfranco@palavra.com
– www.gfranco.com.br)
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