Edição 1953 . 26 de abril de 2006

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Televisão
Qual é a música?

Os cantores são o de menos em Ídolos,
novo sucesso do SBT. São os jurados
que movimentam o programa


Marcelo Marthe

NESTA REPORTAGEM
Quadro: Os jurados e a diretora

Depois de várias semanas de derrota para as novelas da concorrente Record, o SBT recobrou fôlego no horário nobre com a estréia de Ídolos, uma gincana musical. No ar desde o começo de abril, o programa não só devolveu a vice-liderança de audiência à emissora de Silvio Santos às quartas e quintas-feiras, na faixa das 22 horas, como ainda tirou uma lasca da Rede Globo: no dia 13, por exemplo, ele chegou a ficar por mais de vinte minutos em primeiro lugar no ibope. Versão brasileira de American Idol, maior sucesso da TV americana na atualidade, Ídolos é um misto de reality show e programa de calouros. É o tipo de atração que consegue reunir a família na frente da televisão, e ainda traz uma pimentinha que ameaça transformá-lo em objeto de culto – já existem mais de vinte comunidades dedicadas a ele no Orkut, a rede de relacionamentos mais popular entre os internautas do país. No programa, postulantes à carreira de cantor disputam o direito de lançar um disco por uma grande gravadora. Em meio aos candidatos, há também desavisados e figuras esdrúxulas – o que deixa tudo mais divertido que num similar como Fama, da Globo, que chateia por se levar a sério. Mas a peça essencial é o júri. Muito da popularidade de American Idol se deve às tiradas do inglês Simon Cowell, que faz as vezes de algoz. A versão nacional não produziu alguém com sua ironia – mas tem lá seus aspirantes.

A seleção do júri foi uma gincana à parte. O SBT testou mais de quarenta figuras ligadas ao meio musical. O roqueiro Supla, a cantora Sandra de Sá, o teatrólogo Cacá Rosset e o empresário musical João Marcello Bôscoli disputaram a boquinha – e foram reprovados. Os quatro escolhidos cumprem papéis bem definidos. Os produtores Carlos Eduardo Miranda e Arnaldo Saccomani são os "do contra". Miranda é desbocado e surge de óculos escuros. Já fingiu dormir em cena enquanto um sujeito declamava uma poesia. Em outro momento, saiu no meio de um teste para ir ao banheiro. "Fica tranqüila, minha filha: tu foi mal (sic), mas está melhor do que a Marjorie Estiano", disse a uma candidata, comparando-a à dublê de cantora da novelinha Malhação. Se ele tem um quê de Pedro de Lara, jurado que antigamente fazia as vezes de maluco no show de calouros de Silvio Santos, Saccomani lembra Aracy de Almeida. Ranzinza, ele faz caras e bocas a cada desafinada. "Sua voz é do mesmo nível que sua roupa: horrível", disse a uma cantora (de banheiro, naturalmente). "Depois de onze horas ouvindo um monte de chatos, a gente fica alterado", comenta. Produtor da velha-guarda, Saccomani direcionou sua carreira para o pop comercial. Nos anos 80 e 90, foi radialista de emissoras como a Jovem Pan. Como o personagem Jamanta da novela das 8, Saccomani não viu, Saccomani não sabe o que é jabá – a prática das gravadoras de dar um agrado às rádios para que seus artistas sejam executados. "Comigo nunca aconteceu. O que havia, no máximo, era um corpo-a-corpo com os artistas", diz.

Em American Idol, a acidez de Simon Cowell é contrabalançada pelo estilo bonachão do produtor Randy Jackson e pelo ar de "boazinha" de Paula Abdul, cantora que despontou nos anos 80. O produtor carioca Thomas Roth é o Jackson de Ídolos. Mesmo quando diz não a um candidato, faz questão de lhe dar uma força. "Fofinha, você tem uma coisa muito meiga, mas não é o que estamos procurando", disse a uma funqueira que tinha o visual da boneca Emília. Já a cantora, DJ e produtora Cyz é uma variação pernambucana de Paula Abdul. Chama todas as candidatas de "florzinha" e, volta e meia, dá uma de maria-vai-com-as-outras – quer dizer, vota conforme os colegas.

Ídolos custou 12 milhões de reais ao SBT. A emissora promoveu audições em cinco capitais. Na fila em que os candidatos aguardavam sua vez de cantar – e foram, ao todo, 12 000 inscritos –, a produção já selecionava os tipos mais interessantes e seus passos eram registrados pelas câmeras. Só os que venceram essa etapa de triagem – cerca de 100 pessoas por dia – foram avaliados pelos quatro jurados, que decidirão quem avança ou não na gincana em sua segunda fase, que irá ao ar a partir desta semana. Na fase final, os espectadores votarão nos seus preferidos.

A produção de Ídolos marca a estréia de Daniela Beyruti, filha de Silvio Santos, como diretora. Terceira de suas seis rebentas – ela é fruto do segundo casamento de Silvio, com a atual mulher, Íris –, Daniela, de 29 anos, é vista como uma herdeira potencial do pai à frente do SBT. Ela morou por seis anos nos Estados Unidos, onde estudou comunicação, e lá se tornou fã de American Idol. Daniela nunca se ligou em música e, talvez por se lembrar dos velhos programas de calouros do pai, relutou um pouco antes de se render ao reality show. Mas, nas noites de ócio ao lado do marido, acabou experimentando. "Gostei tanto que até votei nas finais", diz ela. Quando voltou ao Brasil, em agosto passado, Daniela foi surpreendida: Silvio, que havia comprado o formato, a convocou para dirigir o programa no SBT. Curiosamente, ao mesmo tempo em que a filha estreava como diretora do show de calouros moderninho, Silvio voltava a apresentar uma gincana musical – mas à moda antiga. Rei Majestade, em que artistas de décadas passadas disputam entre si, parece destinado ao ocaso na programação do SBT. Ao falar do programa, a filha de Silvio se desdobra em diplomacia. Mas opina: "O programa não é um fracasso: só não atingiu a expectativa". Daniela vem aí?

 
 
 
 
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