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Televisão
Qual é a música?
Os cantores são o de menos
em Ídolos,
novo sucesso do SBT. São os jurados
que movimentam o programa

Marcelo Marthe
Depois de várias semanas de derrota
para as novelas da concorrente Record, o SBT recobrou fôlego
no horário nobre com a estréia de Ídolos,
uma gincana musical. No ar desde o começo de abril,
o programa não só devolveu a vice-liderança
de audiência à emissora de Silvio Santos às
quartas e quintas-feiras, na faixa das 22 horas, como ainda tirou
uma lasca da Rede Globo: no dia 13, por exemplo, ele chegou a ficar
por mais de vinte minutos em primeiro lugar no ibope. Versão
brasileira de American Idol, maior sucesso da TV americana
na atualidade, Ídolos é um misto de reality
show e programa de calouros. É o tipo de atração
que consegue reunir a família na frente da televisão,
e ainda traz uma pimentinha que ameaça transformá-lo
em objeto de culto já existem mais de vinte comunidades
dedicadas a ele no Orkut, a rede de relacionamentos mais popular
entre os internautas do país. No programa, postulantes à
carreira de cantor disputam o direito de lançar um disco
por uma grande gravadora. Em meio aos candidatos, há também
desavisados e figuras esdrúxulas o que deixa tudo
mais divertido que num similar como Fama, da Globo, que chateia
por se levar a sério. Mas a peça essencial é
o júri. Muito da popularidade de American Idol se
deve às tiradas do inglês Simon Cowell, que faz as
vezes de algoz. A versão nacional não produziu alguém
com sua ironia mas tem lá seus aspirantes.
A seleção do júri
foi uma gincana à parte. O SBT testou mais de quarenta figuras
ligadas ao meio musical. O roqueiro Supla, a cantora Sandra de Sá,
o teatrólogo Cacá Rosset e o empresário musical
João Marcello Bôscoli disputaram a boquinha
e foram reprovados. Os quatro escolhidos cumprem papéis bem
definidos. Os produtores Carlos Eduardo Miranda e Arnaldo Saccomani
são os "do contra". Miranda é desbocado e surge de
óculos escuros. Já fingiu dormir em cena enquanto
um sujeito declamava uma poesia. Em outro momento, saiu no meio
de um teste para ir ao banheiro. "Fica tranqüila, minha filha:
tu foi mal (sic), mas está melhor do que a Marjorie
Estiano", disse a uma candidata, comparando-a à dublê
de cantora da novelinha Malhação. Se ele tem
um quê de Pedro de Lara, jurado que antigamente fazia as vezes
de maluco no show de calouros de Silvio Santos, Saccomani lembra
Aracy de Almeida. Ranzinza, ele faz caras e bocas a cada
desafinada. "Sua voz é do mesmo nível que sua roupa:
horrível", disse a uma cantora (de banheiro, naturalmente).
"Depois de onze horas ouvindo um monte de chatos, a gente fica alterado",
comenta. Produtor da velha-guarda, Saccomani direcionou sua carreira
para o pop comercial. Nos anos 80 e 90, foi radialista de emissoras
como a Jovem Pan. Como o personagem Jamanta da novela das 8, Saccomani
não viu, Saccomani não sabe o que é jabá
a prática das gravadoras de dar um agrado às
rádios para que seus artistas sejam executados. "Comigo nunca
aconteceu. O que havia, no máximo, era um corpo-a-corpo com
os artistas", diz.
Em American Idol, a acidez de
Simon Cowell é contrabalançada pelo estilo bonachão
do produtor Randy Jackson e pelo ar de "boazinha" de Paula Abdul,
cantora que despontou nos anos 80. O produtor carioca Thomas Roth
é o Jackson de Ídolos. Mesmo quando diz não
a um candidato, faz questão de lhe dar uma força.
"Fofinha, você tem uma coisa muito meiga, mas não é
o que estamos procurando", disse a uma funqueira que tinha o visual
da boneca Emília. Já a cantora, DJ e produtora Cyz
é uma variação pernambucana de Paula Abdul.
Chama todas as candidatas de "florzinha" e, volta e meia, dá
uma de maria-vai-com-as-outras quer dizer, vota conforme
os colegas.
Ídolos custou 12
milhões de reais ao SBT. A emissora promoveu audições
em cinco capitais. Na fila em que os candidatos aguardavam sua vez
de cantar e foram, ao todo, 12 000 inscritos , a produção
já selecionava os tipos mais interessantes e seus passos
eram registrados pelas câmeras. Só os que venceram
essa etapa de triagem cerca de 100 pessoas por dia
foram avaliados pelos quatro jurados, que decidirão quem
avança ou não na gincana em sua segunda fase, que
irá ao ar a partir desta semana. Na fase final, os espectadores
votarão nos seus preferidos.
A produção de Ídolos
marca a estréia de Daniela Beyruti, filha de Silvio Santos,
como diretora. Terceira de suas seis rebentas ela é
fruto do segundo casamento de Silvio, com a atual mulher, Íris
, Daniela, de 29 anos, é vista como uma herdeira potencial
do pai à frente do SBT. Ela morou por seis anos nos Estados
Unidos, onde estudou comunicação, e lá se tornou
fã de American Idol. Daniela nunca se ligou em música
e, talvez por se lembrar dos velhos programas de calouros do pai,
relutou um pouco antes de se render ao reality show. Mas, nas noites
de ócio ao lado do marido, acabou experimentando. "Gostei
tanto que até votei nas finais", diz ela. Quando voltou ao
Brasil, em agosto passado, Daniela foi surpreendida: Silvio, que
havia comprado o formato, a convocou para dirigir o programa no
SBT. Curiosamente, ao mesmo tempo em que a filha estreava como diretora
do show de calouros moderninho, Silvio voltava a apresentar uma
gincana musical mas à moda antiga. Rei Majestade,
em que artistas de décadas passadas disputam entre si,
parece destinado ao ocaso na programação do SBT. Ao
falar do programa, a filha de Silvio se desdobra em diplomacia.
Mas opina: "O programa não é um fracasso: só
não atingiu a expectativa". Daniela vem aí?
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