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Livros
Rito de passagem
Daniel Galera se consolida como um dos autores mais originais de sua geração

Beatriz Resende
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Terceiro livro de Daniel
Galera, de 27 anos, Mãos de Cavalo (Companhia das Letras;
192 páginas; 34 reais) é seu primeiro título por uma grande
editora. Os anteriores, Dentes Guardados e Até o Dia em que o
Cão Morreu, saíram pela Livros do Mal, da qual Galera era sócio.
De algum modo, Mãos de Cavalo fala dessa trajetória de um
autor da jovem geração rumo a um mercado mais amplo: a narrativa
arma-se em torno de uma espécie de rito de passagem do protagonista. Dividindo
a obra em duas partes que caminham simultaneamente, Galera entrelaça, com
rara habilidade, a narrativa memorialística sobre um grupo de adolescentes
de Porto Alegre entre eles o personagem que dá título ao
livro, Mãos de Cavalo (e só no final da história revela-se
todo o sentido desse estranho apelido) com o relato de um dia na vida de
Hermano, um médico de sucesso. E tudo isso é conduzido por uma prosa
marcadamente individual, que diferencia o autor como um dos melhores contadores
de história da nova geração.
Apesar de ter nascido em São Paulo, Daniel Galera viveu a maior parte do
tempo em Porto Alegre, o que bem se nota pelos "bás" e "gurias" de seus
diálogos, nos quais o "tu" é sempre empregado com o verbo na terceira
pessoa. A linguagem é concreta, com poucos adjetivos. Há relatos
brutalmente físicos dos cortes e contusões que Mãos de Cavalo
sofre na bicicleta ou no futebol. E a narrativa do cotidiano de Hermano lembra
o detalhismo científico de Ian McEwan em Sábado. É
no inesperado recurso a um realismo absoluto, nas descrições cruas
de animais mortos e corpos ensangüentados que a escrita de Daniel Galera
mostra sua qualidade mais original e até corajosa. Apesar dessa maturidade
narrativa, o livro ainda tem seus momentos de juvenilidade. O percurso pelas disputas
de videogame, pelos infindáveis campeonatos de downhill ou a súbita
participação da mãe debilóide que diz "soninho" para
que o marmanjo finja dormir não parecem mais caber numa literatura que,
no quadro geral, conseguiu deixar para trás os relatos típicos do
iniciante que ainda considera sua adolescência como um fenômeno especial.
À medida que a narrativa vai se fechando e o leitor compreende a relação
entre os personagens principais, Mãos de Cavalo revela-se como um
belo romance de formação. No final, cumpre-se o rito de passagem,
e o escritor está pronto talvez, como seu personagem, solitário
e dirigindo por uma terra hostil. |