Edição 1953 . 26 de abril de 2006

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Livros
Rito de passagem

Daniel Galera se consolida como um dos
autores mais originais de sua geração


Beatriz Resende

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Trecho do livro

Terceiro livro de Daniel Galera, de 27 anos, Mãos de Cavalo (Companhia das Letras; 192 páginas; 34 reais) é seu primeiro título por uma grande editora. Os anteriores, Dentes Guardados e Até o Dia em que o Cão Morreu, saíram pela Livros do Mal, da qual Galera era sócio. De algum modo, Mãos de Cavalo fala dessa trajetória de um autor da jovem geração rumo a um mercado mais amplo: a narrativa arma-se em torno de uma espécie de rito de passagem do protagonista. Dividindo a obra em duas partes que caminham simultaneamente, Galera entrelaça, com rara habilidade, a narrativa memorialística sobre um grupo de adolescentes de Porto Alegre – entre eles o personagem que dá título ao livro, Mãos de Cavalo (e só no final da história revela-se todo o sentido desse estranho apelido) – com o relato de um dia na vida de Hermano, um médico de sucesso. E tudo isso é conduzido por uma prosa marcadamente individual, que diferencia o autor como um dos melhores contadores de história da nova geração.

Apesar de ter nascido em São Paulo, Daniel Galera viveu a maior parte do tempo em Porto Alegre, o que bem se nota pelos "bás" e "gurias" de seus diálogos, nos quais o "tu" é sempre empregado com o verbo na terceira pessoa. A linguagem é concreta, com poucos adjetivos. Há relatos brutalmente físicos dos cortes e contusões que Mãos de Cavalo sofre na bicicleta ou no futebol. E a narrativa do cotidiano de Hermano lembra o detalhismo científico de Ian McEwan em Sábado. É no inesperado recurso a um realismo absoluto, nas descrições cruas de animais mortos e corpos ensangüentados que a escrita de Daniel Galera mostra sua qualidade mais original e até corajosa. Apesar dessa maturidade narrativa, o livro ainda tem seus momentos de juvenilidade. O percurso pelas disputas de videogame, pelos infindáveis campeonatos de downhill ou a súbita participação da mãe debilóide que diz "soninho" para que o marmanjo finja dormir não parecem mais caber numa literatura que, no quadro geral, conseguiu deixar para trás os relatos típicos do iniciante que ainda considera sua adolescência como um fenômeno especial. À medida que a narrativa vai se fechando e o leitor compreende a relação entre os personagens principais, Mãos de Cavalo revela-se como um belo romance de formação. No final, cumpre-se o rito de passagem, e o escritor está pronto – talvez, como seu personagem, solitário e dirigindo por uma terra hostil.

 
 
 
 
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