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Livros Viagem
ao fundo da dor A americana Joan Didion faz uma
anatomia do sofrimento ao lembrar a morte do marido 
Jerônimo Teixeira
Divulgação  |
| Quintana, John Dunne e Joan Didion, em 1976: imagens
que desbotam aos poucos | A escritora e jornalista americana
Joan Didion estava aprontando o jantar quando seu marido, o também escritor
John Gregory Dunne, tombou no chão do apartamento do casal em Nova York.
Vítima de um ataque cardíaco, ele morreria na mesma noite
30 de dezembro de 2003 , ao dar entrada no hospital. Por essa época,
a filha de Joan e Dunne, Quintana, estava internada em outro hospital, em coma
após um choque séptico causado por uma pneumonia aguda. Cerca de
dez meses depois da morte do marido, Joan Didion resolveu escrever sobre seu próprio
drama familiar. Foi uma empreitada de risco: um tema tão pessoal e doloroso
muitas vezes se torna um convite à autocomplacência e à franca
pieguice. A autora, porém, encontrou o tom certo em O Ano do Pensamento
Mágico (tradução de Paulo Andrade Lemos; Nova Fronteira;
222 páginas; 19,90 reais). E compôs uma admirável anatomia
do luto. O
Ano do Pensamento Mágico guarda afinidades com Elegia para Iris,
do crítico britânico John Bayley. São dois livros de devastadora
sinceridade protagonizados por casais de escritores. Bayley, porém, não
tratou da morte, mas sim da decadência física e mental da mulher,
a escritora Iris Murdoch (ela morreria em 1999, pouco depois da publicação
do livro). Com mais de 500.000 exemplares vendidos nos Estados Unidos, O Ano
do Pensamento Mágico tornou-se o maior sucesso de público de
Joan, que no entanto já era uma escritora consagrada pela crítica
o seu Play It as It Lays foi escolhido como um dos 100 melhores
romances em língua inglesa dos últimos oitenta anos pela revista
Time. "Eu tinha a sensação de que John estava comigo enquanto
eu escrevia o livro", disse a autora a VEJA. "E não estou falando de nenhuma
bobagem mística." É a esse tipo de sensação que o
título faz referência: Joan, como muitos que enfrentam uma grande
perda, viu-se assaltada por todo tipo de pensamento mágico. Mas forçou-se
a uma disciplina racional, buscando informações sobre luto e morte
em todo tipo de fonte do clássico ensaio de Freud sobre luto e melancolia
a um manual de etiqueta com recomendações para enlutados dos anos
20. Surpreendentemente, ela afirma
que a literatura sobre o luto é escassa. Um relato tão detalhado
como o seu sobre a perda do marido e sobre o calvário hospitalar
da filha, que morreu pouco depois de Joan ter concluído a redação
do livro de fato não é um gênero comum. Mas a dor da
morte é um dos temas mais constantes da literatura. Entre os poucos versos
da poetisa Safo (século VI a.C.) que chegaram até os dias de hoje,
há um fragmento curto mas pungente que fala de uma jovem que morre pouco
antes de seu casamento, e das amigas que, conforme o costume grego, cortaram o
cabelo em sinal de luto. No século XIII, Dante tratou, em prosa e verso,
da morte de sua jovem amada Beatriz em Vida Nova. Ele encerrava essa obra
breve prometendo que, em livros futuros, diria de Beatriz "o que nunca foi dito
de mulher alguma". Cumpriu o prometido: na Divina Comédia, Beatriz
aparece no Paraíso, cercada de luz. No extremo oposto dessa idealização
arrebatada, teríamos a poesia de Augusto dos Anjos, brasileiro da virada
do século XIX para o XX. Carregados de um bizarro léxico científico,
seus poemas centram-se na realidade física da morte. Há um soneto
sobre a decomposição do pai do poeta, e outro em que seu filho que
nasceu morto aos sete meses de gestação é descrito como um
"fruto rubro de carne agonizante". Não é leitura aconselhável
para quem acabou de deixar um ente querido no cemitério.
Joan buscou alguns clássicos modernos em que se fala da dor. Ela não
se lembrou das páginas de Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust,
em que o protagonista sofre com a morte de uma avó querida, mas elogia
a sensibilidade de um episódio de A Montanha Mágica, de Thomas
Mann, em que o personagem perde a mulher. Sobretudo, ela aprecia Blues Fúnebres
(poema que se popularizou ao ser recitado por um personagem do filme Quatro
Casamentos e um Funeral), de W.H. Auden, com sua tristeza sem concessões:
o sol pode se apagar e o mar secar, diz o poeta, porque nada mais poderá
dar certo depois da morte do amado.
Menos pessimista, o herói de Sábado, do inglês Ian
McEwan, oferece uma certa perspectiva de continuidade. O protagonista visita a
mãe senil em um asilo e contempla a idéia de que em breve terá
de fazer os arranjos para enterrá-la, porque é assim, afinal, que
a vida segue. A passagem, por si mesma tocante, torna-se mais significativa quando
se sabe que a mãe do próprio McEwan, morta alguns anos antes da
publicação de Sábado, sofreu da mesma doença
neurológica que afeta a personagem. É talvez uma superação
do luto por meio da ficção. Será ilusório, porém,
imaginar que a literatura traz qualquer consolo efetivo. A própria Joan
não oferece nada do gênero em seu livro. Nas páginas finais,
ela lamenta que a imagem de Dunne esteja se tornando aos poucos menos clara, mais
embotada ela lamenta, em suma, a superação da dor. Em meio
às fórmulas banais de felicidade que se vendem nas prateleiras de
auto-ajuda (inclusive nas duvidosas seções de "filosofia oriental"),
O Ano do Pensamento Mágico é uma defesa da necessidade do
sofrimento e do direito a ele. |