Edição 1953 . 26 de abril de 2006

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Música
Revolução francesa

O sucesso da cantora Carla Bruni
na trilha de Belíssima revela
a nova chanson ao Brasil


Sérgio Martins

Joan Mchugh/AFP
A ex-modelo Carla Bruni: sempre aos sussurros


Toda vez que Erica Assumpção, a personagem de Letícia Birkheuer em Belíssima, novela da Rede Globo, entra em cena, as baladas e os rocks de sempre dão espaço a uma melodia acústica, em que a vocalista sussurra versos em francês. Trata-se de um caso raro nas trilhas sonoras internacionais, nas quais o inglês é a língua hegemônica (seguida pelo italiano, quando o folhetim é de Benedito Ruy Barbosa). Apelidada de "tema da doidinha", a música se chama Quelqu'un M'a Dit (Alguém Me Disse) e sua autora e intérprete é Carla Bruni, de 39 anos. Italiana radicada na França, Carla lançou em 2002 seu primeiro disco, também batizado de Quelqu'un M'a Dit. Vendeu 2 milhões de cópias ao redor do mundo e despertou a atenção da crítica para um fenômeno – a nova chanson. Ao lado de Carla, o produtor e compositor Benjamin Biolay e cantoras como Camille, Coralie Clément e Emilie Simon formam um time de artistas que estão renovando o pop francês.

As origens da chanson datam do século XIII. O gênero tinha um forte elemento narrativo – celebrava os feitos dos grandes personagens e contava histórias de amor. Essa vertente amorosa, sobretudo, atravessou o tempo e chegou ao século XX na voz de artistas como Edith Piaf, Charles Aznavour e Sacha Distel (os dois últimos, muitas vezes, de gosto duvidoso). Graças a Serge Gainsbourg (1928-1991), a chanson ganhou sabor pop nos anos 50. Gainsbourg é lembrado pela quase pornô Je T'aime... Moi Non Plus, de 1969, mas seu repertório vai além disso. Fãs da chanson tradicional gostam de Gainsbourg, assim como jovens roqueiros que de tempos em tempos lhe prestam homenagem.

Os artistas da nova chanson são chamados de "netos de Gainsbourg". A crítica francesa diz que eles são moderninhos que nunca perderam as aulas de literatura – por isso costumam fazer boas letras. "Em minhas canções, eu assumo a personalidade de uma criança de 7 anos e em seguida encarno uma mulher de 77", jacta-se Camille, de 26 anos. Formada em letras e ciências políticas, ela se apresenta nesta semana no Recife, em São Paulo e no Rio para divulgar o CD Le Fil, no qual acrescenta pitadas de eletrônica à chanson. Ex-modelo, Carla Bruni já teve romances com roqueiros famosos como Eric Clapton e Mick Jagger. Hoje, vive com um professor de filosofia da Universidade Sorbonne. Embora não tenha formação acadêmica, não deixa de ter jeito com as palavras. "Dizem que o tempo que desliza é um canalha / De nossas tristezas ele faz seu manto", elucubra ela em Quelqu'un M'a Dit. Sempre sussurrando. "Eu canto sussurrado porque meu disco é para ouvir na cama. Seja para embalar meu filho, seja para amar meu marido", diz ela.

 
 
 
 
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