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Música
Revolução francesa
O sucesso da cantora Carla Bruni
na trilha de Belíssima revela
a nova chanson ao Brasil

Sérgio Martins
Joan Mchugh/AFP
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| A ex-modelo Carla Bruni: sempre aos sussurros
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Toda vez que Erica Assumpção, a personagem de Letícia
Birkheuer em Belíssima, novela da Rede Globo, entra
em cena, as baladas e os rocks de sempre dão espaço
a uma melodia acústica, em que a vocalista sussurra versos
em francês. Trata-se de um caso raro nas trilhas sonoras internacionais,
nas quais o inglês é a língua hegemônica
(seguida pelo italiano, quando o folhetim é de Benedito Ruy
Barbosa). Apelidada de "tema da doidinha", a música se chama
Quelqu'un M'a Dit (Alguém Me Disse) e sua autora e
intérprete é Carla Bruni, de 39 anos. Italiana radicada
na França, Carla lançou em 2002 seu primeiro disco,
também batizado de Quelqu'un M'a Dit. Vendeu 2 milhões
de cópias ao redor do mundo e despertou a atenção
da crítica para um fenômeno a nova chanson.
Ao lado de Carla, o produtor e compositor Benjamin Biolay e
cantoras como Camille, Coralie Clément e Emilie Simon formam
um time de artistas que estão renovando o pop francês.
As origens da chanson
datam do século XIII. O gênero tinha um forte elemento
narrativo celebrava os feitos dos grandes personagens e contava
histórias de amor. Essa vertente amorosa, sobretudo, atravessou
o tempo e chegou ao século XX na voz de artistas como Edith
Piaf, Charles Aznavour e Sacha Distel (os dois últimos, muitas
vezes, de gosto duvidoso). Graças a Serge Gainsbourg (1928-1991),
a chanson ganhou sabor pop nos anos 50. Gainsbourg é
lembrado pela quase pornô Je T'aime... Moi Non Plus,
de 1969, mas seu repertório vai além disso. Fãs
da chanson tradicional gostam de Gainsbourg, assim como jovens
roqueiros que de tempos em tempos lhe prestam homenagem.
Os artistas da nova chanson
são chamados de "netos de Gainsbourg". A crítica francesa
diz que eles são moderninhos que nunca perderam as aulas
de literatura por isso costumam fazer boas letras. "Em minhas
canções, eu assumo a personalidade de uma criança
de 7 anos e em seguida encarno uma mulher de 77", jacta-se Camille,
de 26 anos. Formada em letras e ciências políticas,
ela se apresenta nesta semana no Recife, em São Paulo e no
Rio para divulgar o CD Le Fil, no qual acrescenta pitadas
de eletrônica à chanson. Ex-modelo, Carla Bruni
já teve romances com roqueiros famosos como Eric Clapton
e Mick Jagger. Hoje, vive com um professor de filosofia da Universidade
Sorbonne. Embora não tenha formação acadêmica,
não deixa de ter jeito com as palavras. "Dizem que o tempo
que desliza é um canalha / De nossas tristezas ele faz seu
manto", elucubra ela em Quelqu'un M'a Dit. Sempre sussurrando.
"Eu canto sussurrado porque meu disco é para ouvir na cama.
Seja para embalar meu filho, seja para amar meu marido", diz ela.
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