Edição 1953 . 26 de abril de 2006

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Economia e Negócios
A carne é forte

Rubaiyat abre filial na Espanha e dá
força ao movimento de expansão para
o exterior das churrascarias brasileiras


Antonio Ribeiro, de Madri


Fotos Antonio Ribeiro
Belarmino Filho (acima) comanda o salto internacional do Rubaiyat, que começa pela Espanha, terra de Belarmino pai (em sua casa na Galícia)

Há 55 anos, o imigrante espanhol Belarmino Fernandez Iglesias atravessou o Atlântico no navio Cabo de Hornos para recomeçar a vida em São Paulo. Lavou pratos, foi garçom e chegou a maître de uma churrascaria. Seis anos depois ele já era dono de seu próprio restaurante, o Rubaiyat. Na semana passada, a família Iglesias voltou à Espanha. Desta vez para inaugurar sua primeira unidade na Europa, o Baby Beef Rubaiyat, em Madri. O projeto do Rubaiyat Madrid surgiu em 1998 e durante oito anos os Iglesias negociaram a compra ou o aluguel de um ponto prestigioso na cidade, o restaurante Cabo Mayor. Por duas vezes fecharam o negócio, mas, na hora de assinar o contrato, os donos madrilenos voltavam atrás. Finalmente, em março de 2005, os Iglesias conseguiram alugar o restaurante. Ele ocupa o térreo de um edifício residencial de sete andares, construído na década de 60, em uma área perto do estádio do Real Madrid e da Plaza de Castilla. O restaurante fica na Rua Juan Ramon Giménez, homenagem ao poeta espanhol ganhador do Prêmio Nobel de Literatura em 1956. O projeto custou 5 milhões de dólares e terá capacidade para atender 12.000 clientes por mês.

O espaço foi todo remodelado por sessenta operários, entre os quais quatro brasileiros que vieram da Fazenda Rubaiyat para montar as treliças de madeira do teto e as mesas, cujos tampos são lâminas espessas de troncos de ipê.


Alcir N. da Silva
Porcão: desde 1992 em Miami, a rede carioca inaugurou sua segunda churrascaria americana em janeiro, em Nova York

A expansão européia do Rubaiyat tem um sabor de volta às origens e quem comanda a difusão da rede é o primogênito, Belarmino Fernandez Iglesias Filho, 45 anos. Em agosto do ano passado, Belarmino mudou-se com a mulher, Ana Lúcia, e os dois filhos para Madri. Ele se desdobra, passando doze dias por mês na Espanha e dezoito no Brasil. Os Iglesias são proprietários de três restaurantes em São Paulo e sócios da churrascaria Cabaña Las Lilas, em Buenos Aires. Os planos internacionais são ambiciosos. Até 2010 serão abertos três novos Rubaiyat. O primeiro em Barcelona, o segundo em Lisboa e o último em Londres. O objetivo é formar uma rede de dez restaurantes com faturamento anual de 50 milhões de dólares. "Fazemos artesanalmente um produto personalizado em grande escala. Produção e serviço acontecem no ato do consumo. Uma situação com elementos propícios ao desastre. Dez restaurantes é o limite máximo para manter a qualidade que nos distingue", diz Belarmino Filho.

Diferentemente das outras churrascarias brasileiras que estão instaladas fora do país, o Rubaiyat vai abastecer seus restaurantes com carne produzida no Brasil. A filial terá um estoque de 5 toneladas de carne, a previsão de consumo mensal. Na Fazenda Rubaiyat, em Dourados, Mato Grosso do Sul, são criadas 6 500 cabeças de gado bovino da raça brangus, um cruzamento do gado abeerden-angus, de origem escocesa, com a rusticidade do boi indiano, o brahman. Mas a grande arma do Rubaiyat para a conquista européia está na sua simpática infantaria, responsável pelo serviço à clientela. "Os clientes não podem deixar de ver ao menos um Iglesias circulando, permanentemente, em cada um dos restaurantes da família", diz Belarmino. É essa fórmula que eles querem repetir internacionalmente.


Jorge Bispo
Divulgação
Arri Coser: a Fogo de Chão nos Estados Unidos responde por 75% do faturamento do grupo

O grupo Rubaiyat não é o precursor na idéia de abrir filiais fora do país. O Porcão foi um dos primeiros a apostar que o tradicional rodízio brasileiro daria certo em terras estrangeiras. Em 1992, a família Mocellin inaugurou um restaurante em Miami que fez sucesso entre a colônia brasileira. Mas foi só em janeiro deste ano que a segunda churrascaria internacional da rede foi aberta, em Nova York. "Trabalhamos algum tempo com franquias e não deu resultado", diz Amanda Mocellin, gerente de marketing do Porcão, que tem oito unidades no Brasil. A Fogo de Chão chegou depois aos Estados Unidos, em 1997, mas teve uma expansão mais rápida. Há nove anos, os irmãos Arri e Jair Coser, junto com os sócios Aleixo e Jorge Ongaratto, inauguraram a primeira churrascaria em Dallas, no Texas. A cidade é famosa pelas várias casas que servem carne, as steak houses, e a Fogo de Chão caiu no gosto dos americanos, que pagam 52 dólares pelo rodízio. Em seguida, o Texas ganhou uma segunda casa, em Houston, onde o ex-presidente e pai do atual presidente americano George Bush é um dos fregueses mais famosos. Depois vieram unidades em Atlanta, Chicago, Califórnia e Washington. Os restaurantes da Fogo de Chão em solo americano garantem 75% do faturamento de 75 milhões de dólares anuais do grupo, que tem outras quatro unidades no Brasil. Por ano, a churrascaria atende 1,2 milhão de americanos, o dobro dos clientes brasileiros. "O que garantiu nosso sucesso aqui nos Estados Unidos foi a previsibilidade da economia americana", diz Arri Coser.

A legislação trabalhista nos Estados Unidos é mais flexível do que a brasileira, e os impostos que incidem sobre a folha de pagamento dos funcionários são mais baixos. As empresas costumam pagar 30% em imposto e tributos sobre a folha de salários de cada funcionário. No Brasil, esse porcentual pode chegar a 102%. Outro fator que estimula os negócios nos Estados Unidos é a facilidade para obter financiamentos que podem ser usados na expansão das redes. "Os juros são de 5% ou 6% ao ano, e o prazo para pagamento é de mais de dez anos", diz Coser. Em Dallas, a Fogo de Chão enfrenta concorrência de outro rodízio brasileiro, a churrascaria Boi na Braza. Há seis anos nos Estados Unidos, a churrascaria tem outra unidade em Atlanta – as duas juntas faturam 7 milhões de dólares e recebem 12.000 clientes por ano. Se para Coser a aventura externa tem o gosto do desbravamento, para Belarmino Iglesias ela se reveste de tons épicos. Além de inaugurar um restaurante em Madri, o imigrante que saiu pobre voltou rico a sua terra natal, Rosende, na Galícia. Teve o prazer de comprar o Pazo de Rivas, o casarão dos antigos todo-poderosos da região, para quem ele e seus pais cultivaram a terra por um pagamento miserável. Reformou a casa e ali instalou uma fundação educacional freqüentada gratuitamente por cinqüenta alunos pobres da região que querem fazer carreira no ramo de restaurantes. Diz Berlarmino: "Os formandos saem de lá com emprego garantido".

Com reportagem de Chrystiane Silva

 
 
 
 
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