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Economia e Negócios
O show do crediário
As lojas travam guerra para emprestar
dinheiro e dar mais crédito. A razão é simples.
O consumidor brasileiro paga juros de mais
de 100% ao ano e nem percebe

Lucila Soares
A cabeleireira Márcia Cristine
Mendes, de 35 anos, e seu marido, o feirante Gilson Oliveira, de
38, moram em Cariacica, município pobre da região
metropolitana de Vitória, numa casa equipada com TV de 29
polegadas, DVD, aparelho de som, forno de microondas, fogão,
exaustor, máquina de lavar roupa, filmadora e esteira de
ginástica. Tudo comprado a crédito, ao longo dos últimos
três anos. O casal, com renda mensal de 2.000 reais, é
um típico representante do novo consumidor popular, que deixou
de ser o patinho feio do sistema financeiro para ser alvo da cobiça
dos principais bancos do país. É atrás de pessoas
como eles que um exército de panfleteiros lota as ruas comerciais
das grandes cidades, onde proliferam financeiras, independentes
ou ligadas a bancos, que até pouco tempo atrás fugiam
dos empréstimos pessoais como o diabo da cruz. Ao mesmo tempo,
começam a surgir parcelamentos a prazos impensáveis
há muito pouco tempo, como o financiamento de automóveis
em 72 meses.
Nunca
houve, na história brasileira, tanto dinheiro oferecido para
financiar o consumo. Crédito sempre foi produto caro e escasso
por aqui. Mais ainda o crédito pessoal, modalidade especialmente
frágil em ambiente de incerteza sobre o futuro. Foi em 1994,
e mais acentuadamente nos últimos cinco anos, que o panorama
começou a modificar-se. Ainda que na última reunião
do Comitê de Política Monetária (Copom), na
quarta-feira passada, a taxa Selic tenha sido reduzida ao nível
mais baixo em cinco anos, o crédito continua custando os
olhos da cara. Mas a oferta aumentou espetacularmente. O crédito
pessoal atingiu, no ano passado, 154,2 bilhões de reais,
com crescimento de 384% desde 1995, ano seguinte à edição
do Plano Real (veja quadro ao lado).
Boa parte desse crescimento tem como
pano de fundo a descoberta de uma parcela da população
que esteve sistematicamente excluída do sistema formal de
crédito, apesar de representar 77% da população
e 71% do consumo no Brasil (veja
quadro). Esses consumidores, agrupados nas classes
C (renda de cinco a dez salários mínimos), D (de dois
a cinco mínimos) e E (menos de dois mínimos), têm
sido a grande alavanca do aumento recente da oferta de crédito,
como confirma levantamento feito para VEJA pela Partner, consultoria
de São Paulo especializada em serviços financeiros
ao consumidor. Os dados relativos às modalidades de crédito
voltadas especificamente para esse público são impressionantes:
O valor das operações
feitas através de estabelecimentos comerciais conveniados
com bancos ou financeiras os chamados correspondentes bancários
cresceu 459% entre 2003 e 2005. Só no ano passado, foram
realizados 2,5 milhões de operações desse tipo.
O crédito consignado
(com desconto em folha) é outra modalidade que incorporou
uma multidão de consumidores. Em 2004, quando surgiu, essa
forma de empréstimo fechou o ano com saldo de 9,69 bilhões
de reais. No ano passado, o valor quase dobrou. E em 2006 a expectativa
é que essas operações atinjam 33,6 bilhões
de reais.
Levantamento da Credicard,
a maior emissora de cartões de crédito do país,
mostra que os portadores de cartão com renda de até
500 reais por mês movimentarão, neste ano, mais de
10 bilhões de reais. Desde 2001, esse segmento registrou
crescimento de 144%, superior ao das faixas mais altas de renda.
A LatinPanel, o maior instituto
brasileiro de pesquisa de consumo domiciliar, mostrou que nos últimos
dois anos as classes C, D e E passaram a consumir produtos até
então considerados supérfluos.
A Associação
Brasileira de Supermercados (Abras) estima que mais da metade das
compras em estabelecimentos a ela associados foram feitas com cartão
de crédito no caso, os cartões próprios das
lojas, outro exemplo de crescimento espantoso, superior a 100%,
desde 2000.
Fotos Roberto Setton
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CENTAVO A CENTAVO
No centro de São Paulo, a disputa
para oferecer dinheiro ao consumidor começa na calçada
e continua em financeiras instaladas dentro de supermercados:
os grandes bancos associaram-se às principais redes de
varejo do Brasil para explorar um mercado formado por pessoas
com renda de até dez salários mínimos,
antes excluídas do sistema de crédito |
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Quando o assunto é cartão
de supermercado, a carioca Sônia Regina Vasco, que trabalha
como autônoma fazendo transporte escolar, é especialista
tem três. Com eles, comprou, em pouco mais de um ano, uma
TV de 29 polegadas, churrasqueira, som, DVD e ventilador, tudo parcelado
em dez vezes. "É uma maravilha, porque a gente pode dividir
as compras em várias parcelas sem sobrecarregar o cartão
de crédito tradicional", diz. Esse fenômeno pode ser
visto pelo lado negativo. As pessoas estariam se endividando por
estar mais pobres, e o resultado previsível disso é
que, a médio prazo, elas não conseguirão honrar
os compromissos. Não é o que mostram os números.
A renda média das famílias realmente recuou em relação
a 1995, auge do Plano Real. No entanto, desse ano até 2005,
o salário mínimo cresceu acima da inflação
(329% contra 147%), enquanto alimentos e eletrodomésticos
subiram abaixo do INPC. São fatos que beneficiaram diretamente
as classes C, D e E, e é por isso que pessoas como Márcia,
Gilson e Sônia se tornaram clientes atraentes como tomadores
de crédito.
À mudança ocorrida
na ponta do consumo soma-se a experiência acumulada com erros
do passado recente, quando empresas sem nenhuma experiência
financeira investiram nas vendas a prazo para aproveitar a onda
de consumo que se seguiu ao Real. Não deu certo, claro. Agora,
a situação é diferente, e a mudança
pode ser explicada por duas palavras, analisa Alvaro Musa, diretor
da Partner. "Estabilidade, sem a qual não pode haver crédito,
e profissionalização, com desenvolvimento de tecnologias
adequadas de análise de risco, são a chave do que
está acontecendo", diz o executivo, que foi presidente da
Credicard e da Fininvest e diretor do Citibank. Renato Meirelles,
diretor do instituto de pesquisa Data Popular, especializado no
mercado de baixa renda, diz que a maior prova da mudança
é o bom desempenho das empresas que descobriram cedo o potencial
desse filão. "Não é por acaso que o rapaz das
Casas Bahia ri tanto", brinca.
Michael Klein, presidente das Casas
Bahia, tem bons motivos para concordar. No ano passado, em suas
504 lojas (a meta é chegar a 1.000 em 2010), foram vendidos
4,1 milhões de celulares, 1,7 milhão de DVDs e 2,2
milhões de televisores. Ele atribui o sucesso da rede, a
maior varejista de eletrodomésticos e móveis do país
e uma das primeiras a apostar na força do consumo popular,
exatamente à política de crédito que desenvolveu.
Dependendo do bem a ser adquirido, qualquer pessoa tem acesso a
um crédito inicial de dois salários mínimos
sem exigência de comprovação de renda. Desde
o ano passado, as Casas Bahia associaram-se ao Bradesco para financiar
parte de suas vendas a prazo, num casamento cada vez mais comum
e lucrativo. "A vantagem é que em vez de usar o lucro para
financiar o crediário podemos usá-lo para investir
em expansão", diz Klein. Traduzindo, isso significa 200 milhões
de reais sendo investidos neste ano na abertura de novas lojas e
centros de distribuição.
Octavio Cardoso
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VOU DE TÁXI
O paraense Alexandre Menezes e sua mulher,
Lilian, com o filho Alex no colo: quase 70% da renda vai para
pagar prestações, inclusive do parto do bebê.
Mas vale a pena. A troca do carro e a compra do celular aumentaram
a freguesia do táxi de Gilson em Belém |
A desvantagem é deixar com o
banco a maior parte do lucro gerado pelos juros dos financiamentos,
o que não é pouco. O crédito pessoal tem valores
mais baixos e juros mais altos que o concedido às empresas.
Para dar uma idéia, com a nova taxa Selic, de 15,75%, a média
dos juros cobrados no comércio ficará em 103,28% ao
ano, contra os também altíssimos 63,46% cobrados nos
empréstimos que financiam capital de giro das empresas
o cálculo é da Associação Nacional dos
Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade
(Anefac). Com isso, esse tipo de crédito representa margens
de lucro até vinte vezes maiores. O resultado é que,
no ano passado, o crédito pessoal ajudou, e muito, a catapultar
às alturas os lucros dos bancos. É por esse motivo
que, nos últimos três anos, todos os bancões
apostaram suas fichas nos produtos voltados para o financiamento
do consumo. Para isso, investiram na compra de financeiras (o HSBC
comprou a Losango, o Bradesco, a Finasa e o Unibanco, a Fininvest)
ou criaram as próprias caso do Itaú com a Taií.
Ninguém tem motivo de queixa. A Taií, por exemplo,
fechou 2005 com 130 lojas no Rio e em São Paulo e planeja
abrir mais 170 em todo o Brasil neste ano, além de investir
na parceria com a Companhia Brasileira de Distribuição
(Pão de Açúcar, Extra, CompreBem e Sendas)
e com as Lojas Americanas.
Empresas estrangeiras também
começam a se interessar pelo crédito ao consumidor
no Brasil. A francesa Cetelem, do grupo BNP Paribas, o segundo maior
da União Européia, acaba de fechar parceria com a
Casa&Vídeo, uma das mais populares do Rio de Janeiro
(onde tem 61 lojas, além de oito no Espírito Santo),
para financiamento do crédito direto ao consumidor e a emissão
de um cartão da loja com a bandeira Aura. Eduardo Teixeira,
diretor financeiro da rede, espera em três anos atingir 1
milhão de cartões. "Temos certeza de que existe uma
grande camada de consumidores sem crédito, e é preciso
atendê-los", diz. No HSBC, o investimento no crédito
pessoal é uma estratégia mundial. Em 2003, o banco
comprou a Household International, a segunda maior companhia americana
de crédito ao consumo, que passou a se chamar HSBC Finance
Corporation e a orientar toda a atividade do banco nessa área.
No mesmo ano, comprou a Losango, líder do mercado brasileiro,
com 17 milhões de clientes, com o objetivo específico
de ganhar espaço nas classes C, D e E, que não são
os correntistas preferenciais do banco.
Oscar Cabral
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HAJA CARTÃO
A carioca Sônia Regina Vasco e
o marido, José Carlos Maçaneiro da Silva: ela
tem três cartões de supermercado, que usa para
pagar as compras do mês e também para parcelar
os eletrodomésticos com que equipou sua casa |
O HSBC não é a única
grande empresa global a seguir essa rota. Esse público é
tema de um dos livros mais lidos pelos executivos de varejo e bancos
no mundo atualmente, A Riqueza na Base da Pirâmide, do
economista indiano C.K. Prahalad, professor da Universidade de Michigan.
Há 3 bilhões de pessoas no mundo vivendo com menos
de 2 dólares por dia. Essa população precisa
ser vista como um gigantesco mercado, e não apenas como alvo
de ações sociais, defende o economista, que dá
como exemplo o sucesso da política de crédito das
Casas Bahia. Guardadas as proporções, uma vez que
sua renda é muito superior à que serve de base ao
trabalho de Prahalad, o taxista paraense Alexandre Menezes, de 31
anos, comprova o acerto da tese. Trabalha catorze horas por dia,
seis dias por semana, e tira por mês cerca de 1.800 reais,
dos quais 70% se destinam ao pagamento de prestações.
A maior delas é a de seu carro "novo", um Fiat Siena 2002,
comprado no início deste ano. O financiamento, contraído
em um banco, custa-lhe 740 reais por mês e se estenderá
até 2009. O taxista gasta mais 500 reais por mês em
parcelamentos, contraídos para adquirir um celular, um aparelho
de som e o enxoval de seu primeiro filho, que nasceu em fevereiro
e também se chama Alexandre. Ele afirma que boa parte de
suas compras foi feita para melhorar seu rendimento na praça.
"Tenho mais clientes porque o porta-malas é grande. E passei
a fazer basicamente as corridas das pessoas que me ligam no celular",
conta.
O caso de Menezes é o melhor
exemplo do que se chama círculo virtuoso. Seu endividamento
é alto, mas compatível com o que ele consegue pagar
e, principalmente, lhe proporciona acesso a bens que o ajudam a
aumentar sua renda e, conseqüentemente, a melhorar sua qualidade
de vida. Extrapolado para o conjunto da economia, seu exemplo mostra
que o crédito pode significar um importante motor do crescimento.
Ao propiciar o aumento do consumo, obriga as empresas a produzir
mais, portanto a empregar mais, isso aumenta a renda da população,
que pode comprar mais, melhorar de vida, e assim por diante.
Esse é o melhor cenário.
É isso que acontece nos Estados Unidos, onde o endividamento
é muito mais alto que no Brasil e o crédito efetivamente
está na base da maior economia do mundo. Mas ainda não
se pode ter certeza de que ele se confirmará aqui. Os juros
continuam na estratosfera, e basta fazer algumas contas para perceber
como é fácil o consumidor meter os pés pelas
mãos na hora de pagar o crediário. Uma geladeira de
800 reais, com juros de 6,09% ao mês (taxa já calculada
pela nova Selic), sai por suaves doze prestações de
95,89 reais, sem entrada. O risco é o cidadão se animar
com as condições e começar a acumular compromissos.
A Serasa, empresa especializada em
análise de crédito, fez um levantamento e constatou
que o perigo mora no décimo mês depois da compra. Normalmente
é aí que começam os atrasos de pagamento. Outro
tipo freqüente de problema acontece com os tomadores de crédito
consignado, que, como têm desconto em folha, acabam vendo
o orçamento minguar. O risco aumenta quando o empréstimo
é feito para ajudar outras pessoas. Elas podem não
ter como pagar, e a conta estoura do mesmo jeito. A pensionista
carioca Ana Pérola de Castro Oliveira, 47 anos, já
pegou quatro empréstimos em menos de dois anos, totalizando
4.600 reais valor cinco vezes maior que sua renda. Nenhum para
uso próprio. "Só empresto a pessoas de confiança",
diz Ana, que se orgulha de nunca ter tido problema. Mas é
inegável que o risco é alto. Afinal, mesmo pessoas
de confiança podem ter problemas que impeçam o pagamento.
Nesse caso, não resta ao titular do empréstimo outra
saída a não ser honrar o compromisso.
Tadeu Bianconi
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TUDO NOVO
Márcia Cristine Mendes e Gilson
Oliveira, com Gustavo e João Pedro: em três anos,
eles equiparam sua casa, em Cariacica, com TV de 29 polegadas,
DVD, microondas e filmadora. Agora ela está pagando um
ar-condicionado para seu salão de cabeleireiro |
Os índices de inadimplência
não estão num nível alarmante. Mas têm
aumentado, e isso precisa ser monitorado com cautela. Dados do Banco
Central mostram que o volume de prestações vencidas
há mais de noventa dias prazo em que o não-pagamento
deixa de ser considerado um simples atraso está na faixa
de 8% do total de crédito pessoal concedido pelos bancos.
Esse porcentual já foi muito maior (chegou a 13% na ressaca
do consumo do Plano Real), mas também já foi menor:
no ano passado, havia recuado para 6%. A Serasa, que além
dos financiamentos concedidos por meio da rede bancária acompanha
outros indicadores cheques devolvidos e títulos protestados,
por exemplo , também detectou em março um aumento
expressivo da inadimplência.
É preciso estar atento.
O melhor cenário depende de algumas variáveis. A principal
é que o Brasil invista nas condições necessárias
para o crescimento e a geração de empregos, e isso
inclui uma pauta de reformas já mais do que conhecida, com
mudanças nas estruturas trabalhista, previdenciária
e tributária do país. A boa notícia é
que existem condições privilegiadas para que isso
ocorra. O ex-ministro Maílson da Nóbrega, sócio
da consultoria Tendências, diz que a atual expansão
do crédito não tem paralelo porque também não
tem paralelo o quadro com que o país se defronta atualmente.
O Brasil tem inflação sob controle e política
monetária e fiscal responsável. Além disso,
está mais integrado à economia mundial e, por isso,
mais protegido contra crises externas, como a asiática, que
obrigou a um aumento brutal das taxas de juros e provocou uma onda
de inadimplência em 1997. O ex-ministro aponta ainda o aumento
da segurança jurídica como um fator fundamental para
fazer crescer a oferta de crédito e, a médio prazo,
ajudar a reduzir os juros. Diz Maílson: "Finalmente aprendemos
que quem defende o devedor coitadinho acaba criando uma legião
de sem-crédito."
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Bahia X Wal-Mart
Robyn Beck/AFP
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| Wal-Mart, modelo de varejo nos
Estados Unidos: pressão nos fornecedores
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As Casas Bahia, a maior
rede varejista de eletrodomésticos e móveis
do país, são um fenômeno. Nenhuma
empresa se especializou em viabilizar financeiramente
os desejos de consumo das classes C, D e E com tanta
eficiência como a rede de Samuel Klein. As cifras
do ano passado são superlativas. As Casas Bahia
faturaram 11,5 bilhões de reais em suas 504 lojas.
A rede foi a primeira no país a desenvolver um
modelo único de financiamento com carnês
com diversas parcelas a serem pagas nas próprias
lojas. Todo mês, uma parte dos clientes tem de
voltar a uma das unidades da rede, o que estimula a
fidelidade das compras. O modelo de vendas financiadas
representa 70% de seu faturamento. A inadimplência,
de 8%, está acima da média do setor varejista,
mas é a metade da registrada pelos concorrentes
diretos. "As Casas Bahia apostaram em dar crédito
à população desbancarizada e deu
certo", diz Fernando Fernandes, consultor de varejo
da Booz Allen Hamilton. De cada cinco aparelhos de televisão
vendidos no país, um sai das prateleiras da rede.
Cerca de 4 milhões de celulares são comercializados
por ela todo ano. O sucesso do modelo de gestão
já foi estudado pela Universidade de Michigan
e, no ano passado, uma equipe da Harvard Business School
passou a analisar o uso de tecnologia da informação
na rede. Cada item vendido nas Casas Bahia é
monitorado em tempo real.
Guardadas todas as proporções,
as Casas Bahia representam no Brasil o que o Wal-Mart,
a maior empresa varejista do mundo em faturamento, representa
para os Estados Unidos. Grande parte da vantagem competitiva
da rede montada há 56 anos por Sam Walton está
nos volumes comprados e nos descontos decorrentes conseguidos
com os fornecedores. "As Casas Bahia também são
agressivas na negociação. Para os fabricantes
de eletroeletrônicos, o fato de ficar fora da
rede é prejuízo na certa", diz Francisco
Alvarez, professor especializado em varejo do Ibmec
São Paulo. A tentativa constante do Wal-Mart
de baixar preços fez o ex-presidente do Federal
Reserve, o banco central dos Estados Unidos, Alan Greenspan,
dizer que o Wal-Mart é um dos maiores responsáveis
pela baixa inflação americana. A rede
vende 300 bilhões de dólares por ano,
emprega 1,6 milhão de pessoas e tem mais de 60.000
fornecedores espalhados por setenta países. A
briga dos gigantes com os fornecedores terá sempre
como vencedor o cliente. No cenário brasileiro,
porém, os juros de mais de 100% ao ano tornam
esses benefícios muito menos impactantes.
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Com reportagem de
Fabiana Pizani, de Vitória, e Leonardo Coutinho, de
Belém
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