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Energia
Não sobra petróleo.
Falta crescimento
A auto-suficiência chega
em boa
hora, mas ela é fruto também
do pífio avanço do PIB brasileiro

Giuliano Guandalini e Cíntia Borsato
Simone Marinho/Ag. O Globo
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P-50, na Bacia de Campos: produção
de 180 000 barris diários é símbolo da
independência energética brasileira
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A Petrobras foi criada em 1953, por
decreto do presidente Getúlio Vargas, com o objetivo de tornar
o país auto-suficiente em petróleo. Foram necessários
mais de cinco décadas de trabalho de várias gerações
de profissionais e investimentos pesados, custeados por toda a nação,
para que o sonho finalmente se realizasse. Com a entrada em operação
da plataforma P-50, na Bacia de Campos (RJ), na sexta-feira passada,
o país finalmente produzirá mais petróleo do
que necessita. O feito não deve ser diminuído, principalmente
em um momento de grandes incertezas envolvendo o Irã, responsável
por 10% das reservas mundiais. As tensões geopolíticas
ajudaram a elevar ainda mais as cotações internacionais
do petróleo, que ultrapassaram a marca de 70 dólares
o barril, novo recorde. Nesse cenário, ter o fornecimento
básico assegurado é uma situação muito
confortável. O Brasil fica protegido contra uma catástrofe
econômica semelhante à da década de 70, quando
as duas crises do petróleo arruinaram as finanças
nacionais – o país, então, importava mais de 80% do
petróleo de que precisava. A auto-suficiência é
uma conquista de todo o país. Coube ao governo Lula anunciá-la.
Durante o atual governo, aliás, houve uma queda no ritmo
de aumento da produção de petróleo. A auto-suficiência
só foi possível de se viabilizar agora por dois motivos.
Um deles é negativo: o baixo crescimento econômico
do Brasil. O segundo é positivo: a diversificação
da matriz energética, com o aumento da utilização
do gás natural e do álcool combustível.
Analistas ouvidos por VEJA são
unânimes: tivesse o Brasil crescido a taxas semelhantes à
da economia mundial, a auto-suficiência ainda demoraria alguns
anos para chegar. Quanto maior a atividade econômica, maior
a demanda por combustíveis. Entre 2000 e 2005, o consumo
de derivados de petróleo caiu, em média, 0,4% ao ano,
reflexo do baixo crescimento e do maior uso de fontes alternativas,
como o álcool. Nesse período, o PIB brasileiro avançou
menos de 2,5% ao ano, bem abaixo da média mundial. De acordo
com projeções do Centro Brasileiro de Infra-Estrutura,
uma consultoria especializada em energia, um crescimento anual da
economia brasileira da ordem de 5% jogaria a auto-suficiência
para, na melhor das hipóteses, o ano de 2010. Se a demanda
por derivados avançasse 6,7% ao ano, como ocorreu entre 1995
e 1999, nem em 2010 o país teria a independência energética.
"Houve um aumento dramático na produção nos
anos 90 enquanto o consumo estagnava", resume o consultor Adriano
Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infra-Estrutura.
Se o crescimento econômico pífio
representa um aspecto a lamentar, a diversificação
energética brasileira faz inveja ao mundo. Segundo o engenheiro
Luiz Henrique Sanches, o gás natural representou nos últimos
anos uma economia diária de 300.000 barris de petróleo
no consumo nacional, enquanto o álcool ajudou a poupar outros
200 000 barris. Diz o especialista: "Sem esses dois produtos, a
auto-suficiência não seria atingida agora". Com a revolução
dos carros flex, o etanol vem ganhando cada vez mais espaço
nos tanques dos motoristas. Somando o porcentual adicionado à
gasolina ao consumo dos carros a álcool e bicombustíveis,
o etanol representa hoje cerca de um terço da vendagem de
combustíveis. A promessa agora é ainda mais ousada.
Diz Eduardo Carvalho, presidente da União da Agroindústria
Canavieira de São Paulo: "Nossa meta é praticamente
zerar a venda de gasolina no país dentro de dez a doze anos".
A auto-suficiência funciona
como um colchão que absorve os solavancos provocados por
crises externas mas não resolve todos os problemas. Não
significará, por exemplo, uma diminuição nos
preços dos combustíveis nos postos de gasolina. Para
obter o retorno de seus investimentos, a Petrobras não pode
deixar seus preços se desgarrarem totalmente das cotações
internacionais. O máximo que a empresa pode garantir é
um repasse mais lento das oscilações de preço
externas. Para a economia como um todo, atingir a auto-suficiência
é ótima notícia. Pela primeira vez na história,
a balança comercial do setor de petróleo ficará
positiva neste ano, com um saldo estimado em 3 bilhões de
dólares. São divisas que deixam de sair do país.
"O momento para atingir a auto-suficiência é o melhor
possível. Uma eventual crise externa não nos atingirá
em cheio", diz David Zylbersztajn, ex-diretor-geral da Agência
Nacional do Petróleo (ANP). Como lembra Zylbersztajn, a auto-suficiência
seria inimaginável não fosse a liderança tecnológica
da Petrobras quando o assunto é explorar em águas
ultraprofundas. "Essa não é uma conquista do governo
Lula nem de nenhum outro governo. É o resultado de décadas
de pesquisa", afirma. Aproximadamente 70% dos poços se encontram
a 400 metros abaixo do nível do mar. Sem as técnicas
desenvolvidas nos laboratórios da Petrobras, o país
estaria bem distante da festejada auto-suficiência. Por isso,
especialistas condenam a exploração política
que o governo já colocou em curso, com a pretensão
de transformar a conquista em um feito exclusivamente da gestão
Lula. "Querem fazer da auto-suficiência um ato político",
afirma o ex-ministro das Minas e Energia Rodolpho Tourinho, hoje
senador pelo PFL da Bahia. Para Tourinho, são "excessivos"
os gastos com a campanha publicitária de estimados 37 milhões
de reais. Vale registrar: uma das agências agraciadas com
o contrato milionário da Petrobras é a Duda Mendonça,
aquela mesmo, responsável pela campanha do presidente Lula,
dona de contas no exterior não declaradas e suspeita de lavagem
de dinheiro.
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