Edição 1953 . 26 de abril de 2006

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Energia
Não sobra petróleo.
Falta crescimento

A auto-suficiência chega em boa
hora, mas ela é fruto também
do pífio avanço do PIB brasileiro


Giuliano Guandalini e Cíntia Borsato

 

Simone Marinho/Ag. O Globo

P-50, na Bacia de Campos: produção de 180 000 barris diários é símbolo da independência energética brasileira



NESTA REPORTAGEM
Quadro: Se o Brasil tivesse crescido mais...
Quadro: Altos e baixos do petróleo

A Petrobras foi criada em 1953, por decreto do presidente Getúlio Vargas, com o objetivo de tornar o país auto-suficiente em petróleo. Foram necessários mais de cinco décadas de trabalho de várias gerações de profissionais e investimentos pesados, custeados por toda a nação, para que o sonho finalmente se realizasse. Com a entrada em operação da plataforma P-50, na Bacia de Campos (RJ), na sexta-feira passada, o país finalmente produzirá mais petróleo do que necessita. O feito não deve ser diminuído, principalmente em um momento de grandes incertezas envolvendo o Irã, responsável por 10% das reservas mundiais. As tensões geopolíticas ajudaram a elevar ainda mais as cotações internacionais do petróleo, que ultrapassaram a marca de 70 dólares o barril, novo recorde. Nesse cenário, ter o fornecimento básico assegurado é uma situação muito confortável. O Brasil fica protegido contra uma catástrofe econômica semelhante à da década de 70, quando as duas crises do petróleo arruinaram as finanças nacionais – o país, então, importava mais de 80% do petróleo de que precisava. A auto-suficiência é uma conquista de todo o país. Coube ao governo Lula anunciá-la. Durante o atual governo, aliás, houve uma queda no ritmo de aumento da produção de petróleo. A auto-suficiência só foi possível de se viabilizar agora por dois motivos. Um deles é negativo: o baixo crescimento econômico do Brasil. O segundo é positivo: a diversificação da matriz energética, com o aumento da utilização do gás natural e do álcool combustível.

Analistas ouvidos por VEJA são unânimes: tivesse o Brasil crescido a taxas semelhantes à da economia mundial, a auto-suficiência ainda demoraria alguns anos para chegar. Quanto maior a atividade econômica, maior a demanda por combustíveis. Entre 2000 e 2005, o consumo de derivados de petróleo caiu, em média, 0,4% ao ano, reflexo do baixo crescimento e do maior uso de fontes alternativas, como o álcool. Nesse período, o PIB brasileiro avançou menos de 2,5% ao ano, bem abaixo da média mundial. De acordo com projeções do Centro Brasileiro de Infra-Estrutura, uma consultoria especializada em energia, um crescimento anual da economia brasileira da ordem de 5% jogaria a auto-suficiência para, na melhor das hipóteses, o ano de 2010. Se a demanda por derivados avançasse 6,7% ao ano, como ocorreu entre 1995 e 1999, nem em 2010 o país teria a independência energética. "Houve um aumento dramático na produção nos anos 90 enquanto o consumo estagnava", resume o consultor Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infra-Estrutura.

Se o crescimento econômico pífio representa um aspecto a lamentar, a diversificação energética brasileira faz inveja ao mundo. Segundo o engenheiro Luiz Henrique Sanches, o gás natural representou nos últimos anos uma economia diária de 300.000 barris de petróleo no consumo nacional, enquanto o álcool ajudou a poupar outros 200 000 barris. Diz o especialista: "Sem esses dois produtos, a auto-suficiência não seria atingida agora". Com a revolução dos carros flex, o etanol vem ganhando cada vez mais espaço nos tanques dos motoristas. Somando o porcentual adicionado à gasolina ao consumo dos carros a álcool e bicombustíveis, o etanol representa hoje cerca de um terço da vendagem de combustíveis. A promessa agora é ainda mais ousada. Diz Eduardo Carvalho, presidente da União da Agroindústria Canavieira de São Paulo: "Nossa meta é praticamente zerar a venda de gasolina no país dentro de dez a doze anos".

A auto-suficiência funciona como um colchão que absorve os solavancos provocados por crises externas mas não resolve todos os problemas. Não significará, por exemplo, uma diminuição nos preços dos combustíveis nos postos de gasolina. Para obter o retorno de seus investimentos, a Petrobras não pode deixar seus preços se desgarrarem totalmente das cotações internacionais. O máximo que a empresa pode garantir é um repasse mais lento das oscilações de preço externas. Para a economia como um todo, atingir a auto-suficiência é ótima notícia. Pela primeira vez na história, a balança comercial do setor de petróleo ficará positiva neste ano, com um saldo estimado em 3 bilhões de dólares. São divisas que deixam de sair do país. "O momento para atingir a auto-suficiência é o melhor possível. Uma eventual crise externa não nos atingirá em cheio", diz David Zylbersztajn, ex-diretor-geral da Agência Nacional do Petróleo (ANP). Como lembra Zylbersztajn, a auto-suficiência seria inimaginável não fosse a liderança tecnológica da Petrobras quando o assunto é explorar em águas ultraprofundas. "Essa não é uma conquista do governo Lula nem de nenhum outro governo. É o resultado de décadas de pesquisa", afirma. Aproximadamente 70% dos poços se encontram a 400 metros abaixo do nível do mar. Sem as técnicas desenvolvidas nos laboratórios da Petrobras, o país estaria bem distante da festejada auto-suficiência. Por isso, especialistas condenam a exploração política que o governo já colocou em curso, com a pretensão de transformar a conquista em um feito exclusivamente da gestão Lula. "Querem fazer da auto-suficiência um ato político", afirma o ex-ministro das Minas e Energia Rodolpho Tourinho, hoje senador pelo PFL da Bahia. Para Tourinho, são "excessivos" os gastos com a campanha publicitária de estimados 37 milhões de reais. Vale registrar: uma das agências agraciadas com o contrato milionário da Petrobras é a Duda Mendonça, aquela mesmo, responsável pela campanha do presidente Lula, dona de contas no exterior não declaradas e suspeita de lavagem de dinheiro.

 
 
 
 
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