Edição 1953 . 26 de abril de 2006

Índice
Millôr
Claudio de Moura Castro
Diogo Mainardi
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Datas
Veja essa
Gente
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Imprensa
Encolher para crescer

Chega ao Brasil a tendência de
grandes jornais virarem tablóide
para atrair novos leitores


Ronaldo Soares


Gabriel Bouys/AFP
O Jornal do Brasil copia fórmula de tablóides europeus: outros diários brasileiros já admitem adotar a receita de sucesso estrangeira

Um dinossauro dos meios de comunicação que parecia fadado à extinção tenta se reinventar com uma fórmula que, se não chega a ser original, tem o mérito de dar o primeiro passo de uma tendência que deve ser seguida por outros grandes jornais brasileiros. Fundado há 115 anos, o Jornal do Brasil, um dos mais influentes do país entre os anos 50 e 90 e que vive nos últimos anos em agonia comercial, adotou uma estratégia ousada. Promoveu uma radical reforma gráfica, que trouxe como grande novidade um novo formato: o berliner, meio-termo entre o tablóide e o tamanho convencional, o standard. Seguiu, assim, uma receita usada por tradicionais periódicos europeus. Só nos últimos três anos, três dos cinco grandes diários ingleses "encolheram" – The Times, The Guardian e The Independent. A trinca, que vinha com tiragens cadentes, passou a vender mais. O sucesso pode ser creditado ao formato – prático de manusear e carregar e, principalmente, mais agradável aos olhos das novas gerações. E com um preço de capa menor, é claro. O fenômeno que agita o mercado editorial europeu e que agora o JB tenta repetir aqui é impulsionado pelo desafio imposto aos jornais para que eles não fiquem relegados à pré-história dos veículos de comunicação: como conquistar novos leitores num mundo cada vez mais dominado por meios mais atraentes para os jovens, como internet, celular e televisão?

Essa preocupação levou a Associação Mundial de Jornais a encomendar à consultoria de mídia Innovation uma cartilha, lançada no mês passado, com cinqüenta estratégias para seduzir mais leitores. O estudo traz um conselho curto e grosso aos donos de jornal: façam como a Coca-Cola. O refrigerante, ensina a cartilha, "é o mesmo para um menino de 8 anos e para uma pessoa de 80. O que difere é a estratégia de marketing para fomentar o consumo da bebida desde cedo e desenvolver esse hábito quanto antes". Seguindo esse raciocínio, o estudo aconselha, por exemplo, que, para conquistar os jovens e fazer com que eles transformem a leitura de jornais em hábito, não se deve encará-los como um segmento a ser explorado na forma de suplementos editoriais. Isso criaria guetos na publicação e acabaria marginalizando o público-alvo. O desafio é explicar ao jovem como os fatos citados no noticiário principal podem influenciar sua vida. "Temos de aprender com a (revista semanal inglesa) The Economist. Pode-se ser sério, ter êxito e atrair leitores jovens com um jornalismo desse tipo", diz Carlos Soria, presidente da Innovation.

Ainda é cedo para saber se o novo JB, que começou a circular na semana passada, vai vingar. Mas a "tabloidização" do veículo já produz no mercado a indicação de que experiências semelhantes poderão ser adotadas em breve nos grandes jornais brasileiros. "Esse fenômeno que ocorre na Europa vai chegar ao Brasil. Acho que é uma tendência à qual, mais cedo ou mais tarde, vamos ter de aderir", afirma Sandro Vaia, diretor executivo de O Estado de S. Paulo.

Outra tendência do mercado editorial brasileiro fomentada por experiências bem-sucedidas lá fora é a dos jornais populares. Também no formato tablóide, adotaram a fórmula de sucesso dos jornais gratuitos que circulam na Europa e nos EUA, com sucesso cada vez maior. Aproveitando o conteúdo gerado por outros jornais do mesmo grupo empresarial e com foco nas classes C, D e E, são vendidos por preços que variam de 25 a 50 centavos. Os Diários Associados botaram nas bancas de Belo Horizonte e Brasília o Aqui, ao preço de 25 centavos, seguindo esse modelo. São jornais que valorizam o noticiário local, com diagramação leve, muita cor e textos telegráficos, que podem ser lidos no trajeto de casa para o trabalho. Em alguns casos, a referência ao tempo de deslocamento ou ao meio de transporte já vem no nome do jornal, como o espanhol 20 Minutos (líder em circulação naquele país), o carioca Meia Hora e o internacional Metro, de um grupo sueco, mas que circula em mais de oitenta cidades do mundo. "Isso ajuda a incluir novos leitores no mercado, que amanhã podem ler jornais com um noticiário mais abrangente e profundo", analisa Agostinho Vieira, diretor da divisão de jornais de O Globo, que lançou no mês passado o jornal popular Expresso, no Rio de Janeiro.

 
 
 
 
topo voltar