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Internacional
Generais: guerra total ou paz
Militares americanos chegaram à
conclusão
de que a guerra se tornou importante demais
para ser deixada por conta dos políticos.
Em rara revolta contra o poder civil,
oficiais da reserva pedem a cabeça do
secretário de Defesa Donald Rumsfeld

José Eduardo Barella
Todd Heisler/AP
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| Desembarque nos Estados Unidos do corpo de
um soldado morto no Iraque: o conflito começa a parecer
um novo Vietnã |
Primeiro-ministro da França
de 1917 a 1920 e personagem decisivo na vitória aliada na
I Guerra Mundial, Georges Clemenceau é bastante lembrado
pela forma cruel como avaliou a capacidade dos comandantes militares.
"A guerra é algo importante demais para ser deixada por conta
dos generais", definiu. Agora, alguns generais americanos estão
tentando virar a máxima de Clemenceau de cabeça para
baixo. Nas últimas três semanas, em entrevistas na
TV ou em artigos publicados em jornais e revistas, seis generais
de quatro estrelas, todos reformados, saíram das sombras
para pedir a demissão do secretário de Defesa, Donald
Rumsfeld. Os militares argumentam que o secretário cometeu
tal quantidade de erros na condução da Guerra do Iraque
que, sem tirá-lo do comando, dizem, ficará difícil
para o Exército americano vencer ou, pelo menos, sair de
lá com a cabeça erguida.
O confronto público entre um
governo e os militares é raro nos Estados Unidos, mas não
inédito. Nem de longe parecido com as quarteladas brasileiras,
mas em 1951 os americanos prenderam a respiração quando
o presidente Harry Truman demitiu o general Douglas MacArthur, comandante
na Coréia e herói da II Guerra, que o desafiava pelos
jornais. As características da atual revolta dos generais
nada têm de golpistas. Podem ser mais bem definidas como uma
contribuição ao debate numa questão essencial.
Nenhum general colocou em discussão a decisão de invadir
o Iraque. Numa república cujo princípio sacrossanto
é a submissão militar ao poder civil, cabe ao presidente
e ao Congresso decidir quando lutar. Aos militares cabe a tarefa
de vencer a guerra. É aí, por sinal, que está
o problema. Quando um militar pode se levantar contra seus comandantes
civis? Trata-se de uma questão com enormes conseqüências
para uma democracia com a mais poderosa força militar do
planeta. Os quatro estrelas parecem estar se contorcendo entre o
senso de dever e a própria consciência, um dilema moral
tão antigo quanto a república, escreveu a revista
Newsweek. Chama a atenção a quebra de uma regra
não escrita, mas respeitada por todos: a de não criticar
o comando em chefe enquanto os soldados estão sob fogo.
Rick McKay/The New York Times
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| Colin Powell: sua doutrina militar foi revogada
por Rumsfeld |
Os veteranos que pedem a cabeça
de Rumsfeld são aqueles que depois do Vietnã juraram,
como fez o ex-secretário de Estado Colin Powell, "que, quando
chegasse nossa vez de dar as cartas, não aceitaríamos
em silêncio a guerra indolente com razões inconsistentes".
Eles estão convictos de que o Exército fracassou no
Sudeste Asiático porque foi forçado pelos políticos
a lutar uma guerra limitada, em vez de partir para um assalto com
todo o poder de fogo disponível e os generais de então
não tiveram coragem de protestar. Chefe de operações
do Estado-Maior durante o período de planejamento da Guerra
do Iraque e autor do ataque mais contundente a Rumsfeld, num artigo
publicado na revista Time há três semanas, o
general Greg Newbold desafiou os que "ainda vestem farda" a dar
voz aos que não podem ou não têm a chance de
falar.
As teses levantadas pelos jovens oficiais
no Vietnã foram consolidadas por um deles, Colin Powell,
chefe do Estado-Maior nos anos 80, na doutrina que leva seu nome.
A formulação básica é simples: os Estados
Unidos só devem entrar num conflito com poderio bélico
arrasador, objetivo bem definido e estratégia de saída
bem clara. Ou seja, a superioridade em número de tropas e
poder de fogo deve ser de tal forma desproporcional que a derrota
do inimigo torne-se líquida e certa. Na Guerra do Golfo,
sob o comando de Powell, os militares puderam lutar uma guerra convencional
com todo o poder de fogo, da forma que gostariam de ter lutado no
Sudeste Asiático. O resultado foi uma vitória rápida,
com poucas baixas. Logo que assumiu, Rumsfeld revogou a Doutrina
Powell e atacou o Iraque com um número reduzido de soldados
o que está acontecendo lá, dizem os generais
descontentes, é uma repetição dos erros estratégicos
cometidos na Guerra do Vietnã.
O objetivo de Rumsfeld, focado num
cenário pós-Guerra Fria marcado por conflitos localizados,
é transformar o Exército americano numa força
de ataque mais rápida e ágil, em que tropas enxutas
sejam apoiadas por um arsenal de alta tecnologia. Obcecado pelos
planos de ataque, o secretário não deu atenção
ao que viria depois da queda de Bagdá. A tropa enviada ao
Oriente Médio fez bom trabalho até a queda de Saddam
Hussein, mas se mostrou numericamente insuficiente para a enorme
tarefa de garantir a segurança e a reconstrução
do Iraque. O cenário repetiu-se no Afeganistão. Os
generais de pijama ocupavam cargos importantes no Iraque ou no Pentágono
até meses atrás e viram de perto que a nova doutrina
não funciona na prática. O general Paul Eaton, que
treinou os militares iraquianos antes de trocar a farda pelo pijama,
definiu Rumsfeld como um secretário "estratégica,
operacional e taticamente incompetente". Centralizador e detalhista,
Rumsfeld passou boa parte do primeiro mandato de Bush lutando contra
a resistência do Pentágono às suas reformas
e tentando provar que a Doutrina Powell estava obsoleta. Sobre isso,
o general Anthony Zinni, chefe do Comando Militar Unificado até
2000, diz que "agora tem muita gente mordendo a língua".
Mauricio Lima/AFP
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| Patrulha americana no Iraque e Rumsfeld
(acima): Bush diz que o secretário tem seu apoio
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Brendan Smialowski/AFP
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A revolta dos generais é
um problema para o presidente Bush, e não apenas por envolver
os auxiliares em quem mais confia. Está claro que o alvo
dos militares não é somente o secretário de
Defesa, mas também o vice-presidente, Dick Cheney, e o próprio
presidente. Esses, evidentemente, não podem ser demitidos.
Para piorar, a situação militar no Iraque e no Afeganistão
não é nada boa e a tensão causada pela ameaça
nuclear representada pelo Irã vai exigir total integração
de Rumsfeld com os militares, para analisar todas as opções.
Os generais da reserva prevêem novos problemas se a crise
do Irã evoluir para uma situação em que a intervenção
militar seja necessária. Eles notam que Rumsfeld tem os mesmos
defeitos de Robert McNamara, o secretário de Defesa no auge
da Guerra do Vietnã. "Os dois ficaram famosos pela arrogância
em defender sua idéias e pelo desprezo com a opinião
dos comandantes militares", disse a VEJA o historiador americano
George Herring, da Universidade de Kentucky. McNamara criou tanta
encrenca com os militares que o presidente Lyndon Johnson decidiu
substituí-lo, em 1968. Bush não tem essa opção.
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