Edição 1953 . 26 de abril de 2006

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Copa
Eles fazem o gol
ficar menor

Agora até os goleiros brasileiros
fazem sucesso na Europa. Três
deles podem estar no Mundial
da Alemanha


André Fontenelle


Torsten Silz/AFP/divulgação
Dida, o titular da seleção: seu sucesso no Milan, da Itália, abriu as portas para outros goleiros brasileiros na Europa

É possível que a lista de convocados do Brasil para o Mundial de futebol crie uma situação inédita: os três goleiros podem pertencer a times estrangeiros. No momento, o trio favorito do técnico Carlos Alberto Parreira é composto de dois "italianos" – Dida, do Milan, e Julio Cesar, do Internazionale – e do "local" Marcos, do Palmeiras. Mas, caso uma persistente lesão na coxa impeça este último de ir à Alemanha, o candidato natural à sua vaga é Gomes, do PSV Eindhoven, da Holanda. Isso ocorre porque o futebol brasileiro nunca teve tantos goleiros atuando em times de ponta da Europa. Além dos três "selecionáveis", há outros tantos em times de elite – Marcelo Moretto, do Benfica, Helton, do Porto, ambos de Portugal, e Doni, do Roma, da Itália. "Os brasileiros melhoraram muito nessa posição nos últimos anos. Ex-goleiros fizeram cursos no exterior e transmitem esse conhecimento aos mais novos", explica Wendell Ramalho, preparador de goleiros da seleção.

Jogadores brasileiros sempre se notabilizaram pelo talento com os pés, não com as mãos. Para os goleiros, o sonho de jogar na Europa era um tabu. Nos anos 30, o exótico Jaguaré, que rodopiava a bola no dedo para provocar os atacantes adversários, defendeu o Barcelona, da Espanha, e o Olympique de Marselha, da França. Mas era a exceção que confirmava a regra. Nem o excelente Taffarel, que conseguiu abrir uma brecha no mercado italiano nos anos 90, conseguiu mais do que jogar em times medianos como o Parma e o Reggiana.

A situação começou a mudar com Dida. Depois de um início difícil, o goleiro baiano firmou-se em um dos clubes mais tradicionais do planeta, o Milan, e consagrou-se quando defendeu três pênaltis na decisão da liga européia em 2003. O clube rival de Milão, o Internazionale, contratou Julio Cesar, do Flamengo. Outro grande time europeu, o PSV da Holanda, levou Gomes, do Cruzeiro de Belo Horizonte. Esses três já traziam no currículo a vantagem de ter defendido a seleção brasileira. Mas agora até goleiros menos famosos começam a fazer sucesso lá fora. Recentemente, o público brasileiro descobriu que o guardião do Benfica – que fez grandes defesas contra o Barcelona de Ronaldinho Gaúcho – era um sul-matogrossense de 27 anos com passagem pouco marcante pela Portuguesa de Desportos, de São Paulo. O caminho de Marcelo Moretto foi tortuoso. Chegou ao Benfica depois de penar na baliza de times pequenos de Portugal. Seu sucesso abriu as portas para outro brasileiro, Rubinho, ex-reserva no Corinthians, ser contratado pelo Vitória de Setúbal.

Nenhum caso é mais curioso que o de Doniéber Alexander Marangão, atual goleiro titular do Roma, da Itália. Depois de uma passagem muito criticada no Corinthians, Doni, como é conhecido, foi parar no Juventude, de Caxias do Sul. Ali joga o veterano zagueiro Antônio Carlos, que o indicou a conhecidos no Roma, time em que atuou no passado. Doni obteve em tempo recorde o passaporte europeu, pagou a passagem do próprio bolso e aceitou um salário baixo, em nome do sonho de jogar na Itália. "Valeu bastante. Eu queria sair do Brasil, que anda meio perigoso", diz Doni. Superado o ceticismo inicial, conquistou a posição de titular e neste mês renovou o contrato por mais três anos – ganhando, segundo a imprensa italiana, o equivalente a 150.000 reais.

Há diferenças técnicas entre os goleiros daqui e os de lá. "O treino do Brasil dá ênfase à rapidez de reflexos; o da Europa, ao posicionamento e a detalhes como a forma de segurar a bola", compara Doni. Os goleiros daqui parecem jogar melhor com os pés, virtude cada vez mais exigida de quem atua na posição – as regras atuais proíbem segurar a bola em certas situações. Julio Cesar é renomado por essa habilidade. "Até hoje não encontrei um goleiro aqui na Itália com essa característica", diz o camisa 1 do Internazionale. Os brasileiros também se beneficiam de uma crise de talentos geral. Países tradicionais no futebol, como a Inglaterra, têm tido dificuldade para revelar craques nessa posição. Cria-se um círculo vicioso. Recorre-se a estrangeiros contra a falta de bons goleiros. Estes, ao ocupar vagas, tornam ainda mais restrito o mercado para os locais. Dos vinte times do campeonato inglês, apenas cinco estão jogando com goleiros da própria terra. Na última Copa do Mundo, a Inglaterra precisou recorrer a um veterano de 38 anos, David Seaman – aquele que engoliu um célebre gol por cobertura de Ronaldinho Gaúcho.

Colaborou Letícia Sorg

 

DE OLHO NELA

A bola da Copa: a versão dourada será usada na final

A maior novidade da bola que será usada na Copa do Mundo da Alemanha, em junho, não é nenhum material sintético inovador, e sim sua aparência. A da decisão, no dia 9 de julho, terá gomos brancos e dourados, diferentes do modelo preto-e-branco que será usado nas outras 63 partidas do torneio. Além disso, a bola de cada jogo terá impressos o dia da partida e o nome dos dois times que a chutaram. A Adidas espera vender no mundo inteiro 10 milhões de cópias da bola, batizada de "Teamgeist" (espírito de equipe), ao preço anunciado de 150 euros (400 reais) cada uma. Tecnologicamente, a bola é semelhante às que já são empregadas nas principais competições profissionais. O material sintético aumenta a durabilidade e a liberação de energia na hora do chute, e o formato, cada vez mais próximo da esfera perfeita, torna precisa a trajetória no ar. Nada, porém, que deixe a vida dos goleiros pior do que é hoje. Como tudo o que envolve a Copa do Mundo, a utilidade da bola colorida é promover o evento e estimular a venda de produtos associados.

 

 
 
 
 
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