Edição 1953 . 26 de abril de 2006

Índice
Millôr
Claudio de Moura Castro
Diogo Mainardi
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Datas
Veja essa
Gente
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Saúde
Quanto mais lento, melhor

Crianças com QI maior apresentam
crescimento mais demorado
de uma parte do cérebro


Paula Neiva

NESTA REPORTAGEM
Quadro: A diferença
está no córtex

Uma das questões sobre a natureza humana que mais intrigam os cientistas é o que faz uma pessoa ser mais inteligente do que outra. Já se sabe que fatores genéticos e ambientais podem ser importantes, mas ainda faltam respostas precisas no que se refere à estruturação orgânica da inteligência. Um passo para a elucidação desse enigma foi dado recentemente por pesquisadores do Instituto de Saúde Mental dos Estados Unidos, num trabalho publicado pela revista científica Nature. Eles constataram que o cérebro das crianças mais inteligentes se desenvolve de maneira diferente dos demais. Segundo o estudo, o crescimento do córtex pré-frontal desses meninos e meninas é mais lento – alcança seu tamanho máximo aos 11 anos de idade, em média, enquanto no grupo com QI mediano isso acontece aos 8 anos. O que à primeira vista parece desvantajoso é, na verdade, uma estratégia eficaz para que os neurônios disponham de mais tempo para tecer conexões entre si e torná-las mais complexas (a quantidade de conexões entre os neurônios é determinante para o processamento de informações pelo cérebro). As conclusões dos pesquisadores americanos chamaram a atenção da comunidade médica, porque foram tiradas de um universo de participantes extraordinariamente grande. Em geral, estudos que utilizam exames de neuroimagem são mais restritos.

Os pesquisadores submeteram cerca de 300 crianças e adolescentes saudáveis, entre 6 e 19 anos, a exames de ressonância magnética de crânio. Os participantes também foram submetidos a testes que determinaram seu coeficiente de inteligência (QI). Eles foram, então, divididos em três grupos, de acordo com a idade e o QI de cada um. Em seguida, os exames de ressonância foram comparados, para detectar as características da anatomia cerebral de cada grupo. A partir desses dados, os cientistas identificaram uma estreita relação entre o QI e as mudanças de tamanho e densidade pelas quais o córtex pré-frontal passa ao longo dos anos.

O único ponto frágil do estudo é basear-se exclusivamente no parâmetro de QI. O teste que estabelece o coeficiente de inteligência, centrado basicamente na lógica matemática, não é capaz de avaliar todos os tipos de inteligência. "Ficam de fora, por exemplo, as habilidades musicais, corporais e de relacionamento", diz o neuropediatra Mauro Muszkat, professor da Universidade Federal de São Paulo. "Por isso, o QI de uma criança e possivelmente a maneira como seu córtex se desenvolve não determinam se ela será bem-sucedida ou não no futuro." De qualquer forma, as constatações dos pesquisadores do Instituto de Saúde Mental dos Estados Unidos significam um avanço, se não na identificação de todas as inteligências, pelo menos de algumas delas.

 
 
 
 
topovoltar