Edição 1953 . 26 de abril de 2006

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Saúde
O fim sem fim

Médicos brasileiros têm dificuldade de
fazer diagnóstico de morte cerebral


Giuliana Bergamo 

A definição de morte é um consenso na comunidade científica: ela se dá no momento em que o cérebro (e não o coração) pára de funcionar. No Brasil, a legislação também segue esse critério para definir o momento em que uma pessoa morre. Mesmo assim, este permanece um campo nebuloso para muitos profissionais de saúde – inclusive para os médicos intensivistas, acostumados a lidar todos os dias com pacientes prestes a morrer, num leito de UTI. Segundo pesquisa que acaba de ser divulgada pela Associação de Medicina Intensiva Brasileira (Amib), em parceria com a Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO), muitos médicos que trabalham em centros de terapia intensiva consideram a identificação e a notificação de casos de morte encefálica (ou cerebral) uma tarefa complicada. A pesquisa questionou 321 médicos, de cinco estados brasileiros, acerca das razões que prejudicam o desempenho dos profissionais nesse tipo de situação. A enquete revelou que 30% deles culpam a falta de conhecimento técnico para realizar o diagnóstico. Metade deles acredita que um dos maiores empecilhos é o dilema de consciência, fruto do embate entre o que diz a ciência e o que determina sua formação moral e religiosa.

Atestar uma morte cerebral não é tarefa fácil. Há várias fases que precisam ser percorridas pelos médicos encarregados de assinar um atestado desses (veja o quadro). Dois problemas se criam quando um paciente cujo cérebro já não funciona continua a ser tratado como qualquer outro. Em primeiro lugar, um morto ocupa o leito de um vivo – e leitos hospitalares não são exatamente abundantes no Brasil, especialmente nas UTIs. Além disso, a subnotificação de mortes cerebrais tem um impacto negativo na oferta de órgãos para transplantes. "Se todas as mortes encefálicas fossem registradas, o número de transplantes dobraria", diz a médica Maria Cristina Ribeiro de Castro, presidente da ABTO. A fila de transplantes no Brasil tem hoje 65.000 pessoas. Vinte por cento delas morrem a cada ano, à espera de um novo órgão. Aos médicos com drama de consciência para assinar um óbito por morte encefálica, eis um motivo suficientemente religioso ou ético para fazê-lo.

 

 

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