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Saúde
O fim sem fim
Médicos brasileiros têm
dificuldade de
fazer diagnóstico de morte cerebral

Giuliana Bergamo
A definição de morte
é um consenso na comunidade científica: ela se dá
no momento em que o cérebro (e não o coração)
pára de funcionar. No Brasil, a legislação
também segue esse critério para definir o momento
em que uma pessoa morre. Mesmo assim, este permanece um campo nebuloso
para muitos profissionais de saúde inclusive para
os médicos intensivistas, acostumados a lidar todos os dias
com pacientes prestes a morrer, num leito de UTI. Segundo pesquisa
que acaba de ser divulgada pela Associação de Medicina
Intensiva Brasileira (Amib), em parceria com a Associação
Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO), muitos
médicos que trabalham em centros de terapia intensiva consideram
a identificação e a notificação de casos
de morte encefálica (ou cerebral) uma tarefa complicada.
A pesquisa questionou 321 médicos, de cinco estados brasileiros,
acerca das razões que prejudicam o desempenho dos profissionais
nesse tipo de situação. A enquete revelou que 30%
deles culpam a falta de conhecimento técnico para realizar
o diagnóstico. Metade deles acredita que um dos maiores empecilhos
é o dilema de consciência, fruto do embate entre o
que diz a ciência e o que determina sua formação
moral e religiosa.
Atestar uma morte cerebral não
é tarefa fácil. Há várias fases que
precisam ser percorridas pelos médicos encarregados de assinar
um atestado desses (veja o quadro). Dois problemas se criam
quando um paciente cujo cérebro já não funciona
continua a ser tratado como qualquer outro. Em primeiro lugar, um
morto ocupa o leito de um vivo e leitos hospitalares não
são exatamente abundantes no Brasil, especialmente nas UTIs.
Além disso, a subnotificação de mortes cerebrais
tem um impacto negativo na oferta de órgãos para transplantes.
"Se todas as mortes encefálicas fossem registradas, o número
de transplantes dobraria", diz a médica Maria Cristina Ribeiro
de Castro, presidente da ABTO. A fila de transplantes no Brasil
tem hoje 65.000 pessoas. Vinte por cento delas morrem a cada ano,
à espera de um novo órgão. Aos médicos
com drama de consciência para assinar um óbito por
morte encefálica, eis um motivo suficientemente religioso
ou ético para fazê-lo.
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