Edição 1953 . 26 de abril de 2006

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Saúde
Para quem troca letras 

Criada a primeira cartilha nacional
para alfabetizar disléxicos


Giuliana Bergamo 

NESTA REPORTAGEM
Quadro: O bê-a-bá dos disléxicos

Dez por cento das crianças brasileiras sofrem de dislexia, uma alteração neurológica que causa dificuldades de aprendizagem, motricidade e uso da linguagem, entre outras. Enquanto os estudantes sem problemas levam um ano, em média, para aprender a ler e escrever, os disléxicos demoram o dobro. A maioria depara com o despreparo dos professores e enfrenta o preconceito dos colegas – o que deixa seqüelas psicológicas para o resto da vida. A fim de facilitar o aprendizado desses estudantes especiais, foi criada a primeira cartilha nacional especialmente desenvolvida para crianças disléxicas, com lançamento previsto para o fim de junho. Batizada de "Facilitando a Alfabetização" (a maldição do gerúndio não tem mesmo fim), ela é baseada em materiais criados pela Sociedade Internacional de Dislexia, com sede nos Estados Unidos. "Trata-se de um instrumento sem precedentes na educação de crianças com essa disfunção", diz o psicopedagogo Mario Angelo Braggio, especialista em distúrbios de aprendizagem.

A ciência ainda não desvendou completamente os processos cerebrais que levam à dislexia. A teoria mais aceita atualmente defende que se trata de um defeito na distribuição dos neurônios, quando a criança ainda está no útero materno. Por volta da 25ª semana de gestação, ocorre um reposicionamento dos neurônios. No cérebro dos disléxicos, por alguma razão, uma parte dos neurônios toma o caminho errado. A dislexia pode se manifestar de várias maneiras. Os problemas mais recorrentes são a dificuldade em diferenciar letras visualmente semelhantes, como o "p" e o "b", ou o "d" e o "q", e de relacionar o som de uma letra à grafia correspondente. Alguns disléxicos também apresentam dificuldade para memorização de certas informações. Listar, por exemplo, os nomes de países que começam com uma determinada letra pode representar um grande obstáculo.

A nova cartilha oferece exercícios criados para minorar as dificuldades dos portadores da disfunção (veja o quadro). Conta, ainda, com alguns "truques" – entre eles, letras em alto-relevo, que visam a familiarizar os estudantes com o formato delas. A explicação é que, com o auxílio do tato, fica mais fácil memorizar a maneira correta de escrevê-las. Uma vantagem da cartilha é que ela pode ser utilizada por crianças não disléxicas. Mas o título com gerúndio, convenhamos, é uma desvantagem estilística que deveria ser eliminada.

 
 
 
 
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