|
|
Comportamento
O plano B da meia-idade
Em busca de uma segunda profissão,
muitos quarentões estão de volta à universidade

José Eduardo Barella
Anderson Schneider
 |
DA SALA DE AULA PARA A ACADEMIA
Dona de um diploma de sociologia e pós-graduação
em metodologia da educação, Elizabeth Parente
lecionou estudos sociais durante quinze anos. Há quatro,
decidiu que era hora de mudar. Hoje, ela cursa o 3º ano
de educação física na Universidade de Brasília.
Aos 46 anos, com duas filhas, de 18 e 16, ela pretende ser professora
de ioga, tai chi e lian gong, uma modalidade de ginástica
chinesa, depois de se formar. "Há demanda por profissionais
dessa área, e o diploma vai ajudar", diz. |
Não faz tanto tempo, ao chegar
à meia-idade a maioria das pessoas começava a orientar
sua vida pela perspectiva de aposentadoria. Já não
é assim. Segundo dados do IBGE, a proporção
de alunos com idade acima de 40 anos nas universidades brasileiras
dobrou de 1991 a 2000. Entre aqueles com mais de 50, a porcentagem
triplicou. A presença dessa gente madura nas salas de aula
reflete uma dupla transformação em curso no Brasil.
A primeira diz respeito ao mercado de trabalho, que virou de cabeça
para baixo a forma como são exercidas algumas profissões
tradicionais. A outra é o aumento da expectativa de vida
dos brasileiros não apenas se vive mais, mas também
com boa saúde. Com vinte ou trinta anos de vida pela frente,
é natural que tantos quarentões ou cinqüentões
se animem a fazer vestibular e tentar uma virada profissional.
Para quem está insatisfeito
com a própria profissão, voltar à universidade
é um bom trampolim para a guinada. Aos 53 anos, o médico
Luís Gonzaga Goulart Rodrigues cursa o 3º ano de direito
na Universidade de São Paulo. Especialista em medicina do
trabalho, ele atende num posto de saúde e atua como perito
em pedidos de aposentadoria por invalidez. O sonho de ser advogado
é antigo, mas pesou na decisão a possibilidade de
maior remuneração. "Um advogado ganha mais que o médico
para dar assistência jurídica em um simples laudo",
comenta. Rodrigues convive bem com os colegas na maioria,
mais novos que seus filhos , a ponto de disputar a presidência
do centro acadêmico. Como pretende fazer pós-graduação
em direito previdenciário, só estreará na nova
profissão aos 57 anos.
Lailson Santos
 |
O MÉDICO QUER SER ADVOGADO
O paulista Luís Gonzaga Rodrigues,
de 53 anos, médico há mais de duas décadas,
está no 3º ano de direito na Universidade de São
Paulo. Com a mudança de profissão, ele realiza
um velho sonho e acredita que ganhará melhor. "O fato
de meus filhos estarem crescidos e encaminhados profissionalmente
facilitou minha decisão de prestar vestibular, pois,
para cursar a faculdade, tive de reduzir a carga de trabalho
e meus rendimentos como médico", diz. |
Aos 40 e poucos anos, o profissional
ainda tem pela frente, em termos estatísticos, um tempo igual
ao período em que já trabalhou até então.
É natural que, diante dessa perspectiva, guarde na gaveta
um plano B para quando se aposentar ou sentir que a carreira estacionou.
Ou, simplesmente, para buscar uma profissão que traga maior
satisfação pessoal. Dentista em Belo Horizonte por
25 anos, a mineira Elizabeth Aguiar aproveitou a habilidade adquirida
com os instrumentos odontológicos para criar as primeiras
jóias. O passo seguinte foi o vestibular. No ano passado,
às vésperas de completar 50 anos, recebeu o diploma
em design de produto. No momento, enquanto trata de desativar o
consultório, ela prepara a exportação dos primeiros
lotes de colares para os Estados Unidos. "Senti necessidade de fazer
algo novo e diferente, um questionamento comum nas pessoas da minha
idade", diz Elizabeth.
Ainda que seja mais difícil
conseguir emprego depois dos 40, há atividades em que os
cabelos brancos podem ser usados como trunfos. Prestar consultoria,
advogar ou dar aulas em universidade são exemplos de carreiras
em que a experiência de vida é valorizada. Se os filhos
já estão crescidos, fica mais fácil correr
o risco de viver com rendimentos menores. Especialistas consultados
por VEJA recomendam certos cuidados antes de pôr em prática
o plano B. O fundamental, dizem, é estar seguro da decisão
mesmo porque, a essa altura da vida, não há
tempo a perder com escolhas equivocadas. Um erro comum é
confundir emprego com carreira e abandonar os dois de forma precipitada
por causa de um atrito com o chefe ou de uma insatisfação
momentânea. "O melhor momento de tomar uma decisão
dessa importância é quando se está no auge,
ganhando bem e empregado, pois quem está por baixo não
tem opções e costuma mudar pelas razões erradas",
pondera o headhunter Robert Wong, da Consultoria P&L, de São
Paulo.
Nélio Rodrigues/1º Plano
 |
A DENTISTA QUE VIROU DESIGNER
DE JÓIAS
Dentista durante 25 anos em Belo Horizonte,
Elizabeth Aguiar começou a criar jóias como hobby.
Empolgada, decidiu cursar a faculdade de design para aprender
novas técnicas. Formada há um ano, prepara-se
para exportar seus brincos e colares para os Estados Unidos
e a Europa. Só agora, aos 50 anos, desativou de vez o
consultório. "Senti necessidade de fazer algo diferente,
um questionamento comum nas pessoas da minha idade", diz. |
Quem se formou nos anos 70 e 80 estava
preparado para um mundo que não existe mais. Hoje, os antigos
profissionais liberais, como médicos e advogados, são,
em boa parte, empregados ou prestadores de serviço. No passado,
o recém-formado buscava ingressar numa grande empresa e permanecer
nela até a aposentadoria. Tal regalia só persiste
no funcionalismo público. Várias profissões
escolhidas vinte ou trinta anos atrás perderam espaço
na economia moderna. Já profissões novas, sobretudo
envolvendo alta tecnologia e o setor de serviços, oferecem
maiores possibilidades de ascensão rápida. Tudo isso
pode tornar ainda mais urgente a adoção do plano B
mas também facilita uma mudança de carreira
na meia-idade. "O mercado de trabalho tornou-se mais dinâmico,
e quem ganha é o profissional competente, pois pode escolher
se quer trabalhar como empregado ou simplesmente vender um serviço
e manter a independência", diz Jacqueline Giordano, gerente
de desenvolvimento de carreiras da escola de negócios Ibmec,
em São Paulo.
|