Edição 1953 . 26 de abril de 2006

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Ele está de volta...

...e não mudou nada: Itamar semeia a
cizânia pensando apenas em si mesmo


Otávio Cabral

 

Beto Barata/AE
Garotinho (à esq.) e Itamar (à dir.): a confraria de caciques do PMDB não conseguiu nem marcar a data da convenção

O ex-presidente Itamar Franco, que governou o país de outubro de 1992 a dezembro de 1994, voltou ao centro do noticiário político nacional. Há duas semanas, numa entrevista em Juiz de Fora, Itamar surpreendeu seu próprio partido, o PMDB, ao anunciar que pretende ser candidato a presidente da República. O anúncio foi feito no momento em que o ex-governador Anthony Garotinho, que vem negociando febrilmente para ser o candidato do PMDB ao Palácio do Planalto, estava em Juiz de Fora para arrebanhar o apoio de Itamar – e não apenas falhou em obter apoio como ainda ganhou um rival inesperado. Na semana passada, o ex-presidente, agora já empenhado em sua nova missão, esteve em Brasília reunido com líderes do PMDB. Nas reuniões, que duraram dois dias, o partido deveria decidir se terá ou não candidato próprio à Presidência e marcar a data de sua próxima convenção. Como o PMDB deixou de ser um partido e virou uma associação de caciques com interesses divergentes, não se conseguiu decidir nem uma coisa nem outra. Mas Itamar, diz ele, segue firme em sua cruzada para convencer o partido a lançá-lo candidato.

Na verdade, o ressurgimento de Itamar é uma manobra típica do manjadíssimo personagem de Juiz de Fora, um político habituado a semear a cizânia para obter dividendos pessoais. É, de novo, o que está acontecendo. A intenção do ex-presidente é candidatar-se ao Senado, mas havia dois obstáculos. O PMDB mineiro preteriu seu nome em favor do ex-prefeito de Uberlândia Zaire Rezende e, para piorar as coisas, a imprensa local não vinha lhe dando atenção. Nesse cenário adverso, Itamar resolveu disparar o factóide da Presidência. Deu certo. Conseguiu espaço no noticiário dos meios de comunicação de Minas Gerais e o PMDB local já admite a possibilidade de lançá-lo ao Senado. "Minha carreira sempre foi marcada pelo imprevisto; quando menos esperava, tudo dava certo. Se conseguir ser candidato a presidente ou a vice, vou em frente. Se não, pelo menos voltei a ser notícia em Minas e garanti minha candidatura ao Senado", comemorou o ex-presidente com um interlocutor.

A história de ser presidente surgiu quando Itamar Franco foi convidado a ocupar o lugar de candidato a vice na chapa reeleitoral do presidente Lula. O portador do convite foi o ex-ministro José Dirceu, encarregado da missão exatamente na semana em que o Ministério Público o denunciou na investigação do mensalão como o "chefe da quadrilha". A idéia de Dirceu, debatida com o próprio presidente Lula, tinha um duplo objetivo. O mais conhecido é causar confusão dentro do PMDB e impedir que o partido tenha candidato próprio. Nesse quadro, o PMDB apoiaria, ainda que dividido, a reeleição de Lula. O outro objetivo, mantido em segredo, é usar Itamar como antídoto contra um processo de impeachment num eventual segundo mandato de Lula. Como Itamar provoca arrepios no mundo político e econômico, a idéia é que perderia força a mobilização para tirar Lula. É engenhoso, mas não deixa de ser insólito: antes, os candidatos procuravam vices capazes de substituí-los – e não o contrário.

 
 
 
 
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