|
|
Brasil
Na mira da Justiça
Rachid, o secretário da
Receita,
é investigado por improbidade
e suspeita de fraude

Policarpo Junior
José Paulo Lacerda/AE
 |
| Paulo Baltazar: 18 milhões de reais
para reduzir uma multa |
O secretário da Receita Federal,
Jorge Rachid, está na mira da Justiça. Suspeito de
ter participado da quebra do sigilo do caseiro Francenildo Costa,
crime que derrubou o ex-ministro Antonio Palocci, Rachid também
está sendo investigado por improbidade administrativa. Em
1993, quando ainda era apenas um auditor, Rachid integrou um grupo
de fiscais que vasculhou as contas da empreiteira OAS e aplicou-lhe
uma multa de 1 bilhão de reais. Cinco anos depois, a multa
sofreu uma redução estratosférica, caindo para
25 milhões de reais. A Corregedoria-Geral da Receita Federal
resolveu investigar o caso quando soube que dois funcionários
da própria Receita Federal, só que contratados como
consultores da empreiteira, receberam uma bolada de 18 milhões
de reais como prêmio pelo sucesso na redução
da multa. A investigação da Corregedoria concluiu
que foi a negligência dos auditores, Rachid entre eles, que
garantiu o sucesso financeiro de seus colegas "consultores". Pior
ainda: concluiu também que a "negligência" teria sido
proposital, de modo que os consultores necessariamente obteriam
sucesso e ganhariam muito dinheiro. Para a Corregedoria da Receita,
auditores e consultores formariam uma quadrilha que há anos
atua na Receita beneficiando sonegadores por meio de corrupção
e tráfico de influência.
VEJA teve acesso a um conjunto de documentos
confidenciais que fazem um balanço das investigações
da Corregedoria da Receita. Nos documentos, não há
nenhuma referência a pagamentos irregulares ao secretário
da Receita, mas há uma série de suspeitas graves contra
Rachid. As investigações começaram há
três anos com o objetivo de apurar denúncias segundo
as quais dois figurões da Receita Federal no governo passado
Paulo Baltazar Carneiro, ex-secretário adjunto, e
Sandro Martins, ex-assessor especial do então secretário,
Everardo Maciel teriam feito fortuna traficando influência.
Os dois montaram uma empresa de consultoria. Como a lei impede que
funcionário público tenha dupla militância,
eles encontraram um jeito de servir ao público sem descuidar
dos negócios privados: de tempos em tempos, Sandro pedia
licença para tratar de problemas pessoais e virava consultor.
Paulo Baltazar já estava aposentado, embora de vez em quando
assumisse um ou outro cargo numa área importante da Receita
sempre por um período determinado, ao fim do qual
voltava a ser um aposentado que virara consultor. Nesse vai-e-vem,
eles vendiam a seus clientes normas que, feitas sob medida, conseguiam
fazer aprovar na Receita.
Dida Sampaio/AE
 |
Sérgio Lima/Folha Imagem
 |
| Rachid (à esq.),
o atual secretário, e seu antecessor, Everardo Maciel:
as ligações perigosas com auditores que vendiam
normas para sonegadores |
Com base nas investigações
da Corregedoria da Receita, o Ministério Público denunciou
Rachid por improbidade administrativa e pediu seu imediato afastamento
do cargo. O afastamento foi indeferido, mas a acusação
de improbidade administrativa foi aceita pela Justiça no
início de abril mas não havia sido divulgada
até agora. Rachid também está sendo acusado
de tentar sabotar a investigação da Corregedoria da
Receita, tendo ignorado duas intimações feitas ao
longo de nove meses. Além disso, os auditores alegam que
Rachid teria se reunido com Paulo Baltazar, Sandro Martins e Ricardo
Pinheiro, atual secretário adjunto, também denunciado
pelo Ministério Público por improbidade, para discutir
estratégias de ação durante a investigação.
Os documentos a que VEJA teve acesso mostram que Rachid e assessores
sabiam que as investigações chegariam a ele, razão
pela qual tentaram atrapalhar o trabalho. Nos documentos, há
transcrições de conversas telefônicas entre
assessores do secretário e relatórios da Polícia
Federal. Os auditores enumeraram oito casos sob investigação
de venda de legislação na Receita. Dois deles já
foram comprovados, até com notas fiscais dos pagamentos.
Além de Rachid, Everardo Maciel, secretário da Receita
no governo anterior, é acusado de envolvimento com o grupo
que ajudava sonegadores.
No documento, a comissão da
Corregedoria ressalta que não foi possível concluir
a investigação. E por uma razão curiosa: ela
foi destituída em 2 de março passado, seis dias depois
de os auditores notificarem formalmente o secretário da Receita
de que ele estava no rol dos investigados no caso OAS. Por ordem
de Rachid, o grupo foi afastado pelo corregedor-chefe. A justificativa
oficial foi que as apurações dos auditores estavam
muito lentas e que eles não tinham competência legal
para investigar Jorge Rachid. A operação abafa, segundo
o relatório, teria contado com a ajuda do ministro Antonio
Palocci. O procurador Lauro Pinto, responsável pela denúncia
contra Rachid e seu secretário adjunto, diz que está
sendo estudada a apresentação de uma nova ação
contra o secretário da Receita, desta vez por prevaricação.
"Está provado que ele atuou para impedir a investigação,
e isso é crime", afirma Lauro Pinto. Procurado por VEJA,
Jorge Rachid disse, através de sua assessoria, que o departamento
jurídico da Receita estava se informando sobre o caso e que
ele refuta as acusações.
|