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Brasil Líder
no fio da navalha Lula volta a lidar com a ameaça
de um impeachment, mas é só farol da oposição

Otávio Cabral
Ricardo Stuckert/PR  |
| O presidente sob suspeita: blindado pelos bons índices
de popularidade | | Depois que
a devastadora denúncia do Ministério Público Federal apontou
a existência de uma "organização criminosa que tinha como
objetivo garantir a continuidade do projeto de poder do PT", as fileiras da oposição
voltaram a falar em impeachment do presidente Lula mas o tom é tão
irresoluto e a estratégia é tão mambembe que tudo parece
mais teatro que realidade. O PPS, sigla que sucedeu ao velho Partido Comunista
Brasileiro, anunciou que apoiará qualquer iniciativa a favor do impeachment
de Lula, mas não se deu ao trabalho sequer de forjar um consenso mínimo
entre os nanicos de oposição. O senador Antonio Carlos Magalhães,
do PFL da Bahia, chegou a subir à tribuna para defender o afastamento do
presidente. "Por muito menos, por um Fiat Elba, o presidente Fernando Collor foi
posto para fora", disse. Seu partido, porém, reuniu-se diversas vezes com
a cúpula do PSDB na semana passada, mas em nenhum momento foi discutido
o tema do impeachment. "É difícil lutar contra um presidente que
conta com tanto apoio popular", diz o amazonense Arthur Virgílio, líder
dos tucanos no Senado.
Ao contrário
de Fernando Collor, que tinha apenas 9% de apoio popular no auge do escândalo
que lhe ceifou o cargo, Lula mantém-se com bom índice de popularidade.
Seu pior momento ocorreu em dezembro do ano passado, quando ela caiu para 28%.
Na última pesquisa do instituto Datafolha, ele já se mostrava recuperado,
com 37% de apoio. Lula está blindado por sua boa popularidade, mas o improviso
da oposição também tem ajudado o presidente. Na semana passada,
a CPI dos Bingos, o principal bunker da oposição, não conseguiu
sequer votar um novo pedido de quebra do sigilo bancário de Paulo Okamotto,
o amigo de Lula que se diverte pagando contas do presidente e de seus familiares.
Tampouco votou a convocação de Lurian, filha do presidente, que
também teve uma dívida, de 26.000 reais, saldada por Okamotto. O
advogado Roberto Teixeira, compadre de Lula e suspeito de achacar fornecedores
de prefeituras petistas, faltou ao primeiro dia de convocação, apareceu
no dia seguinte, mas, escudado por um habeas corpus, respondeu apenas o que quis.
Com freqüência, a oposição
emite sinais ambíguos. Na quinta-feira passada, ao ouvir o ministro da
Justiça, Márcio Thomaz Bastos, que teve uma atuação
suspeita no acobertamento da violação do sigilo bancário
do caseiro Francenildo Costa, a oposição fez discursos inflamados,
mas apresentou perguntas sem substância e repetitivas. Em resumo, o ministro
saiu do depoimento do mesmo tamanho que entrou. O improviso da oposição
tem sido evidente até no tratamento da candidatura do ex-governador Geraldo
Alckmin, que tem 20% das intenções de voto, a metade de Lula. Na
semana passada, o tucano Tasso Jereissati chegou a dizer publicamente que o crescimento
de Alckmin será "lentíssimo" o que parece ter servido para
que o partido começasse a se mexer. Foram definidos o chefe da equipe de
comunicação (o jornalista Gilney Rampazzo) e o responsável
pela parte publicitária (o marqueteiro Luiz Gonzales), e a coordenação
política, hoje a cargo dos senadores Sérgio Guerra e Heráclito
Fortes, será substituída ou desprezada. Recentemente, um dirigente
tucano conversou longamente com Alckmin e deu orientações objetivas.
Disse que ele precisa anunciar que não mexerá nos programas sociais
do governo federal, principal alavanca de apoio de Lula. O dirigente mostrou ao
candidato uma pesquisa do instituto Ipsos na qual sete programas de cunho social
de Lula têm mais de 50% de aprovação. Até o Fome Zero,
que é apenas uma marca, é considerado bom ou ótimo por 51%
dos entrevistados. Numa coisa oposição
e situação parecem unidas na missão de avacalhar de
vez com a legislação que rege as campanhas eleitorais. No auge da
crise do mensalão, o senador pefelista Jorge Bornhausen apresentou um projeto
para tornar menos frouxa a lei eleitoral brasileira. O assunto foi votado na Câmara
com progressos importantes mas, na semana passada, o Senado se encarregou
de reduzi-los a pó. Os senadores derrubaram a responsabilização
criminal de tesoureiros e doadores de recursos ilegais, excluíram o artigo
que obrigava os candidatos a prestar contas diariamente pela internet, inclusive
com a identificação de doadores e valores, e diminuíram de
três anos para apenas um a suspensão de repasse do fundo partidário
às legendas pilhadas com caixa dois. Em seu capítulo mais polêmico,
a nova lei proibiu o uso de cenas externas nas campanhas, sob o pretexto de reduzir
custos para torná-las menos desiguais. Também proibiu a divulgação
de pesquisas eleitorais nos quinze dias anteriores à eleição,
num flagrante desrespeito ao direito constitucional à informação.
O consolo que resta é que a lambança produzida no Senado não
poderá ser aplicada nas próximas eleições. A Constituição
diz que mudança das regras eleitorais só vale se for aprovada um
ano antes da eleição.
| O QUE FAZ O "CHEFE DA QUADRILHA"?
Agliberto Lima/AE  |
| José Dirceu: viagem sigilosa à Venezuela | O
ex-ministro José Dirceu foi apontado pelo procurador-geral da República
como o "chefe da quadrilha" do mensalão. Talvez Dirceu tenha razão
em ficar indignado com a alcunha. Talvez ele seja um mero cumpridor de ordens.
Um indício disso é que nos últimos dois meses o ex-ministro,
que não tem cargo nem mandato, esteve três vezes na Granja do Torto.
A convite do presidente Lula, eles conversaram muito sobre a crise, Dirceu deu
várias sugestões ao presidente e recebeu algumas tarefas
todas de caráter político e reservadas. Uma delas, que acabou sendo
descoberta, foi a manobra para tumultuar a escolha do candidato do PMDB. Dirceu
voou num jatinho particular para Juiz de Fora, pago sabe-se lá por quem
e sabe-se lá com que dinheiro, para conversar com o ex-presidente Itamar
Franco e convencê-lo a enfrentar o ex-governador Anthony Garotinho nas prévias
do partido (veja reportagem).
Como se ainda fosse um articulador do governo, Dirceu acha que as alianças
para um eventual segundo mandato de Lula devem ser construídas desde já.
O presidente, diz ele, não tem equipe para compor um novo governo.
Dirceu também esteve reunido com Lula
no ápice da crise provocada pela quebra de sigilo do caseiro Francenildo
Costa. O presidente decidira demitir Antonio Palocci e consultou o "chefe da quadrilha"
sobre as alternativas para substituí-lo. Na conversa, vários nomes
foram discutidos e o ex-ministro fez restrições a muitos deles.
Foi assim que Guido Mantega virou ministro da Fazenda. Além de conselheiro
político-econômico informal, o "chefe da quadrilha" também
tem cumprido missões diplomáticas. Cercado de sigilo, já
como deputado cassado, ele se encontrou com a secretária de Estado americana,
Condoleezza Rice. Dirceu mantém boas relações com representantes
do governo Bush desde a época da campanha presidencial. Na semana passada,
ele estava na Venezuela para uma reunião igualmente sigilosa com o presidente
Hugo Chávez. O "chefe da quadrilha"
também tem conversado com empresários, como o mexicano Carlos Slim,
dono da Telmex, empresa que controla a Embratel e a Claro. Obstinado, não
se preocupa apenas com o governo Lula. Como se sabe, ele lutou até o último
instante contra a própria cassação, recorreu ao Supremo Tribunal
Federal e perdeu, mas até agora não desistiu de retornar ao Congresso.
Com uma pesquisa de opinião pública em mãos, Dirceu viu que
sua imagem perante o eleitorado paulista foi bastante atingida, mas nada que uma
boa campanha não consiga reverter. Mas Dirceu não está inelegível
pelos próximos oito anos? Sim, mas ele acredita que o próximo Congresso
vai lhe conceder anistia! Bem, um dado é certo: a história recente
da criminalidade em Brasília mostra que o "chefe da quadrilha" sabe como
tornar as coisas possíveis no Congresso... | |
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