Edição 1953 . 26 de abril de 2006

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Brasil
Líder no fio da navalha

Lula volta a lidar com a ameaça de um
impeachment, mas é só farol da oposição


Otávio Cabral


Ricardo Stuckert/PR
O presidente sob suspeita: blindado pelos bons índices de popularidade
EXCLUSIVO ON-LINE
Cronologia da crise


Depois que a devastadora denúncia do Ministério Público Federal apontou a existência de uma "organização criminosa que tinha como objetivo garantir a continuidade do projeto de poder do PT", as fileiras da oposição voltaram a falar em impeachment do presidente Lula – mas o tom é tão irresoluto e a estratégia é tão mambembe que tudo parece mais teatro que realidade. O PPS, sigla que sucedeu ao velho Partido Comunista Brasileiro, anunciou que apoiará qualquer iniciativa a favor do impeachment de Lula, mas não se deu ao trabalho sequer de forjar um consenso mínimo entre os nanicos de oposição. O senador Antonio Carlos Magalhães, do PFL da Bahia, chegou a subir à tribuna para defender o afastamento do presidente. "Por muito menos, por um Fiat Elba, o presidente Fernando Collor foi posto para fora", disse. Seu partido, porém, reuniu-se diversas vezes com a cúpula do PSDB na semana passada, mas em nenhum momento foi discutido o tema do impeachment. "É difícil lutar contra um presidente que conta com tanto apoio popular", diz o amazonense Arthur Virgílio, líder dos tucanos no Senado.

Ao contrário de Fernando Collor, que tinha apenas 9% de apoio popular no auge do escândalo que lhe ceifou o cargo, Lula mantém-se com bom índice de popularidade. Seu pior momento ocorreu em dezembro do ano passado, quando ela caiu para 28%. Na última pesquisa do instituto Datafolha, ele já se mostrava recuperado, com 37% de apoio. Lula está blindado por sua boa popularidade, mas o improviso da oposição também tem ajudado o presidente. Na semana passada, a CPI dos Bingos, o principal bunker da oposição, não conseguiu sequer votar um novo pedido de quebra do sigilo bancário de Paulo Okamotto, o amigo de Lula que se diverte pagando contas do presidente e de seus familiares. Tampouco votou a convocação de Lurian, filha do presidente, que também teve uma dívida, de 26.000 reais, saldada por Okamotto. O advogado Roberto Teixeira, compadre de Lula e suspeito de achacar fornecedores de prefeituras petistas, faltou ao primeiro dia de convocação, apareceu no dia seguinte, mas, escudado por um habeas corpus, respondeu apenas o que quis.

Com freqüência, a oposição emite sinais ambíguos. Na quinta-feira passada, ao ouvir o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, que teve uma atuação suspeita no acobertamento da violação do sigilo bancário do caseiro Francenildo Costa, a oposição fez discursos inflamados, mas apresentou perguntas sem substância e repetitivas. Em resumo, o ministro saiu do depoimento do mesmo tamanho que entrou. O improviso da oposição tem sido evidente até no tratamento da candidatura do ex-governador Geraldo Alckmin, que tem 20% das intenções de voto, a metade de Lula. Na semana passada, o tucano Tasso Jereissati chegou a dizer publicamente que o crescimento de Alckmin será "lentíssimo" – o que parece ter servido para que o partido começasse a se mexer. Foram definidos o chefe da equipe de comunicação (o jornalista Gilney Rampazzo) e o responsável pela parte publicitária (o marqueteiro Luiz Gonzales), e a coordenação política, hoje a cargo dos senadores Sérgio Guerra e Heráclito Fortes, será substituída ou desprezada. Recentemente, um dirigente tucano conversou longamente com Alckmin e deu orientações objetivas. Disse que ele precisa anunciar que não mexerá nos programas sociais do governo federal, principal alavanca de apoio de Lula. O dirigente mostrou ao candidato uma pesquisa do instituto Ipsos na qual sete programas de cunho social de Lula têm mais de 50% de aprovação. Até o Fome Zero, que é apenas uma marca, é considerado bom ou ótimo por 51% dos entrevistados.

Numa coisa oposição e situação parecem unidas – na missão de avacalhar de vez com a legislação que rege as campanhas eleitorais. No auge da crise do mensalão, o senador pefelista Jorge Bornhausen apresentou um projeto para tornar menos frouxa a lei eleitoral brasileira. O assunto foi votado na Câmara com progressos importantes – mas, na semana passada, o Senado se encarregou de reduzi-los a pó. Os senadores derrubaram a responsabilização criminal de tesoureiros e doadores de recursos ilegais, excluíram o artigo que obrigava os candidatos a prestar contas diariamente pela internet, inclusive com a identificação de doadores e valores, e diminuíram de três anos para apenas um a suspensão de repasse do fundo partidário às legendas pilhadas com caixa dois. Em seu capítulo mais polêmico, a nova lei proibiu o uso de cenas externas nas campanhas, sob o pretexto de reduzir custos para torná-las menos desiguais. Também proibiu a divulgação de pesquisas eleitorais nos quinze dias anteriores à eleição, num flagrante desrespeito ao direito constitucional à informação. O consolo que resta é que a lambança produzida no Senado não poderá ser aplicada nas próximas eleições. A Constituição diz que mudança das regras eleitorais só vale se for aprovada um ano antes da eleição.

 

O QUE FAZ O "CHEFE DA QUADRILHA"?


Agliberto Lima/AE
José Dirceu: viagem sigilosa à Venezuela

O ex-ministro José Dirceu foi apontado pelo procurador-geral da República como o "chefe da quadrilha" do mensalão. Talvez Dirceu tenha razão em ficar indignado com a alcunha. Talvez ele seja um mero cumpridor de ordens. Um indício disso é que nos últimos dois meses o ex-ministro, que não tem cargo nem mandato, esteve três vezes na Granja do Torto. A convite do presidente Lula, eles conversaram muito sobre a crise, Dirceu deu várias sugestões ao presidente e recebeu algumas tarefas – todas de caráter político e reservadas. Uma delas, que acabou sendo descoberta, foi a manobra para tumultuar a escolha do candidato do PMDB. Dirceu voou num jatinho particular para Juiz de Fora, pago sabe-se lá por quem e sabe-se lá com que dinheiro, para conversar com o ex-presidente Itamar Franco e convencê-lo a enfrentar o ex-governador Anthony Garotinho nas prévias do partido (veja reportagem). Como se ainda fosse um articulador do governo, Dirceu acha que as alianças para um eventual segundo mandato de Lula devem ser construídas desde já. O presidente, diz ele, não tem equipe para compor um novo governo.

Dirceu também esteve reunido com Lula no ápice da crise provocada pela quebra de sigilo do caseiro Francenildo Costa. O presidente decidira demitir Antonio Palocci e consultou o "chefe da quadrilha" sobre as alternativas para substituí-lo. Na conversa, vários nomes foram discutidos e o ex-ministro fez restrições a muitos deles. Foi assim que Guido Mantega virou ministro da Fazenda. Além de conselheiro político-econômico informal, o "chefe da quadrilha" também tem cumprido missões diplomáticas. Cercado de sigilo, já como deputado cassado, ele se encontrou com a secretária de Estado americana, Condoleezza Rice. Dirceu mantém boas relações com representantes do governo Bush desde a época da campanha presidencial. Na semana passada, ele estava na Venezuela para uma reunião igualmente sigilosa com o presidente Hugo Chávez.

O "chefe da quadrilha" também tem conversado com empresários, como o mexicano Carlos Slim, dono da Telmex, empresa que controla a Embratel e a Claro. Obstinado, não se preocupa apenas com o governo Lula. Como se sabe, ele lutou até o último instante contra a própria cassação, recorreu ao Supremo Tribunal Federal e perdeu, mas até agora não desistiu de retornar ao Congresso. Com uma pesquisa de opinião pública em mãos, Dirceu viu que sua imagem perante o eleitorado paulista foi bastante atingida, mas nada que uma boa campanha não consiga reverter. Mas Dirceu não está inelegível pelos próximos oito anos? Sim, mas ele acredita que o próximo Congresso vai lhe conceder anistia! Bem, um dado é certo: a história recente da criminalidade em Brasília mostra que o "chefe da quadrilha" sabe como tornar as coisas possíveis no Congresso...

 
 
 
 
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