Edição 1 646 -26/4/2000

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LIVROS

Paul McCartney -- Many Years from Now, de Barry Miles (DBA; tradução de Mário Vilela; 778 páginas; 45 reais) — Miles é amigo há mais de três décadas do ex-beatle Paul McCartney, foi um dos diretores da gravadora Apple, fundada pelo quarteto de Liverpool, e escreveu uma festejada biografia do poeta beat Allen Ginsberg. Esta biografia autorizada de McCartney é o melhor livro escrito até hoje sobre os Beatles. Resulta de dezenas de entrevistas feitas ao longo de cinco anos com o compositor. Para os fãs do grupo, ele oferece um show de informações inéditas. McCartney conta em detalhes como surgiram dezenas de composições do conjunto feitas por ele e seu parceiro John Lennon e explica o significado real de várias letras. Revela que Got to Get You into My Life, por exemplo, não era uma declaração de amor a uma garota, mas uma homenagem à maconha. O compositor também expõe muitas cenas de bastidores dos Beatles, mostrando a série de desentendimentos que resultaram no fim do grupo, em 1970. Há poucas semanas, anunciou-se que McCartney, George Harrison e Ringo Starr estão escrevendo um livro com a história da banda. Many Years from Now pode servir como um saboroso aperitivo.

 

Cozinha indiana: mais do que curry

Arqueologias Culinárias da Índia, de Fernanda de Camargo-Moro (Record; 480 páginas; 35 reais) — A autora é arqueóloga e passou boa parte das últimas três décadas viajando pela Índia e por países vizinhos em missões patrocinadas pela Unesco. Entre uma escavação e outra, dedicava-se a saborear e a estudar a culinária das regiões por onde passava. Neste livro, ela reúne uma centena de receitas típicas, das mais conhecidas a outras descobertas em recantos obscuros do país. O leitor habituado a identificar a cozinha indiana com frango ao curry e mango chutney ficará admirado diante da enorme variedade de outras preparações e ingredientes que ela sugere. "Do sul ao norte, da planície à montanha, a Índia tem mais de 1.000 cozinhas", escreve Fernanda na introdução. Em meio às receitas, a autora discorre sobre as características da culinária indiana e comenta aspectos culturais do país, exibindo uma impressionante familiaridade com o assunto. Ensina também onde encontrar os ingredientes mais exóticos em cidades como Rio de Janeiro e Nova York. De quebra, para os turistas brasileiros, dá dicas dos lugares em que se come bem nas principais cidades da Índia e onde está a melhor comida indiana nas grandes capitais do mundo.

 

O Eleito, de Thomas Mann (Mandarim; tradução de Lya Luft; 271 páginas; 29,50 reais) — Pergunte a qualquer crítico, em qualquer parte do mundo, qual a sua lista de maiores escritores do século XX. Nove entre dez incluirão o alemão Thomas Mann nas primeiras posições. Autor de romances como Doutor Fausto e A Montanha Mágica, ele é um daqueles raros escritores que realmente merecem ser chamados de gênios. O Eleito é uma de suas obras menos conhecidas. É uma recriação da lenda de São Gregório, a quem Mann se refere como um "Édipo cristão". O primeiro registro dessa lenda se encontra num manuscrito medieval francês. Fala de um menino que, por ser fruto de um relacionamento incestuoso, é abandonado logo depois de nascer. Na juventude, informado sobre sua história, ele parte numa jornada em busca de seus pais e também da remissão dos pecados familiares. Mann permite que a história seja interpretada tanto no sentido religioso como no laico. Para além do conteúdo moral da fábula, no entanto, o que importa é a maneira como ela é narrada. Mann transporta o leitor para a Idade Média. Emprega uma linguagem rica, elaborada e ainda assim perfeitamente clara. O Eleito já havia sido traduzido no Brasil, mas estava fora de catálogo fazia décadas.

 

DISCOS

Gung Ho, Patti Smith (BMG) — A cantora americana tem extensa ficha de serviços prestados ao pop. Nos anos 70, em discos como Horses, ela injetou boa poesia no rock. Simples e carregada de crítica social, sua música tornou-se referência para o movimento punk. Mais de vinte anos depois, a cinqüentona continua em forma. Gung Ho é cheio de baladas em voz grave e rocks energéticos, como Glitter in Their Eyes. Eis um caso raro de artista engajada — Patti é esquerdista roxa — que hoje não soa chato.

 

 

(The Best of) New Order, New Order (London/WEA) — Nos anos 80, muito antes de ritmos como o tecno e a house despontarem, o New Order já fazia música eletrônica ultradançante. Com a vantagem de que, em vez de ficar só no bate-estaca que hoje impera nas pistas, o quarteto inglês compunha canções deliciosas. Lançada na Inglaterra há cinco anos, esta coletânea traz os maiores sucessos do grupo, de Bizarre Love Triangle a Blue Monday. Uma lição de como arrasar nas FMs sem perder qualidade.

 

Santana, Abraxas e Santana 3, Santana (Columbia/Sony Music) — Quem comprar estes CDs pode dar-se ao luxo de esnobar todos os outros lançamentos do guitarrista mexicano. Inclusive o badalado Supernatural, que no ano passado vendeu 11 milhões de cópias e rendeu a ele oito prêmios Grammy. Esta tríade possui todas as canções que transformaram o músico em objeto de culto. Com sua inovadora mistura de rock com ritmos latinos, Santana colocou a rapaziada dos anos 60 e 70 para dançar em hits como Guajira, Oye Como Va e Soul Sacrifice. Deu tão certo que ele vem diluindo essa receita nos últimos trinta anos.

 

SHOW

Sygma
Afro Cuban All Stars: dançante


Afro Cuban All Stars
(dias 27 e 28 no Via Funchal, em São Paulo; dia 1º de maio no Teatro do Sesi, em Porto Alegre) — A música cubana tradicional voltou à moda com o sucesso do Buena Vista Social Club, show que reuniu a velha-guarda do gênero, rodou por vários países e virou tema do cultuado documentário homônimo do cineasta Wim Wenders. O grupo Afro Cuban All Stars junta integrantes do Buena Vista com músicos cubanos mais jovens. O som é igualmente sensacional, apenas um pouco mais pesado, com ênfase na percussão. No cardápio, mambos, guajiras e boleros que colocam todo mundo para dançar.

 

São Paulo: Cultura, Laselva, Saraiva, Livraria da Vila, Nobel, Siciliano; Rio: Saraiva, Sodiler, Siciliano; Porto Alegre: Saraiva, Livraria Ed. Porto Alegre, Sulina, Siciliano; Brasília: Sodiler, Siciliano; Maceió: Sodiler; Recife: Sodiler; Natal: Sodiler; Florianópolis: Siciliano; Goiânia: Siciliano; Fortaleza: Siciliano; Salvador: Siciliano; Curitiba: Livraria Curitiba, Siciliano; Belo Horizonte: Leitura, Siciliano.