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A pilhagem das nações
"A elaboração de uma lista
das 200 verdadeiras maiores fortunas brasileiras esbarraria
em dificuldades intransponíveis, subestimando patrimônios
enrustidos nas Ilhas Cayman, bens embargados pela Justiça
e riqueza de origem incerta"
Ilustração
Ale Setti
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Algumas semanas atrás o jornal londrino Sunday
Times publicou um caderno especial sobre os 200 homens
mais ricos da Inglaterra, de 1066 (data da Batalha de
Hastings, na qual Guilherme, o Conquistador venceu o rei
Haroldo II) até os nossos dias. Redigida por um
professor de história moderna (William D. Rubinstein)
e por um dos editores de economia do jornal (Philip Beresford),
a reportagem é uma brilhante lição
de história econômica sobre o milênio
que passou.
Como notam os autores, o repertório é composto
de ladrões, saqueadores, corruptos, guerreiros,
fazendeiros, mercadores, agiotas, banqueiros, industriais
e empresários. Dele constam 147 nobres, entre os
quais um cardeal, cinco arcebispos, seis bispos e uma
rainha, Leonor de Aquitânia (1122-1204), soberana
da França e, depois, da Inglaterra. Há somente
quatro mulheres entre esses 200 mais ricos. Entre elas,
Slavica Ecclestone, mulher de Bernie Ecclestone, o magnata
da Fórmula 1 e o mais conhecido dos sete ingleses
da lista que estão vivos. A grande maioria das
fortunas teve origem na terra e concentra-se no século
XIV.
O primeiro membro da lista a fazer fortuna fora da propriedade
fundiária, no grande comércio marítimo,
foi James Brydges (1673-1744), tremendo trambiqueiro que
já havia desviado fundos da coroa e depois comprou
o título de duque de Chandos. Os maiores patrimônios
se fizeram nos tempos tumultuados do nascimento e juventude
da nação inglesa. Três dos quatro
mais ricos da lista são nobres normandos que invadiram
a Inglaterra em 1066. Quando esse repertório é
comparado à lista dos quarenta maiores milionários
da história dos Estados Unidos, vê-se que
o inglês mais rico do milênio, William de
Warenne (morto em 1088), conde de Surrey, com um patrimônio
avaliado em 57,6 bilhões de libras atuais, chega
em quarto lugar, atrás dos americanos John D. Rockefeller
(1839-1937), Andrew Carnegie (1835-1919) e Cornelius Vanderbilt
(1794-1877), mas na frente de Bill Gates, o homem mais
rico do mundo atualmente.
Toda essa seqüência deixa transparecer o disciplinamento
das práticas de enriquecimento nas sociedades capitalistas.
Iniciada na ladroeira, a fortuna inglesa é progressivamente
enquadrada pelo Estado, volta a beneficiar-se da pilhagem
pilhagem externa dessa vez , no período
colonial, e depois cresce dentro das regras: o século
XX só gerou 2,5% do patrimônio total acumulado
no milênio. Algo similar se dá nos Estados
Unidos, onde os ricos são self-made men. Rockefeller,
Carnegie e Vanderbilt foram enquadrados pela primeira
vaga da legislação antitruste americana,
e Bill Gates vai ter de encarar agora a segunda vaga,
destinada a quebrar a posição de monopólio
da Microsoft.
Fazer uma lista dessas no Brasil seria complicado. Não
tanto pelo passado. Estão aí, entre outros
documentos históricos, a Nobiliarquia Paulistana
(1763-1773), de Pedro Taques, que dá o nome das
famílias quatrocentonas favorecidas pelo saque
dos povos indígenas, ou o Catálogo Genealógico
(1768), de frei Jaboatão, que indica os senhores
de engenho baianos enricados com o tráfico negreiro
e a escravidão. O problema é o presente.
A elaboração de uma lista das 200 verdadeiras
maiores fortunas brasileiras esbarraria em dificuldades
intransponíveis, subestimando patrimônios
enrustidos nas Ilhas Cayman, bens embargados pela Justiça
e riqueza de origem incerta. O fato é que o Estado,
o poder público e a sociedade, por meio de seus
representantes legais, não têm dado conta
de garantir a legitimidade da imensa riqueza que os brasileiros
têm produzido. A bandalheira continua durante as
recessões e aumenta nos períodos de crescimento
econômico.
O descalabro em que estão mergulhadas as duas
maiores cidades do país, apesar de ali estar sediados
os maiores órgãos de imprensa e toda a potência
crítica da mídia, torna essa constatação
ainda mais patética.
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