Edição 1 646 -26/4/2000

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A pilhagem das nações

"A elaboração de uma lista das 200 verdadeiras maiores fortunas brasileiras esbarraria em dificuldades intransponíveis, subestimando patrimônios enrustidos nas Ilhas Cayman, bens embargados pela Justiça e riqueza de origem incerta"

Ilustração Ale Setti


Algumas semanas atrás o jornal londrino Sunday Times publicou um caderno especial sobre os 200 homens mais ricos da Inglaterra, de 1066 (data da Batalha de Hastings, na qual Guilherme, o Conquistador venceu o rei Haroldo II) até os nossos dias. Redigida por um professor de história moderna (William D. Rubinstein) e por um dos editores de economia do jornal (Philip Beresford), a reportagem é uma brilhante lição de história econômica sobre o milênio que passou.

Como notam os autores, o repertório é composto de ladrões, saqueadores, corruptos, guerreiros, fazendeiros, mercadores, agiotas, banqueiros, industriais e empresários. Dele constam 147 nobres, entre os quais um cardeal, cinco arcebispos, seis bispos e uma rainha, Leonor de Aquitânia (1122-1204), soberana da França e, depois, da Inglaterra. Há somente quatro mulheres entre esses 200 mais ricos. Entre elas, Slavica Ecclestone, mulher de Bernie Ecclestone, o magnata da Fórmula 1 e o mais conhecido dos sete ingleses da lista que estão vivos. A grande maioria das fortunas teve origem na terra e concentra-se no século XIV.

O primeiro membro da lista a fazer fortuna fora da propriedade fundiária, no grande comércio marítimo, foi James Brydges (1673-1744), tremendo trambiqueiro que já havia desviado fundos da coroa e depois comprou o título de duque de Chandos. Os maiores patrimônios se fizeram nos tempos tumultuados do nascimento e juventude da nação inglesa. Três dos quatro mais ricos da lista são nobres normandos que invadiram a Inglaterra em 1066. Quando esse repertório é comparado à lista dos quarenta maiores milionários da história dos Estados Unidos, vê-se que o inglês mais rico do milênio, William de Warenne (morto em 1088), conde de Surrey, com um patrimônio avaliado em 57,6 bilhões de libras atuais, chega em quarto lugar, atrás dos americanos John D. Rockefeller (1839-1937), Andrew Carnegie (1835-1919) e Cornelius Vanderbilt (1794-1877), mas na frente de Bill Gates, o homem mais rico do mundo atualmente.

Toda essa seqüência deixa transparecer o disciplinamento das práticas de enriquecimento nas sociedades capitalistas. Iniciada na ladroeira, a fortuna inglesa é progressivamente enquadrada pelo Estado, volta a beneficiar-se da pilhagem – pilhagem externa dessa vez –, no período colonial, e depois cresce dentro das regras: o século XX só gerou 2,5% do patrimônio total acumulado no milênio. Algo similar se dá nos Estados Unidos, onde os ricos são self-made men. Rockefeller, Carnegie e Vanderbilt foram enquadrados pela primeira vaga da legislação antitruste americana, e Bill Gates vai ter de encarar agora a segunda vaga, destinada a quebrar a posição de monopólio da Microsoft.

Fazer uma lista dessas no Brasil seria complicado. Não tanto pelo passado. Estão aí, entre outros documentos históricos, a Nobiliarquia Paulistana (1763-1773), de Pedro Taques, que dá o nome das famílias quatrocentonas favorecidas pelo saque dos povos indígenas, ou o Catálogo Genealógico (1768), de frei Jaboatão, que indica os senhores de engenho baianos enricados com o tráfico negreiro e a escravidão. O problema é o presente. A elaboração de uma lista das 200 verdadeiras maiores fortunas brasileiras esbarraria em dificuldades intransponíveis, subestimando patrimônios enrustidos nas Ilhas Cayman, bens embargados pela Justiça e riqueza de origem incerta. O fato é que o Estado, o poder público e a sociedade, por meio de seus representantes legais, não têm dado conta de garantir a legitimidade da imensa riqueza que os brasileiros têm produzido. A bandalheira continua durante as recessões e aumenta nos períodos de crescimento econômico.

O descalabro em que estão mergulhadas as duas maiores cidades do país, apesar de ali estar sediados os maiores órgãos de imprensa e toda a potência crítica da mídia, torna essa constatação ainda mais patética.

Luiz Felipe de Alencastro é historiador (lfa@workmail.com)