Notícias de uma guerra
particular
Um filme que é como
uma coronhada na nuca oferece ao mesmo tempo a chance de
sair dele mais lúcido
Que sentem eles quando
matam? O capitão Pimentel, muito certinho em seu
uniforme de oficial da Polícia Militar do Rio de
Janeiro, jovem, branco e saudável como soldado americano
de cinema, jeito sério, português correto de
curso de educação moral e cívica, orgulhoso
de sua profissão e crente em seu valor social, responde:
"A sensação é de dever cumprido. Se
dissesse que não durmo à noite, mentiria".
Corte. Agora o entrevistado é "Carlinhos", garoto
de 16 anos, camiseta regata branca, tatuagem no ombro direito,
cordão no pescoço, trôpega linguagem
de aprendiz de malandro, confinado numa instituição
para menores infratores. Quando matou ele pela primeira
vez? "Quando tinha 11 anos." Como foi? "Taquei fogo nele.
Peguei sete rodas de pneu de caminhão, comprei 5
litros de gasolina, acendi um fósforo e botei fogo
nele." E como se sentiu? "Me senti normal. Que nem tô
aqui agora."
Os diálogos
acima fazem parte do hoje famoso documentário Notícias
de uma Guerra Particular, de João Moreira Salles
e Kátia Lund. Famoso e pena pouco visto.
A fama decorre da intriga político-policial que vitimou
Salles, ao vir à luz que pagou uma bolsa para que
um dos traficantes que o ajudaram no filme escrevesse um
livro. O documentário merecia ser famoso por outro
motivo. É avassalador. Mostra um universo feio e
miserável, mas chega a ser belo, de tão verdadeiro.
O tema é a guerra
entre policiais e traficantes nos morros cariocas. O capitão
Pimentel até parece personagem de ficção,
tão bem-acabado se apresenta como policial cônscio
dos deveres. "Estou participando de uma guerra", diz, quase
com entusiasmo. Ele quis ser policial desde os 6 anos. Quis
participar de combates. E está participando. "Nas
Forças Armadas, não teria a mesma oportunidade."
O morro fica ali ao lado. Dia sim, dia não, vira
cenário de tiroteios. "Em que outra capital do mundo
ocorre isso, sem estar em guerra?", pergunta Pimentel. A
polícia do Rio ostenta uma bagagem de 156 operações
de confronto com traficantes. Um recorde. "Tornou-se", diz
o capitão, com orgulho, "uma das mais eficientes
tropas de combate urbano do mundo."
O problema é
que, como diria um tecnocrata, o outro lado também
apresenta suas vantagens relativas. Se Pimentel quis ser
policial desde criança, no morro não faltam
crianças que querem ser traficantes. "Você
quer trabalhar?", pergunta-se no filme a um menino. "Quero."
"Onde?" "No tráfico." O tráfico, ou "movimento",
como o chamam no morro, como se fosse uma reunião
de pessoas movidas por uma causa, oferece a um menino salário
de 300 reais por semana, contra um salário mínimo,
à época da rodagem do filme (1997-1998), de
112 reais. Também proporciona esse brinquedo tão
desejado que são as armas, status e até cartaz
com as mulheres. "Só cara armado tem direito às
cocotinhas lá de baixo", comenta Janete, uma moradora
da favela.
O documentário
é isso, mas é muito mais. Talvez o principal
nem seja o garoto Zinho, de 10 anos, filmado numa escola
destinada a crianças infratoras até 12 (12!)
anos. Simpático como se a vida lhe transcorresse
na mais cristalina normalidade, risonho como se o futuro
lhe acenasse com todas as suas múltiplas possibilidades,
Zinho conta que lhe cabia no movimento soltar rojão
quando a polícia se aproximava, e alegremente mostra
o ferimento a bala que os policiais lhe fizeram na perna.
Não. Que existem os Zinhos há muito sabemos,
e aprendemos a tocar em frente assim mesmo. O que o documentário
tem talvez de mais inovador é algo não explícito,
sutil a sugestão de que o mundo ali retratado
se move por reflexos de autômato. Toda manhã
os traficantes apanham as armas e vão à luta.
Por seu lado, a polícia sobe o morro, prende um,
bate em outro, mata, é morta. Para que eles estão
ali mesmo? Parecem personagens já deslembrados de
como tudo começou, e sem noção de para
onde ir. Talvez o negócio da droga nem seja mais
o principal, e sim seguir adiante, cada um na sua, cumprindo
papéis que não podem nem querem mais largar,
numa rotina que rende prestígio social para uns,
poder para outros, a lúdica experiência da
guerra, para quem se diverte com isso, e, para todos, salário
e ocupação.
Ao fim do filme o espectador
tem a sensação de uma coronhada na nuca, mas
ao mesmo tempo sai com chances de ganhar em lucidez, com
relação a uma certa realidade brasileira.
Debateu-se, nas últimas semanas, o caso de Salles.
Devia-se debater o filme. Os brasileiros deviam vê-lo
como vêem Terra Nostra. O capitão Pimentel
a certa altura mostra um portentoso fuzil e explica que
polícia alguma o possui. "É uma arma típica
do Exército", afirma. "No Rio ela se faz necessária,
pela intensidade do fogo." Intenso é o fogo que pega
nas vísceras de tal sociedade e se insinua em cada
um de nós, embora nem o sintamos em nossas rotinas,
elas também tecidas de fantasia e esquecimento.
P.S.: Memorável
é a participação no filme do delegado
Hélio Luz, chefe da Polícia Civil na época,
mas isso fica para outra oportunidade, se houver outra oportunidade.