Edição 1 646 -26/4/2000

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Notícias de uma guerra particular

Um filme que é como uma coronhada na nuca oferece ao mesmo tempo a chance de sair dele mais lúcido

Que sentem eles quando matam? O capitão Pimentel, muito certinho em seu uniforme de oficial da Polícia Militar do Rio de Janeiro, jovem, branco e saudável como soldado americano de cinema, jeito sério, português correto de curso de educação moral e cívica, orgulhoso de sua profissão e crente em seu valor social, responde: "A sensação é de dever cumprido. Se dissesse que não durmo à noite, mentiria". Corte. Agora o entrevistado é "Carlinhos", garoto de 16 anos, camiseta regata branca, tatuagem no ombro direito, cordão no pescoço, trôpega linguagem de aprendiz de malandro, confinado numa instituição para menores infratores. Quando matou ele pela primeira vez? "Quando tinha 11 anos." Como foi? "Taquei fogo nele. Peguei sete rodas de pneu de caminhão, comprei 5 litros de gasolina, acendi um fósforo e botei fogo nele." E como se sentiu? "Me senti normal. Que nem tô aqui agora."

Os diálogos acima fazem parte do hoje famoso documentário Notícias de uma Guerra Particular, de João Moreira Salles e Kátia Lund. Famoso e — pena — pouco visto. A fama decorre da intriga político-policial que vitimou Salles, ao vir à luz que pagou uma bolsa para que um dos traficantes que o ajudaram no filme escrevesse um livro. O documentário merecia ser famoso por outro motivo. É avassalador. Mostra um universo feio e miserável, mas chega a ser belo, de tão verdadeiro.

O tema é a guerra entre policiais e traficantes nos morros cariocas. O capitão Pimentel até parece personagem de ficção, tão bem-acabado se apresenta como policial cônscio dos deveres. "Estou participando de uma guerra", diz, quase com entusiasmo. Ele quis ser policial desde os 6 anos. Quis participar de combates. E está participando. "Nas Forças Armadas, não teria a mesma oportunidade." O morro fica ali ao lado. Dia sim, dia não, vira cenário de tiroteios. "Em que outra capital do mundo ocorre isso, sem estar em guerra?", pergunta Pimentel. A polícia do Rio ostenta uma bagagem de 156 operações de confronto com traficantes. Um recorde. "Tornou-se", diz o capitão, com orgulho, "uma das mais eficientes tropas de combate urbano do mundo."

O problema é que, como diria um tecnocrata, o outro lado também apresenta suas vantagens relativas. Se Pimentel quis ser policial desde criança, no morro não faltam crianças que querem ser traficantes. "Você quer trabalhar?", pergunta-se no filme a um menino. "Quero." "Onde?" "No tráfico." O tráfico, ou "movimento", como o chamam no morro, como se fosse uma reunião de pessoas movidas por uma causa, oferece a um menino salário de 300 reais por semana, contra um salário mínimo, à época da rodagem do filme (1997-1998), de 112 reais. Também proporciona esse brinquedo tão desejado que são as armas, status e até cartaz com as mulheres. "Só cara armado tem direito às cocotinhas lá de baixo", comenta Janete, uma moradora da favela.

O documentário é isso, mas é muito mais. Talvez o principal nem seja o garoto Zinho, de 10 anos, filmado numa escola destinada a crianças infratoras até 12 (12!) anos. Simpático como se a vida lhe transcorresse na mais cristalina normalidade, risonho como se o futuro lhe acenasse com todas as suas múltiplas possibilidades, Zinho conta que lhe cabia no movimento soltar rojão quando a polícia se aproximava, e alegremente mostra o ferimento a bala que os policiais lhe fizeram na perna. Não. Que existem os Zinhos há muito sabemos, e aprendemos a tocar em frente assim mesmo. O que o documentário tem talvez de mais inovador é algo não explícito, sutil — a sugestão de que o mundo ali retratado se move por reflexos de autômato. Toda manhã os traficantes apanham as armas e vão à luta. Por seu lado, a polícia sobe o morro, prende um, bate em outro, mata, é morta. Para que eles estão ali mesmo? Parecem personagens já deslembrados de como tudo começou, e sem noção de para onde ir. Talvez o negócio da droga nem seja mais o principal, e sim seguir adiante, cada um na sua, cumprindo papéis que não podem nem querem mais largar, numa rotina que rende prestígio social para uns, poder para outros, a lúdica experiência da guerra, para quem se diverte com isso, e, para todos, salário e ocupação.

Ao fim do filme o espectador tem a sensação de uma coronhada na nuca, mas ao mesmo tempo sai com chances de ganhar em lucidez, com relação a uma certa realidade brasileira. Debateu-se, nas últimas semanas, o caso de Salles. Devia-se debater o filme. Os brasileiros deviam vê-lo como vêem Terra Nostra. O capitão Pimentel a certa altura mostra um portentoso fuzil e explica que polícia alguma o possui. "É uma arma típica do Exército", afirma. "No Rio ela se faz necessária, pela intensidade do fogo." Intenso é o fogo que pega nas vísceras de tal sociedade e se insinua em cada um de nós, embora nem o sintamos em nossas rotinas, elas também tecidas de fantasia e esquecimento.

P.S.: Memorável é a participação no filme do delegado Hélio Luz, chefe da Polícia Civil na época, mas isso fica para outra oportunidade, se houver outra oportunidade.