Feminista de olho roxo
Betty Friedan, ícone do movimento
de libertação
das mulheres, conta que apanhava do marido
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Friedan, em 1966: no
começo,
uma dona-de-casa insatisfeita |
Falar em feminismo é falar na americana Betty Friedan, a
papisa das mulheres liberadas, sócia-fundadora e guia
meio tresloucada, mas guia assim mesmo do movimento
de libertação feminina, o Women's Lib. Em 1963, Betty, na
época uma pacata dona-de-casa e redatora bissexta de revistas
femininas, publicou A Mística Feminina, livro em
que expunha a insatisfação de milhões de mulheres com o
papel que a vida doméstica lhes reservava. A obra, mais
sua disposição para brigar por suas idéias, ajudou a detonar
uma seqüência de marchas, protestos e debates inflamados
que fizeram os Estados Unidos e a Europa Ocidental ferver
entre o fim da década de 60 e o começo da de 70. Pois essa
mesma porta-estandarte dos direitos das mulheres acaba de
admitir em um recém-concluído livro de memórias que em casa,
longe do circuito de festas, passeatas e programas de TV,
apanhava quase todo dia do marido, Carl. "Quando o
livro fez sucesso, fiquei à mercê do ciúme dos amigos, dos
vizinhos e de meu próprio marido", revela ela, num
trecho de Life So Far: a Memoir, publicado na revista
George. Carl, publicitário bem de vida, sentiu o
baque ao ser colocado na condição de "o marido de Betty".
"Aí, não sei bem como, ele começou a me bater."
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Passeata em Los Angeles
(1975):
o protesto feminino ganha as ruas |
Mesmo famosa e atolada em compromissos do movimento feminista,
Betty, mãe de três filhos, conta que nessa fase ainda se
esmerava em pôr o jantar na mesa e em pendurar as camisas
do marido no armário. "Gostava de ser casada",
diz ela. "E aceitei a agressão porque não tive coragem
de romper o casamento." Outros dois motivos a fizeram
dobrar-se à rotina de olhos roxos e marcas pelo corpo. O
primeiro era de ordem comercial: "Meus amigos, minha
editora, minha agente, todos ficavam me dizendo: 'É tão
importante para o livro que você seja uma boa esposa e mãe'".
O segundo pode ser creditado na conta da psicologia. Betty
e Carl mantinham uma relação neurótica: "Acho que eu
também provocava as surras. O olho roxo dava a nós dois
um sentimento de culpa". Só em 1969 ela pediu o divórcio,
por não conseguir mais "conciliar ser surrada por meu
marido e, ao mesmo tempo, convocar as mulheres a reagir
contra os opressores". Avaliação tipicamente friedaniana
daquele período: "Eu agia como se fosse Joana d'Arc,
mas na verdade envergonhava o movimento sendo uma banana
em casa". O divórcio foi assinado no México, o mais
discretamente possível para "proteger o movimento",
claro.
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Sobre
Carl, o ciumento
"Durante aqueles memoráveis
anos 60, fui espancada pelo meu marido. Finalmente,
em 1969, criei coragem e pedi o divórcio"
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Manobra das "irmãs" Ao longo do
trecho publicado, Friedan toca em vários assuntos que marcaram
sua trajetória de militante feminista de primeira hora.
Nega, por exemplo, que as freqüentes trocas de farpa com
outra estrela do Women's Lib, Gloria Steinem, tivessem a
ver com o fato de que Gloria era bonita e ela, feia. "Não
ser bonita sempre foi uma praga da minha existência",
admite. "Mas sempre vi um ponto positivo na aparência
de Gloria: sua beleza e glamour foram fundamentais para
rebater a imagem do movimento como um ninho de feias e lésbicas."
Por que então elas brigavam? Por razões ideológicas, ora.
"Nunca concordei com a Ms., a revista 'feminista'
criada por Gloria em 1971, cujas primeiras edições traziam
palavras de ordem contra os homens. Uma delas, por exemplo,
era que as mulheres não deviam fazer nada para parecer atraentes.
Gloria, no entanto, namorava homens glamourosos e fazia
mechas no cabelo. Ela sentava no secador com uma Vogue
na frente do rosto para não ser reconhecida", entrega
Betty. E aproveita para, assim como quem não quer nada,
soltar seu veneninho: "Eu, por outro lado, nunca fui
adepta do radical chique".
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Sobre
a feiúra
"Não ser bonita sempre foi uma praga da minha
existência. Mas agora, na velhice, não sou mais tão
horrorosa"
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Depois do divórcio, Betty trocou os laçarotes, babados
e laquê da dona-de-casa de subúrbio americano por sandálias,
saiões, bijuterias e motivos indianos que entraram na moda
graças aos hippies. Assim vestida e ultra-inspirada, participou
de uma memorável entrevista aos machões explícitos do jornal
O Pasquim, quando visitou o Brasil, em 1971. A entrevista,
recheada de palavrões, teve a certa altura uma mesa chutada
(por ela). Até hoje, aos 79 anos, Betty dá palestras e escreve
sobre feminismo, sua atividade há quatro décadas. No trecho
publicado na George, ela diz que saiu da NOW (a muito
influente National Organization of Women, que ajudou a fundar),
em 1972, por causa de uma manobra suja das outras mandachuvas
da organização, conhecidas como "irmãs". Foi nesse
momento que deixou de ter aspirações políticas. Ao fazer
um balanço de sua vida, Betty acha que ficou mais bonita
com o passar dos anos. "Agora, na velhice, não sou
tão feia quanto pensava que era na juventude."