Edição 1 646 -26/4/2000

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Feminista de olho roxo

Betty Friedan, ícone do movimento de libertação
das mulheres, conta que apanhava do marido

 

AP
Friedan, em 1966: no começo,
uma dona-de-casa insatisfeita


Falar em feminismo é falar na americana Betty Friedan, a papisa das mulheres liberadas, sócia-fundadora e guia – meio tresloucada, mas guia assim mesmo – do movimento de libertação feminina, o Women's Lib. Em 1963, Betty, na época uma pacata dona-de-casa e redatora bissexta de revistas femininas, publicou A Mística Feminina, livro em que expunha a insatisfação de milhões de mulheres com o papel que a vida doméstica lhes reservava. A obra, mais sua disposição para brigar por suas idéias, ajudou a detonar uma seqüência de marchas, protestos e debates inflamados que fizeram os Estados Unidos e a Europa Ocidental ferver entre o fim da década de 60 e o começo da de 70. Pois essa mesma porta-estandarte dos direitos das mulheres acaba de admitir em um recém-concluído livro de memórias que em casa, longe do circuito de festas, passeatas e programas de TV, apanhava quase todo dia do marido, Carl. "Quando o livro fez sucesso, fiquei à mercê do ciúme dos amigos, dos vizinhos e de meu próprio marido", revela ela, num trecho de Life So Far: a Memoir, publicado na revista George. Carl, publicitário bem de vida, sentiu o baque ao ser colocado na condição de "o marido de Betty". "Aí, não sei bem como, ele começou a me bater."


AP
Passeata em Los Angeles (1975):
o protesto feminino ganha as ruas


Mesmo famosa e atolada em compromissos do movimento feminista, Betty, mãe de três filhos, conta que nessa fase ainda se esmerava em pôr o jantar na mesa e em pendurar as camisas do marido no armário. "Gostava de ser casada", diz ela. "E aceitei a agressão porque não tive coragem de romper o casamento." Outros dois motivos a fizeram dobrar-se à rotina de olhos roxos e marcas pelo corpo. O primeiro era de ordem comercial: "Meus amigos, minha editora, minha agente, todos ficavam me dizendo: 'É tão importante para o livro que você seja uma boa esposa e mãe'". O segundo pode ser creditado na conta da psicologia. Betty e Carl mantinham uma relação neurótica: "Acho que eu também provocava as surras. O olho roxo dava a nós dois um sentimento de culpa". Só em 1969 ela pediu o divórcio, por não conseguir mais "conciliar ser surrada por meu marido e, ao mesmo tempo, convocar as mulheres a reagir contra os opressores". Avaliação tipicamente friedaniana daquele período: "Eu agia como se fosse Joana d'Arc, mas na verdade envergonhava o movimento sendo uma banana em casa". O divórcio foi assinado no México, o mais discretamente possível – para "proteger o movimento", claro.


Sobre Carl, o ciumento
"Durante aqueles memoráveis anos 60, fui espancada pelo meu marido. Finalmente, em 1969, criei coragem e pedi o divórcio"

Manobra das "irmãs" – Ao longo do trecho publicado, Friedan toca em vários assuntos que marcaram sua trajetória de militante feminista de primeira hora. Nega, por exemplo, que as freqüentes trocas de farpa com outra estrela do Women's Lib, Gloria Steinem, tivessem a ver com o fato de que Gloria era bonita e ela, feia. "Não ser bonita sempre foi uma praga da minha existência", admite. "Mas sempre vi um ponto positivo na aparência de Gloria: sua beleza e glamour foram fundamentais para rebater a imagem do movimento como um ninho de feias e lésbicas." Por que então elas brigavam? Por razões ideológicas, ora. "Nunca concordei com a Ms., a revista 'feminista' criada por Gloria em 1971, cujas primeiras edições traziam palavras de ordem contra os homens. Uma delas, por exemplo, era que as mulheres não deviam fazer nada para parecer atraentes. Gloria, no entanto, namorava homens glamourosos e fazia mechas no cabelo. Ela sentava no secador com uma Vogue na frente do rosto para não ser reconhecida", entrega Betty. E aproveita para, assim como quem não quer nada, soltar seu veneninho: "Eu, por outro lado, nunca fui adepta do radical chique".


Sobre a feiúra
"Não ser bonita sempre foi uma praga da minha existência. Mas agora, na velhice, não sou mais tão horrorosa"

Depois do divórcio, Betty trocou os laçarotes, babados e laquê da dona-de-casa de subúrbio americano por sandálias, saiões, bijuterias e motivos indianos que entraram na moda graças aos hippies. Assim vestida e ultra-inspirada, participou de uma memorável entrevista aos machões explícitos do jornal O Pasquim, quando visitou o Brasil, em 1971. A entrevista, recheada de palavrões, teve a certa altura uma mesa chutada (por ela). Até hoje, aos 79 anos, Betty dá palestras e escreve sobre feminismo, sua atividade há quatro décadas. No trecho publicado na George, ela diz que saiu da NOW (a muito influente National Organization of Women, que ajudou a fundar), em 1972, por causa de uma manobra suja das outras mandachuvas da organização, conhecidas como "irmãs". Foi nesse momento que deixou de ter aspirações políticas. Ao fazer um balanço de sua vida, Betty acha que ficou mais bonita com o passar dos anos. "Agora, na velhice, não sou tão feia quanto pensava que era na juventude."