Edição 1 646 -26/4/2000

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Enfim, terra!

A família Schürmann completa a viagem em volta
da Terra depois de dois anos nos mares

Silvio Ferraz, do veleiro Aysso

 

Oscar Cabral


Nesta expedição não há fome nem doença. Tampouco ansiedade diante do desconhecido. A saudável família Schürmann, de Santa Catarina, que partiu do Brasil há pouco mais de dois anos para circunavegar o planeta, sabe dia, hora e minuto que aportará em Santa Cruz Cabrália, em homenagem aos 500 anos do descobrimento. O que ninguém a bordo do Aysso, o veleiro da família, sabe nessa alvorada é quando poderá enxergar terra brasileira. A costa dista 30 milhas. Os ventos sopram a 15 nós de través, e o barco, com 20 toneladas, corta ondas de 2 metros de altura com galhardia. A tripulação perscruta o horizonte ainda coberto com um manto espesso de neblina. "Terra à vista", esgoela-se David, o filho do meio do casal Heloisa e Vilfredo, lobos-do-mar da ponta dos pés à raiz dos cabelos. É a costa da Paraíba. Todos riem, pulam e batem palmas. Foram 58 456 quilômetros percorridos em uma rota propositadamente coincidente com a do navegador português Fernão de Magalhães, traçada em 1519. Foram visitados 61 portos em dezenove países e nove territórios. Uma viagem planejada quase com requintes de vôo espacial, tantos foram os cuidados no mar e na terra.

Não faltaram acidentes nem surpresas desagradáveis. No Mar da China, ameaça de piratas na costa da Indonésia. Vilfredo, com controlada tensão, esperava-os com a pistola de sinalização em punho. Ou tormentas monumentais no Estreito de Magalhães, com ondas de 10 metros e ventos de 60 nós fustigando o convés. Ou mesmo icebergs aprisionando o barco. Mas sobrou deslumbramento com as belezas naturais e a afabilidade de tantos povos. Em Brunei foram recebidos como príncipes. E aquele povo, que do Brasil só conhecia Pelé, passou a integrar o grande contingente que seguiu a viagem pela internet.

Oscar Cabral
Aniversário de David, a bordo do Aysso: "O segredo é o bom humor"


A vida a bordo é um exercício em equipe. "O segredo é o bom humor. E a chave, a tolerância com os hábitos de cada um", ensina Vilfredo. Cada um dos oito tripulantes, incluindo o capitão, tem suas especialidades e também tarefas preestabelecidas. A cada quatro horas, um acorda, toma um café na cozinha, informa-se da navegação e sobe à coberta. Ouve de quem o antecede no timão comentários sobre os ventos, as correntes e o mar. E assume o comando por mais quatro horas. Nos momentos de mar grosso, outro tripulante o acompanha. Durante as 24 horas do dia, há sempre alguém dormindo no barco. Quem não dorme lê, ouve música com fones no ouvido ou dedica-se a responder aos e-mails que chovem de todos os cantos do mundo. São cerca de 200 mensagens diárias. Passam por uma "quarentena" na base de apoio em terra, no Rio de Janeiro, para depois serem transmitidos ao barco. "Não podemos correr o risco de importar um vírus com tanto equipamento eletrônico a bordo", explica David.

A parafernália na embarcação é complexa o suficiente para garantir a navegação com segurança. Quem sobe a bordo como tripulante novato vê o conforto num ponto minúsculo perdido no horizonte longínquo. As cinco cabines são exíguas, com beliche, minipia, pequeno armário e prateleira para cinco livros. Depois de lidos, são trocados com outros navegantes nos portos de escala. Na proa do barco há um banheiro com chuveiro para a tripulação. A invejada cabine do capitão, à popa, onde dorme o casal e a filha Kat, é espaçosa e tem banheiro privativo. No mais é tudo comum: o refeitório, a cozinha e a sala de comunicações com seis computadores.

O fogão a gás tem a superfície móvel para manter as panelas sempre em posição horizontal, não importando o tamanho das ondas. Há dias em que o mar não permite refeições. O jeito é apelar para bebidas energéticas, frutas secas e barras de chocolate. Nem sempre é assim. Há mesmo especialidades consagradas. Heloisa, ou "Formiga", como a apelidaram os filhos, tem receitas de grande sucesso. Quando encontram carne de boa qualidade em algum porto, o estrogonofe entra no circuito. Vilfredo, o capitão, inspira-se na cozinha e envolve o barco com odores dos temperos que aplica em seu espaguete. Wilhelm, o filho mais moço, campeão brasileiro de windsurfe, tem reservados ervas finas de Provence e um bom vinho para preparar seu carro-chefe: peixe capturado no dia acompanhado de batatas fervidas cobertas com queijo derretido.

Acervo pessoal
Dança checak, em Bali: deslumbramento com as belezas naturais e com a afabilidade
dos povos

No dia-a-dia, o respeito à individualidade é a tecla batida e rebatida. Ninguém interrompe o outro em suas tarefas. Não há papo furado, embora o humor e a gozação predominem. "Se David está lendo, procuro não distraí-lo, porque quero que ele tenha a mesma atitude comigo", comenta Sabrina Jachowicz, sua companheira. Ao cair da tarde, é hora da saração. Todos no tombadilho ao som de música animada, com pesos amarrados às canelas, sacodem-se animadamente. Os exercícios são imprescindíveis. O esforço a bordo é constante e necessário quando o mar engrossa.

Os Schürmann são uma empresa flutuante. Um clã que viu no mar, nas ondas e nos ventos o habitat ideal. Na primeira viagem de circunavegação, que durou uma década, levaram milionários a recantos maravilhosos com serviço de hotel cinco-estrelas, a 300 dólares por pessoa com tudo incluído. "Eu e Heloisa cuidávamos da navegação e da cozinha e os meninos da marinhagem e do serviço de mesa, como garçons", recorda Vilfredo sorrindo. Desta vez, nada foi improvisado. A viagem, que consumiu 4 milhões de dólares, contou com patrocinadores desde o início. Vilfredo acredita que já no próximo ano, quando um longa-metragem sobre as aventuras da família, feito por David, for concluído, com a comercialização de fotos e de conferências sobre a viagem, o faturamento poderá chegar a 7,5 milhões de dólares. Aí começará seu novo projeto, sonhado nas noites de lua e nos dias de sol e que ganha contornos reais a cada milha que o Aysso se aproxima da costa brasileira. Vilfredo quer um barco duas vezes maior que o Aysso e parafernália de navegação mais sofisticada, para continuar seus planos de cruzar mares e mais mares: "Navegar não é apenas preciso, é imprescindível à nossa sobrevivência".

Vilfredo caminha sobre uma geleira no sul do Chile e uma arraia-jamanta: aventura

 

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