Enfim, terra!
A família
Schürmann completa a viagem em volta
da Terra depois de dois anos nos mares
Silvio
Ferraz, do veleiro Aysso
Oscar
Cabral
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Nesta expedição não há fome
nem doença. Tampouco ansiedade diante do desconhecido.
A saudável família Schürmann, de Santa
Catarina, que partiu do Brasil há pouco mais de dois
anos para circunavegar o planeta, sabe dia, hora e minuto
que aportará em Santa Cruz Cabrália, em homenagem
aos 500 anos do descobrimento. O que ninguém a bordo
do Aysso, o veleiro da família, sabe nessa
alvorada é quando poderá enxergar terra brasileira.
A costa dista 30 milhas. Os ventos sopram a 15 nós
de través, e o barco, com 20 toneladas, corta
ondas de 2 metros de altura com galhardia. A tripulação
perscruta o horizonte ainda coberto com um manto espesso
de neblina. "Terra à vista", esgoela-se David, o
filho do meio do casal Heloisa e Vilfredo, lobos-do-mar
da ponta dos pés à raiz dos cabelos. É
a costa da Paraíba. Todos riem, pulam e batem palmas.
Foram 58 456 quilômetros percorridos em uma rota propositadamente
coincidente com a do navegador português Fernão
de Magalhães, traçada em 1519. Foram visitados
61 portos em dezenove países e nove territórios.
Uma viagem planejada quase com requintes de vôo espacial,
tantos foram os cuidados no mar e na terra.
Não faltaram acidentes nem
surpresas desagradáveis. No Mar da China, ameaça
de piratas na costa da Indonésia. Vilfredo, com controlada
tensão, esperava-os com a pistola de sinalização
em punho. Ou tormentas monumentais no Estreito de Magalhães,
com ondas de 10 metros e ventos de 60 nós fustigando
o convés. Ou mesmo icebergs aprisionando o barco.
Mas sobrou deslumbramento com as belezas naturais e a afabilidade
de tantos povos. Em Brunei foram recebidos como príncipes.
E aquele povo, que do Brasil só conhecia Pelé,
passou a integrar o grande contingente que seguiu a viagem
pela internet.
Oscar Cabral
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| Aniversário
de David, a bordo do Aysso: "O segredo é
o bom humor" |
A vida a bordo é um exercício em equipe. "O
segredo é o bom humor. E a chave, a tolerância
com os hábitos de cada um", ensina Vilfredo. Cada
um dos oito tripulantes, incluindo o capitão, tem
suas especialidades e também tarefas preestabelecidas.
A cada quatro horas, um acorda, toma um café na cozinha,
informa-se da navegação e sobe à coberta.
Ouve de quem o antecede no timão comentários
sobre os ventos, as correntes e o mar. E assume o comando
por mais quatro horas. Nos momentos de mar grosso, outro
tripulante o acompanha. Durante as 24 horas do dia, há
sempre alguém dormindo no barco. Quem não
dorme lê, ouve música com fones no ouvido ou
dedica-se a responder aos e-mails que chovem de todos os
cantos do mundo. São cerca de 200 mensagens diárias.
Passam por uma "quarentena" na base de apoio em terra, no
Rio de Janeiro, para depois serem transmitidos ao barco.
"Não podemos correr o risco de importar um vírus
com tanto equipamento eletrônico a bordo", explica
David.
A parafernália na embarcação
é complexa o suficiente para garantir a navegação
com segurança. Quem sobe a bordo como tripulante
novato vê o conforto num ponto minúsculo perdido
no horizonte longínquo. As cinco cabines são
exíguas, com beliche, minipia, pequeno armário
e prateleira para cinco livros. Depois de lidos, são
trocados com outros navegantes nos portos de escala. Na
proa do barco há um banheiro com chuveiro para a
tripulação. A invejada cabine do capitão,
à popa, onde dorme o casal e a filha Kat, é
espaçosa e tem banheiro privativo. No mais é
tudo comum: o refeitório, a cozinha e a sala de comunicações
com seis computadores.
O fogão a gás tem
a superfície móvel para manter as panelas
sempre em posição horizontal, não importando
o tamanho das ondas. Há dias em que o mar não
permite refeições. O jeito é apelar
para bebidas energéticas, frutas secas e barras de
chocolate. Nem sempre é assim. Há mesmo especialidades
consagradas. Heloisa, ou "Formiga", como a apelidaram os
filhos, tem receitas de grande sucesso. Quando encontram
carne de boa qualidade em algum porto, o estrogonofe entra
no circuito. Vilfredo, o capitão, inspira-se na cozinha
e envolve o barco com odores dos temperos que aplica em
seu espaguete. Wilhelm, o filho mais moço, campeão
brasileiro de windsurfe, tem reservados ervas finas de Provence
e um bom vinho para preparar seu carro-chefe: peixe capturado
no dia acompanhado de batatas fervidas cobertas com queijo
derretido.
Acervo pessoal
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Dança
checak, em Bali: deslumbramento com as belezas naturais
e com a
afabilidade
dos povos |
No dia-a-dia, o respeito à
individualidade é a tecla batida e rebatida. Ninguém
interrompe o outro em suas tarefas. Não há
papo furado, embora o humor e a gozação
predominem. "Se David está lendo, procuro não
distraí-lo, porque quero que ele tenha a mesma atitude
comigo", comenta Sabrina Jachowicz, sua companheira. Ao
cair da tarde, é hora da saração.
Todos no tombadilho ao som de música animada, com
pesos amarrados às canelas, sacodem-se animadamente.
Os exercícios são imprescindíveis.
O esforço a bordo é constante e necessário
quando o mar engrossa.
Os Schürmann são uma
empresa flutuante. Um clã que viu no mar, nas ondas
e nos ventos o habitat ideal. Na primeira viagem de circunavegação,
que durou uma década, levaram milionários
a recantos maravilhosos com serviço de hotel cinco-estrelas,
a 300 dólares por pessoa com tudo incluído.
"Eu e Heloisa cuidávamos da navegação
e da cozinha e os meninos da marinhagem e do serviço
de mesa, como garçons", recorda Vilfredo sorrindo.
Desta vez, nada foi improvisado. A viagem, que consumiu
4 milhões de dólares, contou com patrocinadores
desde o início. Vilfredo acredita que já no
próximo ano, quando um longa-metragem sobre as aventuras
da família, feito por David, for concluído,
com a comercialização de fotos e de conferências
sobre a viagem, o faturamento poderá chegar a 7,5
milhões de dólares. Aí começará
seu novo projeto, sonhado nas noites de lua e nos dias de
sol e que ganha contornos reais a cada milha que o Aysso
se aproxima da costa brasileira. Vilfredo quer um barco
duas vezes maior que o Aysso e parafernália
de navegação mais sofisticada, para continuar
seus planos de cruzar mares e mais mares: "Navegar não
é apenas preciso, é imprescindível
à nossa sobrevivência".
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| Vilfredo
caminha sobre uma geleira no sul do
Chile e uma arraia-jamanta: aventura |
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