No Brasil, mas de passagem
Como
os executivos estrangeiros
e suas
famílias se adaptam à vida no país
Anna
Paula Buchalla
Ricardo Benichio
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| Eric Manke, executivo
da Alcan, empresa
de alumínio,
e sua família: planos de ficar dois anos no Brasil
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O processo de abertura econômica do país produziu
mudanças na vida dos brasileiros, mas mexeu também
com a rotina de milhares de estrangeiros. Desde 1990, grupos
cada vez maiores de executivos oriundos de outros países
mudaram-se com a família para o Brasil para trabalhar.
O processo se intensificou com as privatizações
ocorridas no setor de telecomunicações, com
a venda de bancos para grupos estrangeiros e com a chegada
da nova safra de montadoras de automóveis. Hoje,
existem colônias de franceses no Paraná, graças
à Renault. Em São Paulo, muitos espanhóis
chegaram na esteira da Telefônica. A Bahia recebeu
uma recente onda de americanos por causa da transferência
da Ford, "roubada" do Rio Grande do Sul. Das 500 maiores
companhias transnacionais, mais de 400 estão instaladas
no país. Como o Brasil ganhou espaço no mundo
dos negócios, nada mais natural que essas empresas
transfiram para o país alguns executivos da matriz.
Para as companhias, essa transferência representa
um reforço na filial. Para os executivos e a família,
a mudança é um sacolejo completo na vida.
Calcula-se
que, nos últimos dois anos, 28.000
estrangeiros se mudaram para o Brasil. Um levantamento feito
pelo Ministério do Trabalho mostra que, em geral,
eles permanecem no país por um período que
varia entre um e três anos. A maioria chega sem saber
uma palavra de português. De cada dez desses "trabalhadores",
apenas um se expressa no idioma nacional. Por causa disso,
muitas vezes sentem-se perdidos com as tradições
e a cultura muito diferentes. Eles chegam com um projeto
bem definido: ficar pouco tempo e voltar para a terra natal
numa posição melhor dentro da empresa. As
crianças estudam em escolas para estrangeiros, eles
moram em condomínios fechados e muitos só
saem de casa para o trabalho. O Brasil serve como degrau
na escalada profissional dessas pessoas.
Joel Rocha
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O Clube Internacional
das Mulheres de
Executivos, em Curitiba: uma
das várias associações que oferecem
cursos e dão apoio aos estrangeiros que chegam
desinformados sobre
o país
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Os dois primeiros meses no Brasil são especialmente
emocionantes. O primeiro é o da euforia. O país
é quente, o salário (normalmente calculado
em dólar) dá e sobra, eles têm à
disposição carros, motorista, empregada (o
sonho de consumo de dez entre dez estrangeiras) e, muitas
vezes, nem pagam a escola dos filhos. O segundo mês
é o do desespero. Eles se perguntam: como os brasileiros
vivem dessa maneira? Como suportam trânsito, favelas,
violência? No terceiro mês, conseguem estabelecer
uma rotina. Quem mais sente os efeitos da mudança
são as mulheres dos executivos. Cabe a elas tratar
com o encanador que não aparece, enfrentar o trânsito
da cidade, atrapalhar-se numa compra de supermercado
não raro voltam do açougue com a compra completamente
errada e tremer de pavor só de pensar em assalto.
Enquanto os maridos abraçam com força a oportunidade
profissional, elas acabam ficando com muito tempo ocioso.
Por isso, resolvem associar-se em comunidades para passar
melhor o tempo e se sentir um pouco mais em casa.
Fechados, eles seguem um roteiro próprio de lazer.
Na semana passada, um grupo de americanos que vive em São
Paulo comemorava a Páscoa antecipadamente. Tudo foi
programado pelas mulheres, que, com a ajuda dos filhos,
confeccionavam as orelhinhas de coelho e promoviam brincadeiras.
Lá estava a americana Débora Manke, há
dois anos no Brasil e com planos de voltar para os Estados
Unidos em julho. Ela e os três filhos vieram acompanhar
Eric, seu marido, que é diretor da Alcan, multinacional
fabricante de alumínio. Para se integrar mais facilmente,
ela teve aulas de português duas vezes por semana.
Como outros estrangeiros que estão no Brasil, Débora
já está acostumada a viver longe da família
e dos amigos. Muitos já fizeram escala anterior em
países da Ásia ou da América do Sul.
Eles não vivem sem internet para manter contato
com familiares e sem TV a cabo.
Ricardo Benichio
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| O mecânico Claudio Brentari,
dono da oficina especializada em atender estrangeiros
em São Paulo: quem vem de outro país procura
o serviço em inglês para não ser
enrolado com a "rebimboca da parafuseta"
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Agrupar-se em pequenos guetos funciona para eles como um
porto seguro. Nada contra os brasileiros. É que eles
estranham alguns tipos de comportamento muito freqüentes
por aqui. Se um americano convida um brasileiro para jantar
em sua casa e este não retribui o convite, isso soa
como ofensa pessoal. "No começo, os brasileiros convidam
os estrangeiros a visitá-los, fazem passeios, mas,
em geral, isso não dura muito tempo", diz Celina
Sampaio, brasileira que está à frente da American
Society, uma associação de americanos.
Não dá para imaginar a importância
dessas associações para os imigrantes. Elas
oferecem de tudo. Festas, missas, passeios e todo o tipo
de serviço para facilitar a vida de quem chega. Cada
família, por exemplo, recebe um catálogo com
uma vasta lista de profissionais bilíngües:
pediatras, dentistas, encanadores e mecânicos. O mecânico
paulista Claudio Brentari é um dos mais procurados
pelos estrangeiros. Não há "rebimboca da parafuseta"
que escape ao inglês dele. Em sua oficina, nada de
pôsteres de mulher pelada nas paredes. Ele espalha
revistas estrangeiras para que os clientes folheiem enquanto
esperam pelo serviço. "Boa parte de minha clientela
é formada por estrangeiros", diz Brentari.