Edição 1 646 -26/4/2000

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No Brasil, mas de passagem

Como os executivos estrangeiros e suas
famílias se adaptam à vida no país

Anna Paula Buchalla

 
Ricardo Benichio
Eric Manke, executivo da Alcan, empresa de alumínio, e sua família: planos de ficar dois anos no Brasil

O processo de abertura econômica do país produziu mudanças na vida dos brasileiros, mas mexeu também com a rotina de milhares de estrangeiros. Desde 1990, grupos cada vez maiores de executivos oriundos de outros países mudaram-se com a família para o Brasil para trabalhar. O processo se intensificou com as privatizações ocorridas no setor de telecomunicações, com a venda de bancos para grupos estrangeiros e com a chegada da nova safra de montadoras de automóveis. Hoje, existem colônias de franceses no Paraná, graças à Renault. Em São Paulo, muitos espanhóis chegaram na esteira da Telefônica. A Bahia recebeu uma recente onda de americanos por causa da transferência da Ford, "roubada" do Rio Grande do Sul. Das 500 maiores companhias transnacionais, mais de 400 estão instaladas no país. Como o Brasil ganhou espaço no mundo dos negócios, nada mais natural que essas empresas transfiram para o país alguns executivos da matriz. Para as companhias, essa transferência representa um reforço na filial. Para os executivos e a família, a mudança é um sacolejo completo na vida.

Calcula-se que, nos últimos dois anos, 28.000 estrangeiros se mudaram para o Brasil. Um levantamento feito pelo Ministério do Trabalho mostra que, em geral, eles permanecem no país por um período que varia entre um e três anos. A maioria chega sem saber uma palavra de português. De cada dez desses "trabalhadores", apenas um se expressa no idioma nacional. Por causa disso, muitas vezes sentem-se perdidos com as tradições e a cultura muito diferentes. Eles chegam com um projeto bem definido: ficar pouco tempo e voltar para a terra natal numa posição melhor dentro da empresa. As crianças estudam em escolas para estrangeiros, eles moram em condomínios fechados e muitos só saem de casa para o trabalho. O Brasil serve como degrau na escalada profissional dessas pessoas.

 
Joel Rocha
O Clube Internacional das Mulheres de Executivos, em Curitiba: uma
das várias associações que oferecem cursos e dão apoio aos estrangeiros que chegam desinformados sobre
o país

Os dois primeiros meses no Brasil são especialmente emocionantes. O primeiro é o da euforia. O país é quente, o salário (normalmente calculado em dólar) dá e sobra, eles têm à disposição carros, motorista, empregada (o sonho de consumo de dez entre dez estrangeiras) e, muitas vezes, nem pagam a escola dos filhos. O segundo mês é o do desespero. Eles se perguntam: como os brasileiros vivem dessa maneira? Como suportam trânsito, favelas, violência? No terceiro mês, conseguem estabelecer uma rotina. Quem mais sente os efeitos da mudança são as mulheres dos executivos. Cabe a elas tratar com o encanador que não aparece, enfrentar o trânsito da cidade, atrapalhar-se numa compra de supermercado – não raro voltam do açougue com a compra completamente errada – e tremer de pavor só de pensar em assalto. Enquanto os maridos abraçam com força a oportunidade profissional, elas acabam ficando com muito tempo ocioso. Por isso, resolvem associar-se em comunidades para passar melhor o tempo e se sentir um pouco mais em casa.

Fechados, eles seguem um roteiro próprio de lazer. Na semana passada, um grupo de americanos que vive em São Paulo comemorava a Páscoa antecipadamente. Tudo foi programado pelas mulheres, que, com a ajuda dos filhos, confeccionavam as orelhinhas de coelho e promoviam brincadeiras. Lá estava a americana Débora Manke, há dois anos no Brasil e com planos de voltar para os Estados Unidos em julho. Ela e os três filhos vieram acompanhar Eric, seu marido, que é diretor da Alcan, multinacional fabricante de alumínio. Para se integrar mais facilmente, ela teve aulas de português duas vezes por semana. Como outros estrangeiros que estão no Brasil, Débora já está acostumada a viver longe da família e dos amigos. Muitos já fizeram escala anterior em países da Ásia ou da América do Sul. Eles não vivem sem internet – para manter contato com familiares – e sem TV a cabo.

 
Ricardo Benichio
O mecânico Claudio Brentari, dono da oficina especializada em atender estrangeiros em São Paulo: quem vem de outro país procura o serviço em inglês para não ser enrolado com a "rebimboca da parafuseta"

Agrupar-se em pequenos guetos funciona para eles como um porto seguro. Nada contra os brasileiros. É que eles estranham alguns tipos de comportamento muito freqüentes por aqui. Se um americano convida um brasileiro para jantar em sua casa e este não retribui o convite, isso soa como ofensa pessoal. "No começo, os brasileiros convidam os estrangeiros a visitá-los, fazem passeios, mas, em geral, isso não dura muito tempo", diz Celina Sampaio, brasileira que está à frente da American Society, uma associação de americanos.

Não dá para imaginar a importância dessas associações para os imigrantes. Elas oferecem de tudo. Festas, missas, passeios e todo o tipo de serviço para facilitar a vida de quem chega. Cada família, por exemplo, recebe um catálogo com uma vasta lista de profissionais bilíngües: pediatras, dentistas, encanadores e mecânicos. O mecânico paulista Claudio Brentari é um dos mais procurados pelos estrangeiros. Não há "rebimboca da parafuseta" que escape ao inglês dele. Em sua oficina, nada de pôsteres de mulher pelada nas paredes. Ele espalha revistas estrangeiras para que os clientes folheiem enquanto esperam pelo serviço. "Boa parte de minha clientela é formada por estrangeiros", diz Brentari.