
Testosterona, com sua promessa de rejuvenescimento
e virilidade, vira moda entre os quarentões
Juliana De Mari e Eduardo Nunomura
Testosterona é uma palavra que evoca imagens bem
definidas: músculos, virilidade e masculinidade.
Em outras palavras, é coisa de macho. Não
é por outra razão que está se tornando
o aditivo da moda para os senhores de meia-idade, que sentem
que alguma coisa está começando a faltar com
o avanço da idade. Eles andam entusiasmadíssimos
com o "T" de testosterona, o hormônio masculino
por excelência. Até pouco tempo atrás
restrito às academias de halterofilismo em busca
de silhuetas à la Arnold Schwarzenegger, sob a forma
de bombas anabolizantes, o hormônio começa
a ganhar prestígio como panacéia para restabelecer
a vitalidade na cama e fora dela. Nos Estados Unidos, mais
de 4 milhões de homens cujo corpo não produz
a quantidade necessária da substância têm
a reposição hormonal como rotina. Só
se pode especular sobre quantos mais usam testosterona,
sem prescrição médica, em busca do
bem-estar físico e emocional. Esse número
deve se multiplicar a partir de julho, quando chega às
farmácias americanas o AndroGel, a versão
do hormônio sob a forma de gel. Pode ser o fim das
injeções, comprimidos e adesivos, nem sempre
cômodos e eficazes. Especialistas estimam que nos
próximos dois anos o mercado de remédios com
base no hormônio chegue a movimentar 2 bilhões
de dólares. Testosterona com aplicação
local, como se fosse uma loção de bronzeamento,
quem não quer?
Calcula-se que um em cada seis homens com mais de 60 anos
sofra com a queda nos níveis de testosterona. "Isso
é muito mais comum do que se imaginava", afirma o
endocrinologista Geraldo Medeiros, professor da Universidade
de São Paulo. Com a baixa, vem a depressão,
a fadiga crônica, a falta de energia, a lentidão
de raciocínio e a inapetência sexual. Para
esses senhores, os médicos são unânimes,
testosterona neles. O hormônio ajuda a desenvolver
a massa muscular e aumenta o apetite sexual. São
características ideais para duas preocupações
centrais do homem moderno: manter o corpo em forma e ser
um atleta sexual. O perigo está justamente aí:
as picadas, os comprimidos, adesivos e gel sendo consumidos
por quem não precisa. Os riscos a médio prazo
são maiores do que os benefícios. Doses extras
de T podem causar problemas no fígado e aumentam
a possibilidade de câncer na próstata. Entre
os efeitos possíveis está a diminuição
do tamanho dos testículos e o aumento das mamas nos
homens. Mulheres podem ter engrossamento irreversível
da voz. Somem-se aí calvície precoce e até
infertilidade.
Produzido nos testículos, o hormônio é
fundamental para o homem desde a vida intra-uterina. É
ele que define as características masculinas do bebê.
Por volta da sexta semana de gestação, estimulado
pela presença do cromossomo Y, o útero materno
libera a substância no organismo do feto. É
nesse momento que se formam o pênis e os testículos
do menino. Durante a infância, não há
produção do hormônio. É só
na puberdade que ele volta à ativa aliás,
com intensidade vulcânica. Entre 15 e 18 anos, a produção
de testosterona atinge seu pico, podendo chegar a 1.000
nanogramas por decilitro de plasma sanguíneo. O equivalente
a 1 bilionésimo de grama de hormônio por 0,1
litro de sangue uma substância poderosa em quantidades
tão ínfimas. O rapazinho ganha barba e pêlos,
a voz engrossa e o corpo franzino começa a exibir
músculos mais definidos. Graças à ação
da testosterona, o comportamento do adolescente também
muda. Ele se torna mais agressivo, ousado e com a libido
a todo o vapor. A mulher também necessita da testosterona,
mas a produz em níveis bem mais baixos nos ovários
e nas glândulas supra-renais. É uma quantidade
quase insignificante se comparada à masculina. Não
ultrapassa 80 nanogramas. Ainda assim, dizem os médicos,
parece ter a nobre função de regular a libido
feminina. Não é à toa que a mulherada
também anda alvoroçada com a T.
A produção masculina de testosterona começa
a minguar a partir dos 30 anos. Mas a queda é tênue
e muito lenta. A maioria dos homens jamais precisa de doses
suplementares. Essa necessidade só pode ser constatada
com exames médicos. Se o hormônio está
abaixo do normal, os médicos são unânimes
em recomendar a reposição. É a única
unanimidade nesse tema. Muitos clínicos defendem
a prescrição para pacientes com taxas normais
do hormônio, mas em níveis decrescentes. Homens
de meia-idade nessa situação conseguem resultados
surpreendentes nas primeiras semanas de tratamento. Quinze
dias são suficientes para melhorar a disposição
geral e recuperar o apetite sexual. "Esse tipo de prescrição
ainda merece mais estudos", acautela-se o endocrinologista
Alfredo Halpern. "É uma tendência, mas ainda
vai levar anos para se tornar comum."
Todo cuidado é pouco. Como qualquer outra droga,
a testosterona pode representar riscos quando má
utilizada. "É o caso de jovens que tomam altas doses
do hormônio sem prescrição médica
para ganhar músculos da noite para o dia", afirma
João Hamilton Romaldini, presidente da Sociedade
Brasileira de Endocrinologia e Metabologia. Em trinta dias,
conseguem resultados que à base de atividade física
e alimentação demorariam muitos meses. Mulheres
quarentonas que freqüentam academias de ginástica
também estão ávidas por sua dose extra.
Se a testosterona é hoje o hormônio mais amplamente
pesquisado e debatido, isso não decorre apenas de
suas aplicações na medicina. A maior controvérsia
é sobre a diferença de comportamento entre
homens e mulheres e até que ponto isso é determinado
biologicamente. Estudos relacionam características
de comportamento como confiança, competitividade,
tenacidade e espírito de liderança com a quantidade
do hormônio no homem e na mulher. Um deles afirma
que, em ambientes de trabalho, um homem que tiver mais testosterona
consegue impor-se aos demais. Outro mostra que mulheres
que trabalham fora têm níveis hormonais mais
elevados que os de donas-de-casa.
As pesquisas científicas estão longe de
ter chegado a uma conclusão sobre todas as implicações
sociais da testosterona. Na questão na qual se sabe
que esse hormônio tem importância fundamental
a atividade sexual há especulações
curiosas. Um pesquisador concluiu que os homens casados
têm níveis mais baixos de testosterona. A explicação
seria que a evolução encontrou essa forma
de manter o macho em casa cuidando da família. Nos
recém-divorciados, contudo, os níveis de T
sobem rapidamente, como se eles se preparassem para competir
por uma parceira. Numa reportagem sobre o assunto, a revista
Time apresentou uma questão instigante: os
velhos que rotineiramente aumentam seus níveis de
testosterona e, como conseqüência, o apetite
sexual não irão abalar os alicerces do arranjo
social chamado família? Perguntado pela publicação
americana sobre o que acontece quando os homens têm
níveis mais altos que o normal, o psicólogo
James Dabbs, da Universidade do Estado da Geórgia
e autor de um livro sobre a importância do hormônio
masculino, resumiu: "Eles ficam intratáveis"
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