Edição 1 646 -26/4/2000

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Macio e jeitoso

Técnicas modernas produzem um couro com
caimento de tecido, em cores fortes e variadas

Silvia Rogar

 
Fotos André Rolim

Xale molengo, a jaquetinha inevitável e saia com apliques: a tecnologia a serviço do conforto

A Itália produziu as máquinas, a Alemanha desenvolveu a química e a indústria da moda pôs agulhas à obra. Pronto – as roupas de couro ganharam cara nunca vista, deixando definitivamente para trás o visual reto e duro dos modelos clássicos. Aquele casaco que levava anos para amaciar sumiu. Em cores impensáveis, o couro nas roupas que estão chegando às vitrines de inverno é molinho e maleável, resultado de um tratamento com técnicas mais avançadas e de uma troca de matéria-prima que fez toda a diferença: o tradicional couro de vaca foi substituído por napa (a parte mais nobre do couro) de cabra e de ovelha. "Ficou tão suave que imaginava estar trabalhando com uma seda", exagera Reinaldo Lourenço, que para sua última coleção plissou, franziu e fez até babados com couro.


Top com desenho de losangos, calça como manda a moda e camisa bem talhada: bem em qualquer peça

Não se trata de coisa de passarela, aquelas ousadias que as mortais com mais de 45 quilos não têm coragem de usar. As lojas dos shoppings e os mercados de moda estão apinhados de casacos, saias, jaquetas e calças. Tem até blusas de tricô, feitas com tirinhas de couro trançadas. Ainda na linha das novidades, a grife carioca Mariazinha apostou num efeito envelhecido nos cotovelos e joelhos. A Zoomp inovou com losangos franzidinhos nos tops, que lembram um sofá de couro dos anos 50. "O toque e a espessura estão cada vez mais agradáveis", diz Alexandre Herchcovitch, criador das peças da grife. De fato, um curtume moderno, cheio de máquinas avançadas, pouco lembra os fétidos galpões de outrora. Cheiro ainda há, que o enxofre continua indispensável para a remoção dos pêlos. Mas os óleos e as graxas usados para curtir o couro são sintéticos, o que garante mais maciez e menos fedentina. As resinas dão brilho muito mais natural, os corantes resistem ao calor e ao suor e ambos agora são à base de água, que substituiu o solvente, evitando alergias. O processo inteiro é mecanizado e controlado por computadores, o que garante uniformidade de curtimento e de espessura às peças. Tudo isso, e mais o empurrão da onipresente Gucci (originalmente uma marca especializada em couro), que criou uma jaqueta curta imitadíssima, colocou o material em todas as vitrines.


Saia de prega e blusa de tricô com fios de couro: adaptação do visual Gucci

Grifes como Forum e Beneduci exploram o dourado, uma das sensações do inverno. A mineira Patachou criou peças de couro pela primeira vez em dezoito anos. O best-seller é uma jaquetinha toda pespontada, exatamente igual às feitas com jeans. As cores? Verde, azul-mar, roxa, vermelha. As saias ganharam bordados e, de tão molengo, até xale se faz de couro. Se já foi símbolo de rebeldia na figura de James Dean e companhia, o couro hoje marca uma moda sensual, no Brasil e fora dele. A maior procura, é claro, inflacionou o produto. No último ano, a cotação internacional do couro subiu cerca de 50%. Nas lojas, qualquer peça custa pelo menos o dobro de sua similar em tecido. Mesmo assim, o sucesso é tanto que os estilistas brasileiros já programam os arrojos da coleção de verão. Couro em janeiro? "Vestidos de alcinha, tops, rendas de couro. Tudo isso é permitido", afirma Amaury Veras, da grife especializada Frankie Amauri. Ele sabe o que diz. Em 1980, foi o responsável pela coleção de couro que a italiana Fiorucci lançou no Brasil. Na época, Amaury adaptou aos ares tropicais o aprendizado de sete anos num ateliê do balneário de Saint-Tropez, na França. Há vinte anos, ele era o único. Hoje, companhia não falta. "O couro é febre. E de 40 graus", arremata.

 

Vale tudo com o novo linho

Pele de cobra: a estampa disfarça o amarrotado

O linho, aquele pano leve e elegante que amassa até de olhar, anda irreconhecível. A base ainda é a mesma: uma trama macia e irregular feita exclusivamente com fios importados, trazidos da França e da Bélgica, únicos países onde a planta do linho é cultivada em escala industrial. Por fora, no entanto, vale tudo: dourado e prateado como uma roupa de astronauta, emborrachado, misturado ao levíssimo tencel nas camisas e shorts esportivos e, como não podia deixar de ser neste inverno dos bichos, com cara de couro e de pele de réptil. Os efeitos são, todos, resultados de novas técnicas de estamparia e tingimento. Com uma pasta de silicone, obtém-se a aparência de pele. Com resinas especiais, a aparência de couro e de material metalizado. "Amassar, ainda amassa, mas, com essas coberturas, não aparece tanto", garante Virginia Kusiak, diretora da Braspérola, maior fabricante nacional. Em maio, a empresa lançará o easy care finishing, um linho com cara de linho que, no entanto, tem a propriedade de desamarrotar sozinho. É usar, pendurar e, no dia seguinte, garante o fabricante, a peça de roupa está de novo pronta para o uso.