A solidão mata
As grandes árvores da Amazônia
não resistem
ao desmatamento próximo, revela estudo
Klester Cavalcanti
|
Inpa/Smithsonian

|
|
|
Robustas, altivas e imponentes, as árvores centenárias
da Amazônia, aquelas de troncos tão grossos
que dez pessoas não conseguem abraçar e de
até 50 metros de altura, são na verdade as
vítimas mais frágeis do maior vilão
atual da floresta: o desmatamento. Durante vinte anos, um
grupo de trinta pesquisadores observou as árvores
localizadas em áreas que os cientistas chamam de
fragmentos e outras em florestas contínuas. "São
nacos de floresta nativa que ficaram ilhados por áreas
desmatadas", explica o ecologista americano William Laurance,
coordenador do estudo, feito em parceria pelo Instituto
Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e a Smithsonian
Institution, dos Estados Unidos. A conclusão é
que a invasão do pasto sobre a selva é implacável
com as gigantes da floresta. Todas as árvores sofrem
quando se vêem cercadas por um descampado. Um grande
número de árvores à beira da floresta
morreu, mas a mortandade foi proporcionalmente mais alta
entre as de maior porte.
A taxa de mortalidade das árvores localizadas perto
do campo é duas vezes maior do que a das que ficam
no interior da floresta. Entre as grandes, três vezes
mais. Dos 64.000 exemplares acompanhados
pela pesquisa, mais de 10.000
vieram abaixo, dos quais 7.500
estavam em fragmentos. Para cada árvore centenária
que morre no meio da floresta fechada, três desmoronam
nas áreas atingidas pelos efeitos do desmatamento.
A agonia das gigantes da floresta começa imediatamente
após a derrubada. Os pesquisadores não sabem
exatamente o motivo de as maiores serem as mais prejudicadas,
mas têm algumas suspeitas. "Quando há um desmatamento
em volta, a força dos ventos incide mais intensamente
nas árvores mais altas, a temperatura aumenta e a
umidade do ar e do solo se reduz sensivelmente", afirma
a pesquisadora Patrícia Delamônica, do Inpa.
Por causa da altura, largura e inflexibilidade de seus troncos,
elas são especialmente suscetíveis ao vento.
Em conseqüência das imensas copas, estão
mais expostas aos raios solares e à evaporação,
o que as torna muito sensíveis ao ressecamento do
ambiente que ocorre quando há um desmatamento vizinho.
Fragilizadas por esses fatores, as grandes árvores
morrem e acabam por alterar drasticamente o cenário
da floresta. Ao tombar, uma árvore de grande porte
pode arrastar na queda até outras dez menores. Os
clarões aumentam o ressecamento do solo e, num efeito
dominó, novas árvores vão morrendo
e expandindo o estrago. Espécies de orquídeas
e bromélias, que só nascem nas copas das árvores
maiores, também desaparecem. Alguns insetos, aves,
macacos e outros mamíferos abandonam o local desfigurado.
Em menos de dez anos, a agressão causada pela agricultura,
pela pecuária e pela exploração madeireira
destrói uma paisagem que a natureza levou milhares
de anos para montar. "Os estudos nos levam a crer que a
perda da cobertura florestal, associada a sua fragmentação,
representa a maior ameaça à biodiversidade
mundial", afirma Laurance.
Saiba
mais |
|
|
|