Na própria pele
Exposição
mostra por que o homem usa tatuagem
Ana Santa Cruz
Ao desembarcar no Taiti, na Polinésia, em 1769,
o explorador inglês James Cook e sua tripulação
ficaram perplexos ao ver os habitantes do local usando no
lugar de roupas apenas desenhos feitos na própria
pele. Em seu diário de bordo, o comandante escreveu:
"Nativos de ambos os sexos injetam tinta preta na pele,
deixando traços permanentes. Todos exibem seus tattoos
com muito orgulho". Cook acabava de inventar a expressão
que correu mundo e deu origem, entre outras, à palavra
tatuagem em português. Tatu, no idioma de Taiti, significa
desenho no corpo. Passados mais de dois séculos,
corpos tatuados provocam reações como as de
Cook. Além de perplexidade, despertam admiração
e consternação. Afinal, o que pode levar alguém
a se submeter à dor e a derramar um pouco do próprio
sangue para gravar na pele desenhos dos quais jamais se
livrará? O Museu de História Natural, de Nova
York, tenta responder à pergunta com a exposição
Arte no Corpo: Marcas de Identidade. Por meio de
fotos contemporâneas e antigas, livros raros e filmes,
a exibição mostra os significados culturais
por trás da prática de ornamentação
do corpo humano. A mostra inclui pintura temporária,
a redefinição de órgãos por
meio de implantes, o uso de adereços e piercings,
roupas e acessórios e a tatuagem. São mais
de 600 objetos do mundo inteiro, datados de 3000 a.C. até
os dias de hoje.
Por revelar o método de ornamentação
mais invasivo, doloroso e exótico, os objetos referentes
ao piercing e à tatuagem são as vedetes da
exibição. "A tatuagem é uma forma de
comunicação não verbal que oferece
informação instantânea", diz a professora
Ana Matilde Pacheco Chaves, especialista em psicologia social
do Instituto de Psicologia da Universidade de São
Paulo. "Quando feita voluntariamente, é uma evidência
física da lealdade do indivíduo a um grupo."
Assim, é usada como sinal de identificação
de tribos, inclusive as urbanas. Não existe lutador
de jiu-jítsu que não tenha pelo menos uma.
Os mafiosos japoneses, os yakuzas, também têm
o corpo tatuado. É bastante comum o uso da tatuagem
por modismo – que ocorre hoje no Brasil –, como ornamento
erótico, para informar a preferência sexual
de quem as exibe e provocar a resposta de eventuais parceiros,
ou por casais interessados em celebrar amor eterno.
O tatuador paulistano Maurício Daugirdas, 21 anos
de experiência, conta que nesses casos aconselha pequenos
desenhos, mais fáceis de ser camuflados em caso de
arrependimento. Recentemente, foi procurado por um rapaz
que queria gravar no braço o nome da namorada, Carol.
Pouco depois, voltou ao estúdio de Daugirdas e lhe
pediu que apagasse o nome da amada. "Tive de fazer um desenho
tribal para disfarçar o nome", diz ele, que tem clientela
composta de pessoas de 18 a 70 anos. Seu preço para
fazer uma tatuagem pequena é de 60 reais. Entre as
pessoas que se tatuam, existem ainda as místicas
que acreditam que certos desenhos lhes conferem proteção
mágica. Outras usam a tatuagem como forma de protesto
ou de patriotismo, de amizade ou amor. Há quem queira
registrar eventos importantes – agradáveis ou não
–, a data da morte de alguém querido, a realização
de um sonho. Peregrinos de todas as crenças costumam
exibir no corpo lembranças de idas a cidades santas.
Com exceção das populações
negras, que para se embelezar produziam cicatrizes no corpo
e no rosto, a tatuagem tem sido praticada em todo o planeta.
"Não há nação que não
conheça esse fenômeno", escreveu Charles Darwin,
o pai da teoria evolucionista. Autores clássicos
referem-se ao uso de tatuagem entre os gregos, germanos
e bretões. Já os romanos tatuavam seus escravos
e os criminosos. Os nazistas repetiriam a prática
da tatuagem como castigo. Marcavam a pele dos judeus tanto
para controlá-los nos campos de concentração
como para ofender a crença judaica que proíbe
a tatuagem. Como os marinheiros da era pós-capitão
Cook, que se tatuavam como prova de suas andanças
pelo mundo e também como sinal de valentia, ainda
hoje existem pessoas que se tatuam para produzir temor nos
adversários. Maurício Daugirdas revela que
perdeu a conta das vezes em que deparou com valentões
que pediam tatuagens carregadas de mensagens ameaçadoras.
No estúdio, porém, diante de simples agulhas,
muitos tremeram. "Já vi homens de 2 metros de altura
que, suando frio de nervosismo, chegaram a desmaiar ao primeiro
sinal de sangue."
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