Edição 1 646 -26/4/2000

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Na própria pele

Exposição mostra por que o homem usa tatuagem

Ana Santa Cruz

Ao desembarcar no Taiti, na Polinésia, em 1769, o explorador inglês James Cook e sua tripulação ficaram perplexos ao ver os habitantes do local usando no lugar de roupas apenas desenhos feitos na própria pele. Em seu diário de bordo, o comandante escreveu: "Nativos de ambos os sexos injetam tinta preta na pele, deixando traços permanentes. Todos exibem seus tattoos com muito orgulho". Cook acabava de inventar a expressão que correu mundo e deu origem, entre outras, à palavra tatuagem em português. Tatu, no idioma de Taiti, significa desenho no corpo. Passados mais de dois séculos, corpos tatuados provocam reações como as de Cook. Além de perplexidade, despertam admiração e consternação. Afinal, o que pode levar alguém a se submeter à dor e a derramar um pouco do próprio sangue para gravar na pele desenhos dos quais jamais se livrará? O Museu de História Natural, de Nova York, tenta responder à pergunta com a exposição Arte no Corpo: Marcas de Identidade. Por meio de fotos contemporâneas e antigas, livros raros e filmes, a exibição mostra os significados culturais por trás da prática de ornamentação do corpo humano. A mostra inclui pintura temporária, a redefinição de órgãos por meio de implantes, o uso de adereços e piercings, roupas e acessórios e a tatuagem. São mais de 600 objetos do mundo inteiro, datados de 3000 a.C. até os dias de hoje.

Por revelar o método de ornamentação mais invasivo, doloroso e exótico, os objetos referentes ao piercing e à tatuagem são as vedetes da exibição. "A tatuagem é uma forma de comunicação não verbal que oferece informação instantânea", diz a professora Ana Matilde Pacheco Chaves, especialista em psicologia social do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. "Quando feita voluntariamente, é uma evidência física da lealdade do indivíduo a um grupo." Assim, é usada como sinal de identificação de tribos, inclusive as urbanas. Não existe lutador de jiu-jítsu que não tenha pelo menos uma. Os mafiosos japoneses, os yakuzas, também têm o corpo tatuado. É bastante comum o uso da tatuagem por modismo – que ocorre hoje no Brasil –, como ornamento erótico, para informar a preferência sexual de quem as exibe e provocar a resposta de eventuais parceiros, ou por casais interessados em celebrar amor eterno.

O tatuador paulistano Maurício Daugirdas, 21 anos de experiência, conta que nesses casos aconselha pequenos desenhos, mais fáceis de ser camuflados em caso de arrependimento. Recentemente, foi procurado por um rapaz que queria gravar no braço o nome da namorada, Carol. Pouco depois, voltou ao estúdio de Daugirdas e lhe pediu que apagasse o nome da amada. "Tive de fazer um desenho tribal para disfarçar o nome", diz ele, que tem clientela composta de pessoas de 18 a 70 anos. Seu preço para fazer uma tatuagem pequena é de 60 reais. Entre as pessoas que se tatuam, existem ainda as místicas que acreditam que certos desenhos lhes conferem proteção mágica. Outras usam a tatuagem como forma de protesto ou de patriotismo, de amizade ou amor. Há quem queira registrar eventos importantes – agradáveis ou não –, a data da morte de alguém querido, a realização de um sonho. Peregrinos de todas as crenças costumam exibir no corpo lembranças de idas a cidades santas.

Com exceção das populações negras, que para se embelezar produziam cicatrizes no corpo e no rosto, a tatuagem tem sido praticada em todo o planeta. "Não há nação que não conheça esse fenômeno", escreveu Charles Darwin, o pai da teoria evolucionista. Autores clássicos referem-se ao uso de tatuagem entre os gregos, germanos e bretões. Já os romanos tatuavam seus escravos e os criminosos. Os nazistas repetiriam a prática da tatuagem como castigo. Marcavam a pele dos judeus tanto para controlá-los nos campos de concentração como para ofender a crença judaica que proíbe a tatuagem. Como os marinheiros da era pós-capitão Cook, que se tatuavam como prova de suas andanças pelo mundo e também como sinal de valentia, ainda hoje existem pessoas que se tatuam para produzir temor nos adversários. Maurício Daugirdas revela que perdeu a conta das vezes em que deparou com valentões que pediam tatuagens carregadas de mensagens ameaçadoras. No estúdio, porém, diante de simples agulhas, muitos tremeram. "Já vi homens de 2 metros de altura que, suando frio de nervosismo, chegaram a desmaiar ao primeiro sinal de sangue."

 
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