Paradoxo faraônico
O Egito, que
censura livros, está construindo
uma biblioteca gigantesca. Por quê?
Erguida no século III a.C., a Biblioteca de Alexandria
era um dos orgulhos do antigo Egito. Seus 700.000
papiros abarcavam praticamente todo o conhecimento produzido
até então. Atraídos pelo seu acervo
e pela liberdade de estudos que vigorava na cidade sede
também de uma famosa escola filosófica ,
circularam por lá, em diferentes momentos, sábios
do porte de Euclides e Arquimedes. Treze séculos
depois de ter sido riscada do mapa, a biblioteca está
renascendo em meio a uma polêmica barulhenta. O governo
do Egito resolveu construir uma versão modernosa
do mítico edifício, que deve ser inaugurada
ainda neste ano, ao custo de 200 milhões de dólares.
Os defensores da construção acreditam que
ela se tornará um centro de referência capaz
de levar para o primeiro plano a cultura dos países
da região. Os detratores, por seu turno, acham que
a biblioteca é fruto da megalomania do governo egípcio.
O dinheiro gasto com ela, dizem, deveria ser usado em coisas
mais urgentes. A paisagem dos arredores dá razão
a quem torce o nariz para a idéia. A Alexandria atual,
com 3,3 milhões de habitantes, tem esgoto a céu
aberto, favelas monstruosas e poluição em
níveis alarmantes. Bem diferente dos tempos de seu
esplendor, quando abrigava a corte da rainha Cleópatra
e cintilava como o principal porto do Mediterrâneo.
Idealizada por arquitetos noruegueses, a nova biblioteca
lembra um disco voador. Apesar de o Egito ser um dos países
com maior incidência de luz solar, a construção
quase não tem janelas e suas salas se concentram
em boa parte no subsolo. As estantes foram projetadas para
receber 8 milhões de livros número respeitável,
sem dúvida, mas que não a coloca entre as
maiores do mundo. Só a Biblioteca do Congresso americano,
primeira do ranking, possui quase três vezes mais
volumes (veja quadro). Um dos
aspectos mais citados pelos críticos, no entanto,
nada tem a ver com dinheiro ou com arquitetura. O governo
que gasta milhões de dólares para construir
uma biblioteca é o mesmo que exerce uma censura feroz
a autores e livros. Nos últimos dois anos, por exemplo,
a Universidade Americana do Cairo foi obrigada a retirar
cerca de 100 títulos de suas salas de estudo. Entre
outros escritores proscritos, figura Vladimir Nabokov. É
triste saber que a Biblioteca de Alexandria renascerá
mutilada.
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