Edição 1 646 -26/4/2000

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Paradoxo faraônico

O Egito, que censura livros, está construindo
uma biblioteca gigantesca. Por quê?

Erguida no século III a.C., a Biblioteca de Alexandria era um dos orgulhos do antigo Egito. Seus 700.000 papiros abarcavam praticamente todo o conhecimento produzido até então. Atraídos pelo seu acervo e pela liberdade de estudos que vigorava na cidade – sede também de uma famosa escola filosófica –, circularam por lá, em diferentes momentos, sábios do porte de Euclides e Arquimedes. Treze séculos depois de ter sido riscada do mapa, a biblioteca está renascendo em meio a uma polêmica barulhenta. O governo do Egito resolveu construir uma versão modernosa do mítico edifício, que deve ser inaugurada ainda neste ano, ao custo de 200 milhões de dólares. Os defensores da construção acreditam que ela se tornará um centro de referência capaz de levar para o primeiro plano a cultura dos países da região. Os detratores, por seu turno, acham que a biblioteca é fruto da megalomania do governo egípcio. O dinheiro gasto com ela, dizem, deveria ser usado em coisas mais urgentes. A paisagem dos arredores dá razão a quem torce o nariz para a idéia. A Alexandria atual, com 3,3 milhões de habitantes, tem esgoto a céu aberto, favelas monstruosas e poluição em níveis alarmantes. Bem diferente dos tempos de seu esplendor, quando abrigava a corte da rainha Cleópatra e cintilava como o principal porto do Mediterrâneo.

Idealizada por arquitetos noruegueses, a nova biblioteca lembra um disco voador. Apesar de o Egito ser um dos países com maior incidência de luz solar, a construção quase não tem janelas e suas salas se concentram em boa parte no subsolo. As estantes foram projetadas para receber 8 milhões de livros – número respeitável, sem dúvida, mas que não a coloca entre as maiores do mundo. Só a Biblioteca do Congresso americano, primeira do ranking, possui quase três vezes mais volumes (veja quadro). Um dos aspectos mais citados pelos críticos, no entanto, nada tem a ver com dinheiro ou com arquitetura. O governo que gasta milhões de dólares para construir uma biblioteca é o mesmo que exerce uma censura feroz a autores e livros. Nos últimos dois anos, por exemplo, a Universidade Americana do Cairo foi obrigada a retirar cerca de 100 títulos de suas salas de estudo. Entre outros escritores proscritos, figura Vladimir Nabokov. É triste saber que a Biblioteca de Alexandria renascerá mutilada.

 
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