Paisagem européia
Construções
de imigrantes
alemães no Estado
de Santa Catarina entram no rol dos imóveis a ser
tombados como patrimônio histórico do Brasil
Rachel
Verano
Fotos Tarcisio Mattos/Tempo
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| Casa da família
Duwe,
em Indaial: em
estilo enxaimel |
A impressão
que se tem ao andar por algumas cidades do interior de Santa
Catarina é de não estar no Brasil. O que se
vê é uma paisagem completamente diferente da
do resto do país, com ares da Europa Central, recheada
da tradição dos imigrantes que vieram daquela
região a partir do século XIX e ali se estabeleceram.
Das festas típicas à culinária, ao
idioma ainda comumente falado e à arquitetura, tudo
remonta a uma Europa distante da Península Ibérica,
em especial à Alemanha. Para se ter uma idéia
da intensidade da herança cultural da imigração,
Santa Catarina é considerada a região mais
representativa da arquitetura germânica fora da Europa.
Grande parte dos 200.000 imigrantes alemães que vieram
para o Brasil até o fim da II Guerra se fixou no
Estado, formando verdadeiras ilhas culturais. Eram sobretudo
agricultores que se aventuravam com os familiares durante
dois ou três meses em navios abarrotados e viam na
emigração oportunidades de trabalho e terras
em abundância para cultivar. O maior e mais importante
levantamento da imigração alemã acaba
de ser concluído pelo Instituto do Patrimônio
Histórico e Artístico Nacional (Iphan), vinculado
ao Ministério da Cultura. O que se encontrou é
um conjunto arquitetônico belíssimo, centenário,
sem similar em outras partes.
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Decoração
de um celeiro
em Pomerode:
transformado
em pousada
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Nos últimos
dez anos, uma equipe de mais de cinqüenta profissionais
elaborou, após pesquisas, o inventário de
1.000 imóveis, a maioria na zona rural, em cerca
de trinta municípios de Santa Catarina e descobriu
ali um verdadeiro patrimônio vivo, pouco conhecido
do resto do país. Da cultura à expressividade
plástica e às soluções construtivas,
além de uma aula de história, tem-se verdadeiras
lições de arquitetura. O resultado foi o pedido
de tombamento pelo Patrimônio Histórico Nacional
de cinqüenta desses imóveis pesquisados, entre
residências, igrejas e estabelecimentos comerciais,
todos com mais de 100 anos, já em fase de conclusão.
"O que encontramos foi uma concepção arquitetônica
totalmente diferente da que normalmente se vê no resto
do Brasil", diz o arquiteto Dalmo Vieira Filho, superintendente
do Iphan de Santa Catarina e coordenador do projeto.
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| Casa em São Bento do Sul:
tijolos à vista, inovação que veio
com os alemães |
Cravadas geralmente
perto de rios, em regiões de matas preservadas e
campos de pastagens, as construções caracterizadas
por tijolos à vista revelam particularidades curiosas.
A começar pelo próprio tijolo aparente, raridade
no Brasil do final do século XIX. O material utilizado
na construção era fabricado artesanalmente
pelos próprios imigrantes das toras de madeira
que formavam a base das casas aos tijolos e telhas de cerâmica.
Pouco se usava de material industrializado. Pregos, por
exemplo, só nas esquadrias e ripas do telhado. Eram
também os colonos que construíam suas casas,
em regime de mutirão. O resultado disso foi que a
tradição européia acabou transplantada
fielmente para o país. O estilo enxaimel, que mistura
madeira e tijolos aparentes sob telhados de grandes inclinações
e telhas retas, está presente na maioria das casas.
Nesses imóveis, as vigas de madeira têm papel
fundamental. São elas que garantem sustentação
à casa. As paredes de tijolos não têm
nenhuma função estrutural, servem apenas para
vedar. Mas o mais inusitado é que essas casas não
estão fixadas no solo. Elas ficam totalmente suspensas,
calçadas apenas sobre pedras e tijolos. Dessa maneira,
são normalmente transportadas de um lugar para outro,
acompanhando eventuais mudanças da família.
Para tornar transportável uma casa construída
no sistema enxaimel, retiravam-se os tijolos, conservando-se
apenas a estrutura de madeira.
Outro aspecto que impressiona
é a riqueza de detalhes revelada por esses imóveis.
Determinados elementos são especialmente trabalhados.
As portas e janelas, principais componentes da fachada,
são alguns deles. Além de desenhos em relevo
e apliques, comumente recebem a aplicação
de cores. As paredes externas também mostram essa
preocupação com a estética. Os tijolos
aparecem formando as mais diversas combinações
de tons e formatos, revelando desenhos que mais parecem
entalhes. No interior das casas não é diferente.
Desenhos coloridos pintados a mão, com a técnica
de estêncil (em que se usam pequenos moldes vazados),
costumam enfeitar faixas inteiras nas paredes. "Cada casa
tem um toque pessoal", diz o arquiteto Dalmo Vieira. "Isso
revela uma espécie de arte popular da imigração
alemã."
Adaptações
O clima brasileiro, mais quente que o europeu, provocou
algumas alterações de hábito que se
refletiram no modo de construir do imigrante. Por causa
do rigor do inverno europeu, era comum aos camponeses levar
os animais para dentro de casa por animais entenda-se
bois, porcos e aves. Essa tradição foi abolida
no Brasil. O módulo residencial comum na Europa,
caracterizado por um único bloco, geralmente dividido
em quarto, sala e cozinha, sofreu adaptações
e ganhou cômodos adjacentes. A cozinha, espinha dorsal
das casas alemãs, ocupava uma posição
central, com a função de gerar calor e esquentar
todo o imóvel. Era ali a área social da casa,
onde se recebiam as visitas e se faziam as refeições.
No Brasil, ela deixou de ser o aposento principal e passou
a ter papel secundário, deslocando-se para a lateral
e os fundos da casa, muitas vezes se separando do imóvel.
A frente das casas ganhou uma área extra bastante
utilizada, as varandas. Por outro lado, é possível
identificar nas construções de outras regiões
catarinenses traços da influência alemã.
É comum encontrar até mesmo no litoral, área
povoada originalmente por imigrantes açorianos, casas
com estrutura essencialmente de madeira, suspensas do solo,
e sótãos, cômodos tão comuns
na Europa Central.
Internamente, muitas
casas permanecem como verdadeiros museus vivos. Encontram-se
mobiliário, trajes e utensílios tipicamente
alemães. São detalhes que se revelam nas pequenas
coisas, como nos cobertores de pena de ganso, tão
usados na Europa, ou nas fechaduras e placas penduradas
nas portas, com inscrições em alemão.
Os moradores mais velhos constituem outra fonte preciosa
de informações para os pesquisadores. Falam
entre eles dialetos e conservam hábitos que algumas
vezes remontam à época da colonização,
já esquecidos na Europa. Essa cultura que permaneceu
fechada durante tantas décadas começa agora
a se abrir para o resto do país. Junto com o levantamento
arquitetônico realizado pelo Iphan está sendo
elaborado um projeto de conservação dos imóveis,
a um custo de 3 milhões de dólares. E será
lançado um roteiro turístico pela Trilha dos
Imigrantes, como ficou conhecida a região onde estão
concentrados no Estado, ao longo de um percurso de aproximadamente
200 quilômetros de extensão. Alguns lugares
estão se adaptando para receber turistas. Nas margens
das estradas, muitas ainda de terra, começam a aparecer
pequenas lojas de produtos típicos das colônias
alemãs, nas quais é possível encontrar
queijos, pães e doces fabricados artesanalmente.
A vedete é o famoso strudel, torta de massa folhada
recheada de maçã ou banana. Em Pomerode, por
exemplo, uma pequena cidade de pouco mais de 20.000 habitantes,
a 190 quilômetros de Florianópolis, uma propriedade
rural acaba de transformar o celeiro em pousada e já
começa a receber visitantes.
A riqueza está nos
detalhes
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Cores
Elemento externo mais importante,
a porta é bastante trabalhada e, com
freqüência, recebe cores
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Suspensa
Os europeus trouxeram a técnica
de fazer casas apoiadas sobre pedras e tijolos
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Enxaimel
O estilo, característico
da Europa Central, está na maioria
das casas: mistura de madeira e tijolos à
vista
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Fechadura
Alguns elementos da decoração
são tão antigos quanto as casas.
Nesta, a fechadura de ferro foi conservada
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Mosaico
A preocupação
com a estética se revela na fachada:
tijolos de cores diferentes compõem
um mosaico
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