Mercenários olímpicos
Por dinheiro, atletas de países
pobres
vão competir sob outra bandeira
AP
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| Khannouchi, de Marrocos
para os Estados Unidos: à espera
da naturalização
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Além da glória olímpica, eles querem
também um padrão de vida melhor e mais dinheiro
no bolso. Ou, em alguns casos, simplesmente uma oportunidade
de competir. À medida que se aproximam as Olimpíadas,
aumenta o movimento de atletas querendo mudar de nacionalidade.
A maioria deles vai de um país pobre para um rico,
mas tem também gente fugindo da crise e da guerra,
ou tentando a sorte grande. Virar a casaca não chega
a ser uma novidade no mundo esportivo, mas a quantidade
de gente que está mudando de time é impressionante.
Só a Federação Internacional de Atletismo
registrou quarenta pedidos de mudança de nacionalidade
nos últimos dez meses. E ela só registra os
mutantes famosos. Quem perde com as deserções
não se conforma. "Numa guerra, essa gente é
chamada de mercenária. Estamos vendo atletas competindo
para países dos quais eles simplesmente não
conseguem falar a língua", diz Aziz Daouda, o chefe
dos treinadores de atletismo de Marrocos.
A indignação de Daouda tem nome próprio.
Chama-se Khalid Khannouchi. Correndo em Chicago, no ano
passado, Khannouchi bateu o recorde mundial da maratona,
então em poder do brasileiro Ronaldo da Costa. Em
1993, o marroquino chegou a Nova York para participar de
uma competição e por lá ficou. Casou-se
com Sandra Natal, nascida na República Dominicana
mas naturalizada americana, e logo entrou com um pedido
para também obter a cidadania dos Estados Unidos.
Pelos trâmites normais, o pedido do atleta só
poderia ser atendido em 2001. É bem provável
que Khannouchi se torne cidadão dos Estados Unidos
já na semana que vem, a tempo de participar das Olimpíadas
de Sydney, em setembro. Para os Estados Unidos, seria um
presentaço. Além de garantir mais uma medalha
para seu novo país, Khannouchi seria o primeiro maratonista
de destaque a defender a bandeira americana nos últimos
vinte anos. Para Khannouchi, que certamente multiplicará
seus ganhos com o novo passaporte, não tem mais caminho
de volta. "Em relação às Olimpíadas,
só vejo duas possibilidades: ou corro pelos Estados
Unidos, ou não corro. Por Marrocos, nunca mais."
No caso de Khannouchi não existem sinais visíveis
de que ele tenha recebido dinheiro para mudar de camisa.
As transferências hoje são feitas com o cuidado
de não deixar transparecer que são movidas
a dinheiro. No passado, a força do vil metal era
sentida de forma mais explícita. Por 1 milhão
de dólares, o levantador de peso búlgaro Naim
Shalamanov transformou-se no turco Naim Suleymanoglu. Naim
vale o que foi pago. Primeiro homem a levantar três
vezes o próprio peso, no ano passado foi incluído
na lista dos 25 maiores atletas do século, ao lado
de lendas como Pelé, Muhammad Ali e Michael Jordan.
Aposentou-se depois de ganhar sua terceira medalha de ouro
em Atlanta, mas arrependeu-se e está de novo treinando
para tentar mais uma vitória em Sydney, sempre vestindo
a camisa da Turquia. Outro caso de troca de bandeira por
dinheiro foi o do nadador Martín López-Zubero,
da Espanha. Nascido e criado nos Estados Unidos, López-Zubero
encontrou-se diante de um dilema às vésperas
das Olimpíadas de Barcelona, em 1992. Estados Unidos,
sua pátria de criação, ou Espanha,
a terra de seus ancestrais? Cem mil dólares depositados
em sua conta bancária dirimiram a dúvida.
Embora mal conseguisse pronunciar uma palavra em espanhol,
López-Zubero competiu e ganhou a primeira medalha
de ouro em natação para a Espanha.
O casamento, que pode ajudar a apressar a naturalização
de Khannouchi, é um poderoso argumento para que as
mulheres mudem a geografia de sua vida. Duas das principais
adversárias da brasileira Maurren Maggi no salto
em distância em Sydney são transnacionais.
A cubana Niurka Montalvo casou-se com um espanhol em 1998
e desde então compete pela Espanha. Como cubana,
ela ganhou a medalha de prata no Campeonato Mundial de Atletismo
em 1995. Como espanhola, conquistou o ouro quatro anos depois.
Todos os seus recordes foram cassados em Cuba, única
maneira de revidar à deserção. Fiona
May mudou da Inglaterra para a Itália também
arrastada pela aliança no dedo anular da mão
esquerda. Até os 24 anos, ela competiu pela Inglaterra.
Em 1993, transferiu-se para a Itália para se casar
com o atleta Gianni Lapichino, também ele um italiano
nascido no estrangeiro, nos Estados Unidos.
Tráfico A Turquia, uma potência
olímpica no levantamento de peso, pode surpreender
em Sydney com bons resultados nas corridas de longa distância.
Sibel Ozyurt, Nuray Surekli e Elvan Can, apesar dos nomes
genuinamente turcos, nasceram na Etiópia e, antes
de despontar no esporte, foram levadas para a Turquia. Hoje
elas integram a equipe olímpica turca. "Como essas
atletas, 75% dos membros da equipe de atletismo da Turquia
nasceram no exterior", diz Peter Matthews, da Federação
Internacional de Estatísticas do Esporte. É
bastante provável que as famílias desses atletas
e os dirigentes esportivos dos países de onde eles
saíram tenham recebido alguma compensação.
Não existem, porém, provas dessas transações.
Mais suspeitas ainda são as transferências
de atletas da antiga União Soviética. Uma
rota bastante transitada nesse tráfico é a
da Rússia para a Austrália.
Apesar das suspeitas de tráfico, parece natural
que atletas de países pobres ou mergulhados em guerra,
como boa parte da África, queiram subir para o Norte
mais desenvolvido, onde vão encontrar melhores condições
para viver e competir. Esse é o caso da heptatleta
Eunice Barber, que trocou Serra Leoa pela França.
Para tirá-la de casa não foi preciso oferecer
muito. Bastava a possibilidade de competir, coisa praticamente
impossível em sua pátria conturbada. O que
se observa na geografia do esporte é uma distribuição
desigual de aptidões e oportunidades. A África
é hoje um dos mais produtivos celeiros de talentos
do atletismo mundial. O difícil é um atleta
que possa crescer e fazer carreira em casa. A legião
de corredores quenianos, insuperáveis nas corridas
de longa distância, não trocou de nacionalidade,
mas mudou de endereço. Embora continue vestindo a
camiseta do Quênia, a maioria deles vive na Europa
ou nos Estados Unidos. Da residência no exterior à
naturalização, a distância não
é muito grande. Wilson Kipketer, o recordista mundial
dos 800 metros, mudou-se para a Dinamarca em 1990, com o
propósito de estudar engenharia. Antes de se formar,
casou-se com uma dinamarquesa e rompeu relações
esportivas com seu país. Como o processo de naturalização
demorou, aconteceu com ele o que pode ocorrer agora com
o marroquino Khannouchi nos Estados Unidos: sem pátria,
foi impedido de disputar as últimas Olimpíadas.