Edição 1 646 -26/4/2000

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Mercenários olímpicos

Por dinheiro, atletas de países pobres
vão competir sob outra bandeira

 
AP
Khannouchi, de Marrocos para os Estados Unidos: à espera da naturalização

Além da glória olímpica, eles querem também um padrão de vida melhor e mais dinheiro no bolso. Ou, em alguns casos, simplesmente uma oportunidade de competir. À medida que se aproximam as Olimpíadas, aumenta o movimento de atletas querendo mudar de nacionalidade. A maioria deles vai de um país pobre para um rico, mas tem também gente fugindo da crise e da guerra, ou tentando a sorte grande. Virar a casaca não chega a ser uma novidade no mundo esportivo, mas a quantidade de gente que está mudando de time é impressionante. Só a Federação Internacional de Atletismo registrou quarenta pedidos de mudança de nacionalidade nos últimos dez meses. E ela só registra os mutantes famosos. Quem perde com as deserções não se conforma. "Numa guerra, essa gente é chamada de mercenária. Estamos vendo atletas competindo para países dos quais eles simplesmente não conseguem falar a língua", diz Aziz Daouda, o chefe dos treinadores de atletismo de Marrocos.

A indignação de Daouda tem nome próprio. Chama-se Khalid Khannouchi. Correndo em Chicago, no ano passado, Khannouchi bateu o recorde mundial da maratona, então em poder do brasileiro Ronaldo da Costa. Em 1993, o marroquino chegou a Nova York para participar de uma competição e por lá ficou. Casou-se com Sandra Natal, nascida na República Dominicana mas naturalizada americana, e logo entrou com um pedido para também obter a cidadania dos Estados Unidos. Pelos trâmites normais, o pedido do atleta só poderia ser atendido em 2001. É bem provável que Khannouchi se torne cidadão dos Estados Unidos já na semana que vem, a tempo de participar das Olimpíadas de Sydney, em setembro. Para os Estados Unidos, seria um presentaço. Além de garantir mais uma medalha para seu novo país, Khannouchi seria o primeiro maratonista de destaque a defender a bandeira americana nos últimos vinte anos. Para Khannouchi, que certamente multiplicará seus ganhos com o novo passaporte, não tem mais caminho de volta. "Em relação às Olimpíadas, só vejo duas possibilidades: ou corro pelos Estados Unidos, ou não corro. Por Marrocos, nunca mais."

No caso de Khannouchi não existem sinais visíveis de que ele tenha recebido dinheiro para mudar de camisa. As transferências hoje são feitas com o cuidado de não deixar transparecer que são movidas a dinheiro. No passado, a força do vil metal era sentida de forma mais explícita. Por 1 milhão de dólares, o levantador de peso búlgaro Naim Shalamanov transformou-se no turco Naim Suleymanoglu. Naim vale o que foi pago. Primeiro homem a levantar três vezes o próprio peso, no ano passado foi incluído na lista dos 25 maiores atletas do século, ao lado de lendas como Pelé, Muhammad Ali e Michael Jordan. Aposentou-se depois de ganhar sua terceira medalha de ouro em Atlanta, mas arrependeu-se e está de novo treinando para tentar mais uma vitória em Sydney, sempre vestindo a camisa da Turquia. Outro caso de troca de bandeira por dinheiro foi o do nadador Martín López-Zubero, da Espanha. Nascido e criado nos Estados Unidos, López-Zubero encontrou-se diante de um dilema às vésperas das Olimpíadas de Barcelona, em 1992. Estados Unidos, sua pátria de criação, ou Espanha, a terra de seus ancestrais? Cem mil dólares depositados em sua conta bancária dirimiram a dúvida. Embora mal conseguisse pronunciar uma palavra em espanhol, López-Zubero competiu e ganhou a primeira medalha de ouro em natação para a Espanha.

O casamento, que pode ajudar a apressar a naturalização de Khannouchi, é um poderoso argumento para que as mulheres mudem a geografia de sua vida. Duas das principais adversárias da brasileira Maurren Maggi no salto em distância em Sydney são transnacionais. A cubana Niurka Montalvo casou-se com um espanhol em 1998 e desde então compete pela Espanha. Como cubana, ela ganhou a medalha de prata no Campeonato Mundial de Atletismo em 1995. Como espanhola, conquistou o ouro quatro anos depois. Todos os seus recordes foram cassados em Cuba, única maneira de revidar à deserção. Fiona May mudou da Inglaterra para a Itália também arrastada pela aliança no dedo anular da mão esquerda. Até os 24 anos, ela competiu pela Inglaterra. Em 1993, transferiu-se para a Itália para se casar com o atleta Gianni Lapichino, também ele um italiano nascido no estrangeiro, nos Estados Unidos.

Tráfico – A Turquia, uma potência olímpica no levantamento de peso, pode surpreender em Sydney com bons resultados nas corridas de longa distância. Sibel Ozyurt, Nuray Surekli e Elvan Can, apesar dos nomes genuinamente turcos, nasceram na Etiópia e, antes de despontar no esporte, foram levadas para a Turquia. Hoje elas integram a equipe olímpica turca. "Como essas atletas, 75% dos membros da equipe de atletismo da Turquia nasceram no exterior", diz Peter Matthews, da Federação Internacional de Estatísticas do Esporte. É bastante provável que as famílias desses atletas e os dirigentes esportivos dos países de onde eles saíram tenham recebido alguma compensação. Não existem, porém, provas dessas transações. Mais suspeitas ainda são as transferências de atletas da antiga União Soviética. Uma rota bastante transitada nesse tráfico é a da Rússia para a Austrália.

Apesar das suspeitas de tráfico, parece natural que atletas de países pobres ou mergulhados em guerra, como boa parte da África, queiram subir para o Norte mais desenvolvido, onde vão encontrar melhores condições para viver e competir. Esse é o caso da heptatleta Eunice Barber, que trocou Serra Leoa pela França. Para tirá-la de casa não foi preciso oferecer muito. Bastava a possibilidade de competir, coisa praticamente impossível em sua pátria conturbada. O que se observa na geografia do esporte é uma distribuição desigual de aptidões e oportunidades. A África é hoje um dos mais produtivos celeiros de talentos do atletismo mundial. O difícil é um atleta que possa crescer e fazer carreira em casa. A legião de corredores quenianos, insuperáveis nas corridas de longa distância, não trocou de nacionalidade, mas mudou de endereço. Embora continue vestindo a camiseta do Quênia, a maioria deles vive na Europa ou nos Estados Unidos. Da residência no exterior à naturalização, a distância não é muito grande. Wilson Kipketer, o recordista mundial dos 800 metros, mudou-se para a Dinamarca em 1990, com o propósito de estudar engenharia. Antes de se formar, casou-se com uma dinamarquesa e rompeu relações esportivas com seu país. Como o processo de naturalização demorou, aconteceu com ele o que pode ocorrer agora com o marroquino Khannouchi nos Estados Unidos: sem pátria, foi impedido de disputar as últimas Olimpíadas.