Paixão turbinada
Amantes do Porsche se encontram em
Interlagos para correr com seus carrões
Eliana Simonetti
Fotos Rogério Voltan
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| Karmann-Ghia com mecânica
Porsche, de 1966: o primeiro carro de Emerson Fittipaldi
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Rolim Amaro, o dono da TAM, é piloto
de avião. Adora motocicletas e tem um Porsche. Paulo
Maluf, que já foi prefeito e governador de São
Paulo, tem duas paixões além da política:
os vinhos das melhores cepas que coleciona em sua adega
e os carros que tem na garagem. Entre eles, um Porsche.
Alcides Tápias, o ministro do Desenvolvimento, é
um homem discretíssimo. Sua família ainda
mora no bairro do Tatuapé, Zona Leste de São
Paulo, onde ele nasceu. Chorou quando saiu do Bradesco,
onde trabalhou por quarenta anos. Tápias é
conservador. E tem um Porsche. A lista dos proprietários
dos 800 carros esportivos da marca alemã que existem
no Brasil é uma mostra do imenso poder de atração
desse automóvel. Além de políticos
e empresários, tem publicitários, como Mauro
Salles, atletas, como o jogador de futebol Romário,
novos-ricos, como a carioca Vera Loyola, dona de uma rede
de padarias, e famílias milionárias há
gerações, como os industriais Ermírio
de Moraes e os banqueiros Moreira Salles. São tipos
muito diferentes, que não convivem no dia-a-dia,
mas se reúnem em torno de um clube de amantes do
Porsche.
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| Os Porsches dos brasileiros:
800 carros antigos e modernos |
Na semana passada, a turma se encontrou no Autódromo
de Interlagos, em São Paulo. Foi uma farra. Dez pilotos
profissionais ensinaram os felizes proprietários
de Porsches, antigos e modernos, a aproveitar o máximo
de suas máquinas maravilhosas numa pista de corrida.
Teve carro que precisou voltar guinchado, com o motor fundido.
Houve também quem rodasse na pista. Mas até
esses adoraram a experiência. "É uma emoção
poder correr a 290 quilômetros por hora, como um corredor
profissional", diz Antonio Hermann Dias Menezes de Azevedo,
consultor de empresas em São Paulo que é o
presidente do clube brasileiro de porschistas.
Entre os aficionados do automobilismo, há os amantes
da Ferrari. Outros adoram o estilo do Jaguar. Mas o Porsche
é uma unanimidade. O carro, cujo estilo pouco mudou
em seus 52 anos de vida, é recordista de prêmios
na corrida de Le Mans. Dizem os entendidos que sua mecânica
só não é mais impecável que
a do Rolls-Royce. Dificilmente dá oficina. No Brasil
existem Porsche de 1957 em plena forma. E já
há uma lista de encomendas para o modelo 2001, que
chega ao país em julho do ano que vem. O preço
de um carro desses varia de 200.000
a 250.000 dólares. Novo.
Os antigos, em bom estado de conservação,
podem custar até 1 milhão de dólares.
Para repor um único pneu é preciso desembolsar
1.000 reais. Não é
coisa para qualquer bolso. "Andar com um Porsche em ruas
esburacadas como as de São Paulo é um crime
contra o carro e contra a conta bancária", diz Aleksandar
Mandic, um filho de sérvios que ficou milionário
montando um dos primeiros provedores de internet no Brasil,
que levava seu sobrenome, e hoje é vice-presidente
do portal iG.
A história do Porsche começa em 1900, quando
o engenheiro Ferdinand Porsche montou seu primeiro carro
elétrico uma versão sofisticada da
carruagem puxada a cavalos. Ferdinand foi um dínamo.
Em 1931 ergueu sua fábrica. Dois anos depois, a pedido
do governo nazista de Hitler, que queria ter em seu país
um carro popular, desenhou o Fusca. E em 1948, usando partes
do Fusca, construiu o primeiro carro esporte do mundo, o
Porsche 356, de capota conversível. O carro ganhou
seu primeiro prêmio nas 24 horas de Le Mans em 1951,
e daí não parou mais. O primeiro carro em
que o brasileiro Emerson Fittipaldi correu e que acaba de
ser restaurado foi um Karmann-Ghia com carroceria de fibra
de vidro e mecânica Porsche.

Antonio Hermann (acima) e Aleksandar
Mandic: forçando o motor na pista de corrida
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A Porsche desenvolveu o motor de 6 cilindros com refrigeração
a ar, os motores turbo, o câmbio sincronizado e o
cinto de segurança de três pontas. Ao todo,
a marca tem 3.000 patentes de
invenções utilizadas hoje no mundo inteiro.
O 2001, último filhote da família Porsche,
é o primeiro na indústria automobilística
equipado com freio de cerâmica, que funciona mais
frio que o de carbono e o de aço, freia mais rápido
e tem maior durabilidade. Isso para falar um pouco da qualidade
técnica da marca. Do ponto de vista do acabamento,
o retrato é o seguinte. O Porsche é, acredite,
um carro simples. Não tem luzes, ponteiros e penduricalhos
enfeitando o painel. Sua parte interna é toda em
couro (bancos e volante costurados a mão). A ignição
fica do lado esquerdo. No painel, só três instrumentos
emoldurados com aros de alumínio. No centro, um grande
conta-giros. Com ou sem capota, os modelos mais modernos
voam rente ao chão. Atingem a velocidade de 100 quilômetros
horários em cerca de cinco segundos. E são
ultraconfortáveis para duas pessoas.
Os alemães são tradicionais fabricantes
de carro. São os pais dos Mercedes, dos BMW, dos
Audi e dos Volkswagen. Na categoria esportiva, eles são
hoje os donos da única marca independente no planeta.
Ferrari e Alfa foram compradas pela Fiat. Lamborghini e
Bugatti ficaram com a Volkswagen. O britânico Jaguar
hoje é da americana Ford. A Porsche não andou
muito bem nos anos 80. Mas então a família
se afastou da administração da empresa, contratou
profissionais vindos da BMW, adotou uma linha mais eficiente
de produção e hoje é uma das montadoras
mais rentáveis da Europa. Os 116 clubes de porschistas
do mundo congregam mais de 100.000
apaixonados pela marca. A próxima aventura dos brasileiros
será um rali fotográfico na Suíça.
Uma brincadeira com jeito de gincana programada para casais
que queiram curtir o carrão e a paisagem, em dez
dias de passeio. Os interessados bancam suas despesas. A
Porsche fornece os carros. Mas não se anime. As vagas
já estão todas preenchidas.
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