Edição 1 646 -26/4/2000

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Paixão turbinada

Amantes do Porsche se encontram em
Interlagos para correr com seus carrões

Eliana Simonetti

 

Fotos Rogério Voltan
Karmann-Ghia com mecânica Porsche, de 1966: o primeiro carro de Emerson Fittipaldi

Rolim Amaro, o dono da TAM, é piloto de avião. Adora motocicletas e tem um Porsche. Paulo Maluf, que já foi prefeito e governador de São Paulo, tem duas paixões além da política: os vinhos das melhores cepas que coleciona em sua adega e os carros que tem na garagem. Entre eles, um Porsche. Alcides Tápias, o ministro do Desenvolvimento, é um homem discretíssimo. Sua família ainda mora no bairro do Tatuapé, Zona Leste de São Paulo, onde ele nasceu. Chorou quando saiu do Bradesco, onde trabalhou por quarenta anos. Tápias é conservador. E tem um Porsche. A lista dos proprietários dos 800 carros esportivos da marca alemã que existem no Brasil é uma mostra do imenso poder de atração desse automóvel. Além de políticos e empresários, tem publicitários, como Mauro Salles, atletas, como o jogador de futebol Romário, novos-ricos, como a carioca Vera Loyola, dona de uma rede de padarias, e famílias milionárias há gerações, como os industriais Ermírio de Moraes e os banqueiros Moreira Salles. São tipos muito diferentes, que não convivem no dia-a-dia, mas se reúnem em torno de um clube de amantes do Porsche.


Os Porsches dos brasileiros: 800 carros antigos e modernos

Na semana passada, a turma se encontrou no Autódromo de Interlagos, em São Paulo. Foi uma farra. Dez pilotos profissionais ensinaram os felizes proprietários de Porsches, antigos e modernos, a aproveitar o máximo de suas máquinas maravilhosas numa pista de corrida. Teve carro que precisou voltar guinchado, com o motor fundido. Houve também quem rodasse na pista. Mas até esses adoraram a experiência. "É uma emoção poder correr a 290 quilômetros por hora, como um corredor profissional", diz Antonio Hermann Dias Menezes de Azevedo, consultor de empresas em São Paulo que é o presidente do clube brasileiro de porschistas.

Entre os aficionados do automobilismo, há os amantes da Ferrari. Outros adoram o estilo do Jaguar. Mas o Porsche é uma unanimidade. O carro, cujo estilo pouco mudou em seus 52 anos de vida, é recordista de prêmios na corrida de Le Mans. Dizem os entendidos que sua mecânica só não é mais impecável que a do Rolls-Royce. Dificilmente dá oficina. No Brasil existem Porsche de 1957 – em plena forma. E já há uma lista de encomendas para o modelo 2001, que chega ao país em julho do ano que vem. O preço de um carro desses varia de 200.000 a 250.000 dólares. Novo. Os antigos, em bom estado de conservação, podem custar até 1 milhão de dólares. Para repor um único pneu é preciso desembolsar 1.000 reais. Não é coisa para qualquer bolso. "Andar com um Porsche em ruas esburacadas como as de São Paulo é um crime contra o carro e contra a conta bancária", diz Aleksandar Mandic, um filho de sérvios que ficou milionário montando um dos primeiros provedores de internet no Brasil, que levava seu sobrenome, e hoje é vice-presidente do portal iG.

A história do Porsche começa em 1900, quando o engenheiro Ferdinand Porsche montou seu primeiro carro elétrico – uma versão sofisticada da carruagem puxada a cavalos. Ferdinand foi um dínamo. Em 1931 ergueu sua fábrica. Dois anos depois, a pedido do governo nazista de Hitler, que queria ter em seu país um carro popular, desenhou o Fusca. E em 1948, usando partes do Fusca, construiu o primeiro carro esporte do mundo, o Porsche 356, de capota conversível. O carro ganhou seu primeiro prêmio nas 24 horas de Le Mans em 1951, e daí não parou mais. O primeiro carro em que o brasileiro Emerson Fittipaldi correu e que acaba de ser restaurado foi um Karmann-Ghia com carroceria de fibra de vidro e mecânica Porsche.

 

Antonio Hermann (acima) e Aleksandar Mandic: forçando o motor na pista de corrida

A Porsche desenvolveu o motor de 6 cilindros com refrigeração a ar, os motores turbo, o câmbio sincronizado e o cinto de segurança de três pontas. Ao todo, a marca tem 3.000 patentes de invenções utilizadas hoje no mundo inteiro. O 2001, último filhote da família Porsche, é o primeiro na indústria automobilística equipado com freio de cerâmica, que funciona mais frio que o de carbono e o de aço, freia mais rápido e tem maior durabilidade. Isso para falar um pouco da qualidade técnica da marca. Do ponto de vista do acabamento, o retrato é o seguinte. O Porsche é, acredite, um carro simples. Não tem luzes, ponteiros e penduricalhos enfeitando o painel. Sua parte interna é toda em couro (bancos e volante costurados a mão). A ignição fica do lado esquerdo. No painel, só três instrumentos emoldurados com aros de alumínio. No centro, um grande conta-giros. Com ou sem capota, os modelos mais modernos voam rente ao chão. Atingem a velocidade de 100 quilômetros horários em cerca de cinco segundos. E são ultraconfortáveis para duas pessoas.

Os alemães são tradicionais fabricantes de carro. São os pais dos Mercedes, dos BMW, dos Audi e dos Volkswagen. Na categoria esportiva, eles são hoje os donos da única marca independente no planeta. Ferrari e Alfa foram compradas pela Fiat. Lamborghini e Bugatti ficaram com a Volkswagen. O britânico Jaguar hoje é da americana Ford. A Porsche não andou muito bem nos anos 80. Mas então a família se afastou da administração da empresa, contratou profissionais vindos da BMW, adotou uma linha mais eficiente de produção e hoje é uma das montadoras mais rentáveis da Europa. Os 116 clubes de porschistas do mundo congregam mais de 100.000 apaixonados pela marca. A próxima aventura dos brasileiros será um rali fotográfico na Suíça. Uma brincadeira com jeito de gincana programada para casais que queiram curtir o carrão e a paisagem, em dez dias de passeio. Os interessados bancam suas despesas. A Porsche fornece os carros. Mas não se anime. As vagas já estão todas preenchidas.

 
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