O movimento dos sem causa
Por que protestam os manifestantes do MST,
que receberam área equivalente ao território
de quatro países europeus?
Alexandre Secco
O Movimento dos Sem-Terra (MST) decidiu "comemorar"
os 500 anos de descobrimento do Brasil com um mutirão de
protesto. Seus militantes organizaram invasões de terra
em treze Estados, entre eles Alagoas, Ceará, Mato Grosso
do Sul, Minas Gerais, Rio Grande do Sul. Em São Paulo, as
invasões foram coordenadas por José Rainha Júnior, que voltou
à ação depois de ser absolvido de uma acusação de homicídio.
Em Pernambuco, a sanha ocupadora levou os sem-terra do MST
a entrar numa fazenda que já estava sob o controle de outro
grupo de sem-terra, ligado à Confederação Nacional dos Trabalhadores
na Agricultura (Contag). Em Salvador, numa demonstração
de que limites existem para ser desrespeitados, os manifestantes
ocuparam o prédio do Instituto Nacional de Colonização e
Reforma Agrária (Incra), e mantiveram como reféns durante
algum tempo o diretor do órgão e oito funcionários. Em Belém
do Pará, um grupo de baderneiros foi mais longe e depredou
instalações da Secretaria de Segurança do Estado. Com foices,
pedras e porretes, destruiu nove carros, virou uma viatura
e quebrou computadores, impressoras e máquinas de escrever.
Durante o ataque, ocorrido aos gritos de "mata, mata,
assassinos", até a sala do secretário foi apedrejada.
A ação do MST foi tão radical que gerou protestos entre
seus aliados tradicionais. O PT divulgou uma nota à imprensa
condenando a arruaça em Belém. "Nós do PT não nos pautamos
por invasões em prédios públicos", diz a nota assinada
pela executiva regional do partido no Pará. A Contag também
reagiu. Referindo-se à invasão da fazenda já invadida, em
Pernambuco, escreveu: "Exigimos que o MST retire seus
militantes imediatamente da área". O MST não se intimidou
com a reação dos amigos. Na página que mantém na internet
(www.mst.org.br),
responsabilizou pela confusão o governador Almir Gabriel
e sua polícia militar, "que age como a famigerada SS
nazista". É preciso registrar que a Igreja Católica
foi leal até o fim. Permaneceu ao lado dos manifestantes,
dando apoio em tempo integral. Em Belém, apareceu até um
folclórico frade franciscano pop que circulava pelas ruas
com uma bandana na cabeça.
Pela
agressividade e amplitude das manifestações, seria razoável
supor que o MST vive um momento de profunda angústia existencial.
Certo? Certíssimo. Também é possível imaginar que o programa
de reforma agrária vai muito mal no Brasil. Certo? Não,
nada disso. A reforma agrária vai muito bem. Desde que foi
iniciado o programa, na década de 80, foram distribuídos
22 milhões de hectares de terra a 618.000 famílias. Essa área equivale à soma de quatro países
europeus: Áustria, Bélgica, Holanda e Portugal. Apenas no
governo Fernando Henrique cerca de 400.000
famílias receberam seu lote. O confronto das duas respostas
expõe o paradoxo do MST. Quanto mais terra o governo distribui,
mais irritada fica a cúpula do movimento. E por quê? Porque
diante de números acachapantes como esses, o discurso do
MST se fragiliza. Se o objetivo do MST fosse tão-somente
a obtenção de terra, de duas uma. Ou o economista João Pedro
Stedile, líder do MST, deveria anunciar a extinção do movimento
para breve, posto que o país está por resolver a chamada
"questão fundiária". Ou o MST lançaria para presidente
da República o nome de seu maior benfeitor, o ministro Raul
Jungmann, da Política Fundiária.

Stedile não faz nem uma coisa nem outra, claro. Afinal,
não é segredo para ninguém, seu objetivo não é a reforma
agrária, mas a reforma da sociedade de uma maneira mais
ampla. Nas últimas mobilizações, os coordenadores do MST
gritavam palavras de ordem, falando em distribuição de terras
e na construção de uma sociedade "socialista e igualitária".
Entre os líderes do movimento, teme-se que esse discurso
fale ao coração dos que invariavelmente participam das passeatas
mas não produza entre os sem-terra o mesmo impacto de antes.
A julgar pela capacidade de mobilização do MST, a preocupação
procede. Em outros tempos, arruaças como a dos últimos dias
movimentavam milhares de pessoas. Agora, mobilizam centenas.
Outro indicador: de janeiro a março de 1999, o movimento
conseguiu organizar 192 invasões no país. Nos três primeiros
meses do ano 2000 houve 57 ataques. Será que, nesse período,
a miséria diminuiu na mesma proporção? Ou será que a cartilha
do MST já não encanta a tantos deserdados? No Palácio do
Planalto acredita-se que o MST pode estar no mesmo caminho
da Central Única dos Trabalhadores. Nos anos 80, a CUT programava
greves gerais com grande facilidade. Hoje em dia, não está
mais em condições de planejar movimentos dessa envergadura
pela falta do respaldo que obtinha antes.
Claudio Rossi
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| Os Bittencourt, de Santa Catarina,
que já estão na segunda geração
de sem-terra: "Isso aqui não tem jeito,
o futuro da minha neta é virar uma sem-terra
também", diz Juarez |
No MST o discurso socialista é tema de debate na cúpula,
mas a base está mais preocupada com os desafios comerciais
do dia-a-dia no campo. O maior deles é que, para os novos
proprietários, a reforma agrária parece não ter fim. Como
a renda nos lotes é muito baixa felizes são os que
tiram mais de 100 reais por mês , o dinheiro não é
suficiente para manter famílias grandes. Quando os filhos
chegam à idade adulta e se casam, precisam sair em busca
de novas terras. Resultado: entram na fila do MST outra
vez. Trata-se de um efeito não previsto inicialmente. "O
surgimento da segunda geração dos sem-terra é o fenômeno
social mais importante desde a criação do MST, no começo
da década de 80", diz o ministro Jungmann. Tome-se
o caso da família Bittencourt, de Santa Catarina. José,
o patriarca de 81 anos, é dono de uma pequena propriedade.
Com a produção de sua área ele não conseguiu mais sustentar
a família na época em que nasceram os filhos. Um deles já
invadiu terras e recebeu seu lote. Ele se chama Juarez e
teve dois filhos, netos de José, que também se tornaram
sem-terra. Em breve, Juarez vai ser avô. "Isso aqui
não tem jeito, o futuro de minha neta é virar uma sem-terra
também", diz Juarez.
Claudio Rossi
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| O agricultor Lavratti, que ganhou
terra do MST mas tem planos de comprar o lote dos vizinhos:
"Precisamos expandir e não podemos penalizar
nossos filhos pelo insucesso dos outros assentados" |
Os assentados enfrentam desafios mesmo quando seu lote vai
bem. É o caso da família Lavratti, também de Santa Catarina.
Eles são o único caso de sucesso em uma área na qual vivem
1
.200 famílias de assentados.
Os seis irmãos da família foram assentados ao mesmo tempo
e fizeram uma sociedade para explorar suas terras. Juntos,
cultivam uma área maior que a dos vizinhos, produzem mais
e têm custo menor porque rateiam o investimento para a aquisição
de máquinas. Seus filhos estão sendo encaminhados para estudar
na cidade. Um rapaz quer ser jogador de futebol e vai submeter-se
a alguns testes. Uma garota vai fazer fotos e quer virar modelo.
A família pensa em se cotizar para financiar o estudo dos
que estiverem dispostos a enfrentar a universidade. Como eles
conseguem ganhar dinheiro com as terras, começaram a comprar
os lotes de vizinhos que se deram mal. Transformaram-se em
"latifundiários" dentro dos assentamentos, um exemplo
que o MST abomina e combate. "O que podemos fazer? A
família cresceu, os custos com a educação estão aumentando
e precisamos aumentar também a terra para plantar", diz
o líder do grupo de irmãos, Reinaldo Lavratti. "Não podemos
penalizar nossos filhos pelo insucesso dos outros. Prefiro
morrer a ver um filho em um acampamento de sem-terra."
Por incrível que pareça, o MST prefere os Bittencourt aos
Lavratti. Motivo: se os agricultores forem mal, voltam à
fila e aumentam a sobrevida do movimento. Se vão bem, progridem
e deixam-se consumir por idéias alienígenas.
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