Edição 1 646 -26/4/2000

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O movimento dos sem causa

Por que protestam os manifestantes do MST,
que receberam área equivalente ao território
de quatro países europeus?

Alexandre Secco

O Movimento dos Sem-Terra (MST) decidiu "comemorar" os 500 anos de descobrimento do Brasil com um mutirão de protesto. Seus militantes organizaram invasões de terra em treze Estados, entre eles Alagoas, Ceará, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Rio Grande do Sul. Em São Paulo, as invasões foram coordenadas por José Rainha Júnior, que voltou à ação depois de ser absolvido de uma acusação de homicídio. Em Pernambuco, a sanha ocupadora levou os sem-terra do MST a entrar numa fazenda que já estava sob o controle de outro grupo de sem-terra, ligado à Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag). Em Salvador, numa demonstração de que limites existem para ser desrespeitados, os manifestantes ocuparam o prédio do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), e mantiveram como reféns durante algum tempo o diretor do órgão e oito funcionários. Em Belém do Pará, um grupo de baderneiros foi mais longe e depredou instalações da Secretaria de Segurança do Estado. Com foices, pedras e porretes, destruiu nove carros, virou uma viatura e quebrou computadores, impressoras e máquinas de escrever. Durante o ataque, ocorrido aos gritos de "mata, mata, assassinos", até a sala do secretário foi apedrejada.

A ação do MST foi tão radical que gerou protestos entre seus aliados tradicionais. O PT divulgou uma nota à imprensa condenando a arruaça em Belém. "Nós do PT não nos pautamos por invasões em prédios públicos", diz a nota assinada pela executiva regional do partido no Pará. A Contag também reagiu. Referindo-se à invasão da fazenda já invadida, em Pernambuco, escreveu: "Exigimos que o MST retire seus militantes imediatamente da área". O MST não se intimidou com a reação dos amigos. Na página que mantém na internet (www.mst.org.br), responsabilizou pela confusão o governador Almir Gabriel e sua polícia militar, "que age como a famigerada SS nazista". É preciso registrar que a Igreja Católica foi leal até o fim. Permaneceu ao lado dos manifestantes, dando apoio em tempo integral. Em Belém, apareceu até um folclórico frade franciscano pop que circulava pelas ruas com uma bandana na cabeça.


Pela agressividade e amplitude das manifestações, seria razoável supor que o MST vive um momento de profunda angústia existencial. Certo? Certíssimo. Também é possível imaginar que o programa de reforma agrária vai muito mal no Brasil. Certo? Não, nada disso. A reforma agrária vai muito bem. Desde que foi iniciado o programa, na década de 80, foram distribuídos 22 milhões de hectares de terra a 618.000 famílias. Essa área equivale à soma de quatro países europeus: Áustria, Bélgica, Holanda e Portugal. Apenas no governo Fernando Henrique cerca de 400.000 famílias receberam seu lote. O confronto das duas respostas expõe o paradoxo do MST. Quanto mais terra o governo distribui, mais irritada fica a cúpula do movimento. E por quê? Porque diante de números acachapantes como esses, o discurso do MST se fragiliza. Se o objetivo do MST fosse tão-somente a obtenção de terra, de duas uma. Ou o economista João Pedro Stedile, líder do MST, deveria anunciar a extinção do movimento para breve, posto que o país está por resolver a chamada "questão fundiária". Ou o MST lançaria para presidente da República o nome de seu maior benfeitor, o ministro Raul Jungmann, da Política Fundiária.

Stedile não faz nem uma coisa nem outra, claro. Afinal, não é segredo para ninguém, seu objetivo não é a reforma agrária, mas a reforma da sociedade de uma maneira mais ampla. Nas últimas mobilizações, os coordenadores do MST gritavam palavras de ordem, falando em distribuição de terras e na construção de uma sociedade "socialista e igualitária". Entre os líderes do movimento, teme-se que esse discurso fale ao coração dos que invariavelmente participam das passeatas mas não produza entre os sem-terra o mesmo impacto de antes. A julgar pela capacidade de mobilização do MST, a preocupação procede. Em outros tempos, arruaças como a dos últimos dias movimentavam milhares de pessoas. Agora, mobilizam centenas. Outro indicador: de janeiro a março de 1999, o movimento conseguiu organizar 192 invasões no país. Nos três primeiros meses do ano 2000 houve 57 ataques. Será que, nesse período, a miséria diminuiu na mesma proporção? Ou será que a cartilha do MST já não encanta a tantos deserdados? No Palácio do Planalto acredita-se que o MST pode estar no mesmo caminho da Central Única dos Trabalhadores. Nos anos 80, a CUT programava greves gerais com grande facilidade. Hoje em dia, não está mais em condições de planejar movimentos dessa envergadura pela falta do respaldo que obtinha antes.

Claudio Rossi
Os Bittencourt, de Santa Catarina, que já estão na segunda geração de sem-terra: "Isso aqui não tem jeito, o futuro da minha neta é virar uma sem-terra também", diz Juarez


No MST o discurso socialista é tema de debate na cúpula, mas a base está mais preocupada com os desafios comerciais do dia-a-dia no campo. O maior deles é que, para os novos proprietários, a reforma agrária parece não ter fim. Como a renda nos lotes é muito baixa – felizes são os que tiram mais de 100 reais por mês –, o dinheiro não é suficiente para manter famílias grandes. Quando os filhos chegam à idade adulta e se casam, precisam sair em busca de novas terras. Resultado: entram na fila do MST outra vez. Trata-se de um efeito não previsto inicialmente. "O surgimento da segunda geração dos sem-terra é o fenômeno social mais importante desde a criação do MST, no começo da década de 80", diz o ministro Jungmann. Tome-se o caso da família Bittencourt, de Santa Catarina. José, o patriarca de 81 anos, é dono de uma pequena propriedade. Com a produção de sua área ele não conseguiu mais sustentar a família na época em que nasceram os filhos. Um deles já invadiu terras e recebeu seu lote. Ele se chama Juarez e teve dois filhos, netos de José, que também se tornaram sem-terra. Em breve, Juarez vai ser avô. "Isso aqui não tem jeito, o futuro de minha neta é virar uma sem-terra também", diz Juarez.

Claudio Rossi
O agricultor Lavratti, que ganhou terra do MST mas tem planos de comprar o lote dos vizinhos: "Precisamos expandir e não podemos penalizar nossos filhos pelo insucesso dos outros assentados"

Os assentados enfrentam desafios mesmo quando seu lote vai bem. É o caso da família Lavratti, também de Santa Catarina. Eles são o único caso de sucesso em uma área na qual vivem 1.200 famílias de assentados. Os seis irmãos da família foram assentados ao mesmo tempo e fizeram uma sociedade para explorar suas terras. Juntos, cultivam uma área maior que a dos vizinhos, produzem mais e têm custo menor porque rateiam o investimento para a aquisição de máquinas. Seus filhos estão sendo encaminhados para estudar na cidade. Um rapaz quer ser jogador de futebol e vai submeter-se a alguns testes. Uma garota vai fazer fotos e quer virar modelo. A família pensa em se cotizar para financiar o estudo dos que estiverem dispostos a enfrentar a universidade. Como eles conseguem ganhar dinheiro com as terras, começaram a comprar os lotes de vizinhos que se deram mal. Transformaram-se em "latifundiários" dentro dos assentamentos, um exemplo que o MST abomina e combate. "O que podemos fazer? A família cresceu, os custos com a educação estão aumentando e precisamos aumentar também a terra para plantar", diz o líder do grupo de irmãos, Reinaldo Lavratti. "Não podemos penalizar nossos filhos pelo insucesso dos outros. Prefiro morrer a ver um filho em um acampamento de sem-terra."

Por incrível que pareça, o MST prefere os Bittencourt aos Lavratti. Motivo: se os agricultores forem mal, voltam à fila e aumentam a sobrevida do movimento. Se vão bem, progridem e deixam-se consumir por idéias alienígenas.

 
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