Vou morrer em Veneza
Índios furibundos
invadiram o Congresso Nacional para protestar contra as
comemorações dos 500 anos de descobrimento
do Brasil. Paramentados com seus tradicionais cocares, calções
de banho e tênis Nike, foram até o senador
Antonio Carlos Magalhães e apontaram-lhe uma lança.
Foi bonito ver todos aqueles índios lutando juntos
500 anos atrás, eles provavelmente estariam devorando
uns aos outros. Pois eu concordo com os índios: não
há o que comemorar. Em 500 anos de História,
não fizemos nada que justificasse uma festa. A meu
ver, deveríamos ficar recolhidos num canto, chorando
pelo joelho de Ronaldinho. Foi o que fiz.
Passei o aniversário
do Brasil em Veneza, onde vivo e onde vou morrer. Daqui
a 500 anos, portanto, enquanto os seus descendentes estiverem
comemorando o primeiro milênio da nossa História,
eu ainda estarei aqui, enterrado no famoso cemitério
de San Michele. É o cemitério de Stravinsky
e Ezra Pound. Com toda a probabilidade, não serei
enterrado ao lado deles, e sim ao lado de um Favaretto ou
um Boscolo qualquer. Não importa. O que importa é
que eu ainda estarei aqui.
Os venezianos entendem
desse negócio de morte. Alguns dos mais importantes
monumentos da cidade foram erguidos para comemorar o fim
das epidemias de peste. A epidemia de 1575-1577, que provocou
a morte de 50.000 pessoas, de um total de 180.000 habitantes,
rendeu a igreja do Redentor, obra de um dos maiores arquitetos
do Renascimento, Andrea Palladio. A epidemia de 1630-1631,
que matou mais 50.000 pessoas, originou a construção
da igreja de Nossa Senhora da Saúde, de Baldassare
Longhena.
Todos os anos, os venezianos
fazem procissões a essas igrejas. São as festas
mais seguidas da cidade. Muito mais seguidas do que o Carnaval
ou a regata histórica, por exemplo. Na festa do Redentor,
os venezianos aglomeram-se em milhares de barcos e assistem
a um espetáculo de fogos de artifício no meio
da água, tomando sopa de feijão e comendo
melancia. Na festa da Saúde, acendem velas e giram
em torno da igreja octogonal, que simboliza o oitavo dia
da Criação, ou seja, o recomeço.
Tiziano, o maior pintor
veneziano, morreu na epidemia de 1575-1577. Seu último
quadro, La Pietà, é o meu preferido.
Trata-se de uma espécie de ex-voto em que ele pede
a graça para seu filho Orazio, também contaminado
pela peste. Infelizmente, o pedido de graça não
foi atendido. Tanto Tiziano quanto Orazio acabaram morrendo.
Aproveitando-se da morte de ambos, os venezianos saquearam
sua casa, levando todos os objetos de valor.
Fui rever o quadro
de Tiziano na galeria da Accademia. Tenho pensado muito
sobre a morte nos últimos dias. Concluí que
dá gosto morrer em Veneza. É aqui que vou
morrer.