Edição 1 646 -26/4/2000

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Vou morrer em Veneza

Índios furibundos invadiram o Congresso Nacional para protestar contra as comemorações dos 500 anos de descobrimento do Brasil. Paramentados com seus tradicionais cocares, calções de banho e tênis Nike, foram até o senador Antonio Carlos Magalhães e apontaram-lhe uma lança. Foi bonito ver todos aqueles índios lutando juntos – 500 anos atrás, eles provavelmente estariam devorando uns aos outros. Pois eu concordo com os índios: não há o que comemorar. Em 500 anos de História, não fizemos nada que justificasse uma festa. A meu ver, deveríamos ficar recolhidos num canto, chorando pelo joelho de Ronaldinho. Foi o que fiz.

Passei o aniversário do Brasil em Veneza, onde vivo e onde vou morrer. Daqui a 500 anos, portanto, enquanto os seus descendentes estiverem comemorando o primeiro milênio da nossa História, eu ainda estarei aqui, enterrado no famoso cemitério de San Michele. É o cemitério de Stravinsky e Ezra Pound. Com toda a probabilidade, não serei enterrado ao lado deles, e sim ao lado de um Favaretto ou um Boscolo qualquer. Não importa. O que importa é que eu ainda estarei aqui.

Os venezianos entendem desse negócio de morte. Alguns dos mais importantes monumentos da cidade foram erguidos para comemorar o fim das epidemias de peste. A epidemia de 1575-1577, que provocou a morte de 50.000 pessoas, de um total de 180.000 habitantes, rendeu a igreja do Redentor, obra de um dos maiores arquitetos do Renascimento, Andrea Palladio. A epidemia de 1630-1631, que matou mais 50.000 pessoas, originou a construção da igreja de Nossa Senhora da Saúde, de Baldassare Longhena.

Todos os anos, os venezianos fazem procissões a essas igrejas. São as festas mais seguidas da cidade. Muito mais seguidas do que o Carnaval ou a regata histórica, por exemplo. Na festa do Redentor, os venezianos aglomeram-se em milhares de barcos e assistem a um espetáculo de fogos de artifício no meio da água, tomando sopa de feijão e comendo melancia. Na festa da Saúde, acendem velas e giram em torno da igreja octogonal, que simboliza o oitavo dia da Criação, ou seja, o recomeço.

Tiziano, o maior pintor veneziano, morreu na epidemia de 1575-1577. Seu último quadro, La Pietà, é o meu preferido. Trata-se de uma espécie de ex-voto em que ele pede a graça para seu filho Orazio, também contaminado pela peste. Infelizmente, o pedido de graça não foi atendido. Tanto Tiziano quanto Orazio acabaram morrendo. Aproveitando-se da morte de ambos, os venezianos saquearam sua casa, levando todos os objetos de valor.

Fui rever o quadro de Tiziano na galeria da Accademia. Tenho pensado muito sobre a morte nos últimos dias. Concluí que dá gosto morrer em Veneza. É aqui que vou morrer.