Edição 1 646 -26/4/2000

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Guerra ao preconceito

Psicóloga diz que sociedade precisa respeitar os gays. Mesmo que não concorde com eles

Alice Granato

 
Claudio Rossi
"Se um psicólogo afirmar que homossexualismo é doença, poderá ter a licença profissional suspensa"

 

Presidente do Conselho Federal de Psicologia (CFP), a paulista Ana Bock é autora da resolução que proíbe os psicólogos brasileiros de tratar a homossexualidade como doença. Não se trata de uma medida isolada. "O homossexualismo é apenas um dos assuntos que vamos atacar", diz. Seu objetivo é envolver os psicólogos numa espécie de compromisso com o bem-estar da sociedade e com os direitos humanos. Ela está começando a sentir as conseqüências do vespeiro em que está se metendo. Desde que um deputado distrital de Brasília propôs a criação de banheiros separados para homossexuais (o primeiro deles será inaugurado no próximo mês numa cidade-satélite), Ana Bock tem sido convocada pelas rádios para explicar como e por que isso está ocorrendo na capital da República. "É tão absurdo quanto querer criar banheiros especiais para deputados", protesta a psicóloga. Aos 47 anos, casada há quase trinta anos e mãe de três filhos adolescentes, ela também é diretora da Faculdade de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Na semana passada, Ana Bock foi entrevistada por VEJA.

Veja — Um deputado do Distrito Federal apresentou um projeto de lei para criar banheiros públicos separados para homossexuais e travestis. O que a senhora acha disso?
Ana — Desde quando a preferência sexual é relevante no banheiro? O risco de ser paquerado no banheiro é muito menor do que na rua. O projeto é absurdo. Acelera a discriminação e não é uma necessidade especial de um grupo gay. É tão absurdo quanto querer que deputados tenham banheiros separados para a gente não se encontrar com eles. Na Europa, é cada vez maior o número de banheiros sem separação para homens e mulheres.

Veja — A senhora acredita que, de maneira geral, o diálogo entre os gays e a sociedade está melhor?
Ana
— Hoje há movimentos organizados, como o Grupo Gay da Bahia, que tem certo reconhecimento social, pronuncia-se e é ouvido. Acho que houve um avanço, mas ainda temos muito o que percorrer. Ainda estamos em um momento em que é necessário que os homossexuais se organizem para poder fazer sua defesa. É o mesmo que ocorre num movimento de etnia. Os negros, por exemplo, precisam se aglutinar e criar um movimento negro para expressar suas reivindicações e ter a cidadania garantida.

Veja — De que forma os psicólogos podem ajudar o homossexual a viver melhor?
Ana — Podem ajudar a reduzir o sofrimento psíquico provocado por questões cotidianas, como a rejeição, o preconceito. Quanto mais alguém entende seu papel na sociedade, mais é capaz de enfrentar as dificuldades. Qualquer um pode se colocar nesse lugar, não só os homossexuais. Tem gente que sofre porque é negro, tem gente que sofre porque é mulher, porque é baixinho, alto demais, porque é feio. Há muitos casos de sofrimento de pessoas que são bonitas demais e se vêem sempre como objeto de desejo, sem conseguir construir relações afetivas adequadas. É engano pensar que só sofre quem faz escolhas difíceis ou é feio.

Veja — Como as pessoas podem ajudar a reduzir o preconceito no caso do homossexualismo?
Ana — O ideal seria que reduzíssemos a importância da orientação sexual em nossas relações. Se a questão da orientação sexual não for fundamental em determinada circunstância, não temos de nos preocupar com essa informação. É claro que, se alguém vai a um médico porque não está bem, ele pode querer saber de sua orientação sexual. Há momentos em que é preciso falar sobre isso. Em outros, não.

Veja — É de sua autoria a resolução que proíbe psicólogos de tratar o homossexualismo como doença no Brasil. O que a levou a estabelecer essa norma?
Ana — O homossexualismo fazia parte da Classificação Internacional de Doenças (CID). Isso foi mudado há cerca de dez anos e hoje há um consenso internacional de que a homossexualidade não é doença, não está mais classificada como tal na Organização Mundial de Saúde (OMS). O que nós fizemos foi colocar os psicólogos brasileiros em dia. O papel do psicólogo é ajudar a sociedade a compreender o processo de construção da identidade das pessoas. A profissão tem de ajudar as pessoas a viver melhor. Temos de quebrar de vez a história de contribuir com discriminações, o que infelizmente aconteceu por muitos anos. Portanto, cada vez que tivermos de nos pronunciar sobre o homossexualismo, nos jornais, televisão e outros meios de comunicação, temos de agir nesse sentido e não no de reforçar o preconceito.

Veja — Há muitos psicólogos tratando homossexualismo como doença?
Ana
— Em geral, os psicólogos que tratam o homossexualismo como doença estão ligados a grupos religiosos. Há clínicas que prometem cura para a homossexualidade e existem psicólogos envolvidos nesses tratamentos. No ano passado, houve um grande congresso de um grupo religioso em Viçosa que prometia curar gays. Nós soubemos do envolvimento de psicólogos e foi a partir daí que decidimos adotar a resolução. Não nos interessava naquele momento perseguir os psicólogos, na medida em que nem tínhamos uma orientação oficial. O que fizemos foi construir essa norma.

Veja — O que acontece se um psicólogo tratar o homossexualismo como doença e o fato se tornar público?
Ana — Se o psicólogo afirmar, no exercício da profissão ou em um meio de comunicação de massa, que a homossexualidade é doença ou fizer qualquer outra afirmação que contribua com a discriminação e o preconceito, poderá ser processado e ter seu exercício profissional suspenso. Pode também ser advertido publicamente. Isso, contudo, depende de alguém tomar a iniciativa de denunciar ou de o conselho assumir a denúncia. É uma falha na profissão considerar a homossexualidade como doença.

Veja — O que diferencia a discriminação dos psicólogos em relação aos gays do preconceito do cidadão comum?
Ana — É muito mais grave. O cidadão comum está submetido ao senso comum, ao que vigora como moral dominante. O psicólogo não. Ele pode ter sua convicção moral e religiosa, mas é um cientista. Tem uma ciência como instrumento básico de trabalho. E essa ciência pesquisa e está submetida a regras consensuais no mundo científico. Ele não pode se deixar guiar por suas convicções pessoais. Seu papel é reduzir sofrimentos psicológicos e contribuir para que as pessoas possam se fortalecer para enfrentar suas dificuldades, seus conflitos e seu cotidiano. Nesse sentido, nós temos de combater tudo que for fonte de sofrimento psicológico nas relações sociais.

Veja — O preconceito contra o homossexualismo está diminuindo?
Ana — Na história da humanidade houve momentos em que a homossexualidade não foi sequer vista como problema. Houve períodos nos quais os meninos eram treinados para a vida sexual com outros homens. E há outros momentos, como o nazismo, em que se tratou o homossexualismo como uma doença que precisava ser exterminada. Assim como os judeus, os gays foram marcados e colocados em campos de concentração. Normalmente, as pessoas se referem ao nazismo como se ele tivesse perseguido apenas os judeus. Não se pode esquecer da perseguição aos homossexuais. Hoje, as coisas estão muito melhores. Avançamos porque estamos caminhando na direção de respeito e aceitação maiores das escolhas do outro. O diálogo também é maior. Hoje se fala mais abertamente sobre o assunto. As pessoas podem até dizer que não acham o homossexualismo muito legal, elas têm o direito de ter essa opinião. O direito que elas não têm é de transformar a diferença entre as pessoas em fonte de preconceito.

Veja — O primeiro passo para o homossexual viver melhor é assumir publicamente sua identidade sexual?
Ana — Eu diria que sim. Mas não adianta assumir e querer que o resto se dane. Isso não é sinal de saúde. O sinal de saúde seria compreender por que se sofre. Não adianta o homossexual pensar que a sociedade inteira está errada e ele está certo. Ele tem de compreender que há uma moral estabelecida. Que essa moral tem influência histórica de idéias religiosas que dizem que a homossexualidade é algo errado. Não é dizendo que a moral vigente é absurda que se vai resolver a questão. O homossexual tem de compreender que sua escolha é de confronto com a moral da sociedade num determinado momento e vai precisar se esforçar para se fazer aceito com sua orientação sexual. O "sair do armário" é uma estratégia de luta pela igualdade e pelo respeito. Se for entendido assim, é muito bom sair do armário.

Veja — Qual seria o modo mais indicado de sair do armário?
Ana — O caminho certo, se é possível dizer que há um caminho certo nessa história, é compreender que todos nós produzimos aquilo que temos em nossa cultura. Não há nada que exista em nosso meio que não tenha sido produzido por nós. A humanidade criou o conceito de que a normalidade é a heterossexualidade. Mas, no processo cultural, o homem desenvolveu outras formas de amor e sexualidade. A homossexualidade também é um produto da humanidade e jamais pode ser entendida como aberração. Eu não nego que possa haver fatores orgânicos e biológicos envolvidos no homossexualismo. Só não acredito que as causas sejam só biológicas. Sem dúvida, é uma construção coletiva que veio responder às necessidades da humanidade. Para mim, é um dado de minha cultura.

Veja — Se o homossexualismo é um dado cultural, por que a dificuldade da maioria em aceitá-lo?
Ana — Não é questão de aceitar ou não. O homossexualismo existe e está aí. Há pessoas que são felizes ao fazer essa escolha. Para ficar mais claro, vou usar o exemplo da violência. A violência é tomada nas análises sociais como se fosse algo estranho a todos nós. Como se tivesse vindo não se sabe de onde. Ora, nós a produzimos. Temos de compreender o que fizemos para ter a violência. A comparação é ruim, de certa forma, porque todos nós sabemos que a violência é ruim e temos de reduzi-la. A homossexualidade não. Algumas pessoas acham que temos de extingui-la, outros acham que qualquer forma de amor vale a pena.

Veja — Diante das dificuldades sociais que enfrenta, não é mais difícil para o homossexual ser feliz do que para o heterossexual?
Ana
— Em termos de probabilidade, sim. É lutar contra a maré. A moral dominante não aceita a homossexualidade. Aceita o machismo, no entanto. As relações amorosas são complicadas em nossa cultura. Tentamos combater o machismo porque as mulheres eram propriedade dos homens e essa relação de amor, na qual um é dono do outro, é absolutamente ruim. Impede a construção de uma relação na qual as duas partes tenham ganhos.

Veja — Existe alguma conduta indicada por psicólogos para os homossexuais lidarem melhor com sua família, e vice-versa?
Ana — A família tem sempre de buscar respeito e diálogo, tentar preservar o afeto. Eu sei que é muito difícil. O indicado é que a família perceba que seu filho ou filha homossexual não criou alma nova por causa da orientação sexual. Trata-se daquele filho que cresceu ali, que fez coisas erradas e certas na vida. Era levado ou quieto demais, não importa. Foi amado com todas as suas características e isso precisa continuar. A família tem uma nova informação sobre ele, mas não um novo filho. Por outro lado, temos de reconhecer que a moral dominante está no olhar do vizinho, no cotidiano. Então, a família também precisa ser compreendida. O filho não pode querer que, de repente, o pai passe a aceitar e achar bonitinha sua condição de homossexual. Juntos, todos têm de procurar a compreensão.

Veja — É comum os pais se sentirem culpados pelo homossexualismo do filho. Eles são realmente responsáveis?
Ana — Quando está inconformada, a família tende a se culpar e buscar razões que tenham levado o filho a se tornar homossexual. Os pais jogam a culpa um no outro ou sofrem por acreditar que têm responsabilidade. Onde erramos? Talvez ninguém tenha cometido erro algum. Os pais não são obrigados a aceitar as escolhas dos filhos. Compreender é muito diferente de aceitar. A família espera que o filho continue a obra do pai e, no entanto, a maioria faz exatamente o oposto. Isso causa tristeza, mas não impede os pais de conviver com os filhos. É bom nunca falar em culpa. Culpa existe quando alguém obriga outra pessoa a fazer o que não quer.

Veja — Até que ponto a discriminação afeta o relacionamento amoroso entre homossexuais?
Ana — Muitos homossexuais optam por não tornar públicos seus relacionamentos. É um problema, pois a vida pode se tornar mais difícil e sofrida. Esconder-se não significa estar protegido, pois se está sempre sujeito ao preconceito indireto. O homossexual ouve comentários desrespeitosos, não em relação a ele em particular, mas a sua identidade sexual de maneira geral. Como tenta manter a farsa, encontra cada vez maior dificuldade em ser autêntico nas relações sociais. Em alguns lugares ele se assume, em outros não. Vive em dois mundos separados e o risco de esses mundos se encontrarem é uma fonte permanente de sofrimento e tensão.

Veja — Como o homossexualismo afeta as relações de trabalho?
Ana Quem esconde a identidade sexual acaba numa espécie de mundo subterrâneo que não contribui para seu avanço profissional. Por exemplo, quando o diretor da escola descobre que o professor é gay e o demite. O professor, por ter optado por não tornar pública sua opção sexual, deixa de reagir, de denunciar. Torna-se, portanto, cúmplice do preconceito, ao mesmo tempo que é vítima. Com isso a sociedade perde a oportunidade de melhorar, pois ela só avança à medida que enfrenta, debate e resolve os problemas. A questão não interessa apenas aos homossexuais. É um assunto que diz respeito a nossas relações sociais e, portanto, interessa a todos nós.