Guerra ao preconceito
Psicóloga
diz que sociedade precisa respeitar os gays. Mesmo que não
concorde com eles
Alice Granato
Claudio
Rossi
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"Se
um psicólogo afirmar que homossexualismo é
doença, poderá ter a licença profissional
suspensa" |
Presidente do Conselho
Federal de Psicologia (CFP), a paulista Ana Bock é
autora da resolução que proíbe os psicólogos
brasileiros de tratar a homossexualidade como doença.
Não se trata de uma medida isolada. "O homossexualismo
é apenas um dos assuntos que vamos atacar", diz.
Seu objetivo é envolver os psicólogos numa
espécie de compromisso com o bem-estar da sociedade
e com os direitos humanos. Ela está começando
a sentir as conseqüências do vespeiro em que
está se metendo. Desde que um deputado distrital
de Brasília propôs a criação
de banheiros separados para homossexuais (o primeiro deles
será inaugurado no próximo mês numa
cidade-satélite), Ana Bock tem sido convocada pelas
rádios para explicar como e por que isso está
ocorrendo na capital da República. "É tão
absurdo quanto querer criar banheiros especiais para deputados",
protesta a psicóloga. Aos 47 anos, casada há
quase trinta anos e mãe de três filhos adolescentes,
ela também é diretora da Faculdade de Psicologia
da Pontifícia Universidade Católica de São
Paulo. Na semana passada, Ana Bock foi entrevistada por
VEJA.
Veja Um
deputado do Distrito Federal apresentou um projeto de lei
para criar banheiros públicos separados para homossexuais
e travestis. O que a senhora acha disso?
Ana
Desde quando a preferência sexual é relevante
no banheiro? O risco de ser paquerado no banheiro é
muito menor do que na rua. O projeto é absurdo. Acelera
a discriminação e não é uma
necessidade especial de um grupo gay. É tão
absurdo quanto querer que deputados tenham banheiros separados
para a gente não se encontrar com eles. Na Europa,
é cada vez maior o número de banheiros sem
separação para homens e mulheres.
Veja A
senhora acredita que, de maneira geral, o diálogo
entre os gays e a sociedade está melhor?
Ana Hoje há
movimentos organizados, como o Grupo Gay da Bahia, que tem
certo reconhecimento social, pronuncia-se e é ouvido.
Acho que houve um avanço, mas ainda temos muito o
que percorrer. Ainda estamos em um momento em que é
necessário que os homossexuais se organizem para
poder fazer sua defesa. É o mesmo que ocorre num
movimento de etnia. Os negros, por exemplo, precisam se
aglutinar e criar um movimento negro para expressar suas
reivindicações e ter a cidadania garantida.
Veja De
que forma os psicólogos podem ajudar o homossexual
a viver melhor?
Ana
Podem ajudar a reduzir o sofrimento psíquico
provocado por questões cotidianas, como a rejeição,
o preconceito. Quanto mais alguém entende seu papel
na sociedade, mais é capaz de enfrentar as dificuldades.
Qualquer um pode se colocar nesse lugar, não só
os homossexuais. Tem gente que sofre porque é negro,
tem gente que sofre porque é mulher, porque é
baixinho, alto demais, porque é feio. Há muitos
casos de sofrimento de pessoas que são bonitas demais
e se vêem sempre como objeto de desejo, sem conseguir
construir relações afetivas adequadas. É
engano pensar que só sofre quem faz escolhas difíceis
ou é feio.
Veja Como
as pessoas podem ajudar a reduzir o preconceito no caso
do homossexualismo?
Ana
O ideal seria que reduzíssemos a importância
da orientação sexual em nossas relações.
Se a questão da orientação sexual não
for fundamental em determinada circunstância, não
temos de nos preocupar com essa informação.
É claro que, se alguém vai a um médico
porque não está bem, ele pode querer saber
de sua orientação sexual. Há momentos
em que é preciso falar sobre isso. Em outros, não.
Veja É
de sua autoria a resolução que proíbe
psicólogos de tratar o homossexualismo como doença
no Brasil. O que a levou a estabelecer essa norma?
Ana
O homossexualismo fazia parte da Classificação
Internacional de Doenças (CID). Isso foi mudado há
cerca de dez anos e hoje há um consenso internacional
de que a homossexualidade não é doença,
não está mais classificada como tal na Organização
Mundial de Saúde (OMS). O que nós fizemos
foi colocar os psicólogos brasileiros em dia. O papel
do psicólogo é ajudar a sociedade a compreender
o processo de construção da identidade das
pessoas. A profissão tem de ajudar as pessoas a viver
melhor. Temos de quebrar de vez a história de contribuir
com discriminações, o que infelizmente aconteceu
por muitos anos. Portanto, cada vez que tivermos de nos
pronunciar sobre o homossexualismo, nos jornais, televisão
e outros meios de comunicação, temos de agir
nesse sentido e não no de reforçar o preconceito.
Veja Há
muitos psicólogos tratando homossexualismo como doença?
Ana Em geral,
os psicólogos que tratam o homossexualismo como doença
estão ligados a grupos religiosos. Há clínicas
que prometem cura para a homossexualidade e existem psicólogos
envolvidos nesses tratamentos. No ano passado, houve um
grande congresso de um grupo religioso em Viçosa
que prometia curar gays. Nós soubemos do envolvimento
de psicólogos e foi a partir daí que decidimos
adotar a resolução. Não nos interessava
naquele momento perseguir os psicólogos, na medida
em que nem tínhamos uma orientação
oficial. O que fizemos foi construir essa norma.
Veja O
que acontece se um psicólogo tratar o homossexualismo
como doença e o fato se tornar público?
Ana
Se o psicólogo afirmar, no exercício
da profissão ou em um meio de comunicação
de massa, que a homossexualidade é doença
ou fizer qualquer outra afirmação que contribua
com a discriminação e o preconceito, poderá
ser processado e ter seu exercício profissional suspenso.
Pode também ser advertido publicamente. Isso, contudo,
depende de alguém tomar a iniciativa de denunciar
ou de o conselho assumir a denúncia. É uma
falha na profissão considerar a homossexualidade
como doença.
Veja O
que diferencia a discriminação dos psicólogos
em relação aos gays do preconceito do cidadão
comum?
Ana
É muito mais grave. O cidadão comum está
submetido ao senso comum, ao que vigora como moral dominante.
O psicólogo não. Ele pode ter sua convicção
moral e religiosa, mas é um cientista. Tem uma ciência
como instrumento básico de trabalho. E essa ciência
pesquisa e está submetida a regras consensuais no
mundo científico. Ele não pode se deixar guiar
por suas convicções pessoais. Seu papel é
reduzir sofrimentos psicológicos e contribuir para
que as pessoas possam se fortalecer para enfrentar suas
dificuldades, seus conflitos e seu cotidiano. Nesse sentido,
nós temos de combater tudo que for fonte de sofrimento
psicológico nas relações sociais.
Veja O
preconceito contra o homossexualismo está diminuindo?
Ana
Na história da humanidade houve momentos em
que a homossexualidade não foi sequer vista como
problema. Houve períodos nos quais os meninos eram
treinados para a vida sexual com outros homens. E há
outros momentos, como o nazismo, em que se tratou o homossexualismo
como uma doença que precisava ser exterminada. Assim
como os judeus, os gays foram marcados e colocados em campos
de concentração. Normalmente, as pessoas se
referem ao nazismo como se ele tivesse perseguido apenas
os judeus. Não se pode esquecer da perseguição
aos homossexuais. Hoje, as coisas estão muito melhores.
Avançamos porque estamos caminhando na direção
de respeito e aceitação maiores das escolhas
do outro. O diálogo também é maior.
Hoje se fala mais abertamente sobre o assunto. As pessoas
podem até dizer que não acham o homossexualismo
muito legal, elas têm o direito de ter essa opinião.
O direito que elas não têm é de transformar
a diferença entre as pessoas em fonte de preconceito.
Veja O
primeiro passo para o homossexual viver melhor é
assumir publicamente sua identidade sexual?
Ana
Eu diria que sim. Mas não adianta assumir
e querer que o resto se dane. Isso não é sinal
de saúde. O sinal de saúde seria compreender
por que se sofre. Não adianta o homossexual pensar
que a sociedade inteira está errada e ele está
certo. Ele tem de compreender que há uma moral estabelecida.
Que essa moral tem influência histórica de
idéias religiosas que dizem que a homossexualidade
é algo errado. Não é dizendo que a
moral vigente é absurda que se vai resolver a questão.
O homossexual tem de compreender que sua escolha é
de confronto com a moral da sociedade num determinado momento
e vai precisar se esforçar para se fazer aceito com
sua orientação sexual. O "sair do armário"
é uma estratégia de luta pela igualdade e
pelo respeito. Se for entendido assim, é muito bom
sair do armário.
Veja Qual
seria o modo mais indicado de sair do armário?
Ana
O caminho certo, se é possível dizer
que há um caminho certo nessa história, é
compreender que todos nós produzimos aquilo que temos
em nossa cultura. Não há nada que exista em
nosso meio que não tenha sido produzido por nós.
A humanidade criou o conceito de que a normalidade é
a heterossexualidade. Mas, no processo cultural, o homem
desenvolveu outras formas de amor e sexualidade. A homossexualidade
também é um produto da humanidade e jamais
pode ser entendida como aberração. Eu não
nego que possa haver fatores orgânicos e biológicos
envolvidos no homossexualismo. Só não acredito
que as causas sejam só biológicas. Sem dúvida,
é uma construção coletiva que veio
responder às necessidades da humanidade. Para mim,
é um dado de minha cultura.
Veja Se
o homossexualismo é um dado cultural, por que a dificuldade
da maioria em aceitá-lo?
Ana
Não é questão de aceitar ou
não. O homossexualismo existe e está aí.
Há pessoas que são felizes ao fazer essa escolha.
Para ficar mais claro, vou usar o exemplo da violência.
A violência é tomada nas análises sociais
como se fosse algo estranho a todos nós. Como se
tivesse vindo não se sabe de onde. Ora, nós
a produzimos. Temos de compreender o que fizemos para ter
a violência. A comparação é ruim,
de certa forma, porque todos nós sabemos que a violência
é ruim e temos de reduzi-la. A homossexualidade não.
Algumas pessoas acham que temos de extingui-la, outros acham
que qualquer forma de amor vale a pena.
Veja Diante
das dificuldades sociais que enfrenta, não é
mais difícil para o homossexual ser feliz do que
para o heterossexual?
Ana
Em termos de probabilidade, sim. É lutar contra
a maré. A moral dominante não aceita a homossexualidade.
Aceita o machismo, no entanto. As relações
amorosas são complicadas em nossa cultura. Tentamos
combater o machismo porque as mulheres eram propriedade
dos homens e essa relação de amor, na qual
um é dono do outro, é absolutamente ruim.
Impede a construção de uma relação
na qual as duas partes tenham ganhos.
Veja Existe
alguma conduta indicada por psicólogos para os homossexuais
lidarem melhor com sua família, e vice-versa?
Ana
A família tem sempre de buscar respeito e diálogo,
tentar preservar o afeto. Eu sei que é muito difícil.
O indicado é que a família perceba que seu
filho ou filha homossexual não criou alma nova por
causa da orientação sexual. Trata-se daquele
filho que cresceu ali, que fez coisas erradas e certas na
vida. Era levado ou quieto demais, não importa. Foi
amado com todas as suas características e isso precisa
continuar. A família tem uma nova informação
sobre ele, mas não um novo filho. Por outro lado,
temos de reconhecer que a moral dominante está no
olhar do vizinho, no cotidiano. Então, a família
também precisa ser compreendida. O filho não
pode querer que, de repente, o pai passe a aceitar e achar
bonitinha sua condição de homossexual. Juntos,
todos têm de procurar a compreensão.
Veja É
comum os pais se sentirem culpados pelo homossexualismo
do filho. Eles são realmente responsáveis?
Ana
Quando está inconformada, a família
tende a se culpar e buscar razões que tenham levado
o filho a se tornar homossexual. Os pais jogam a culpa um
no outro ou sofrem por acreditar que têm responsabilidade.
Onde erramos? Talvez ninguém tenha cometido erro
algum. Os pais não são obrigados a aceitar
as escolhas dos filhos. Compreender é muito diferente
de aceitar. A família espera que o filho continue
a obra do pai e, no entanto, a maioria faz exatamente o
oposto. Isso causa tristeza, mas não impede os pais
de conviver com os filhos. É bom nunca falar em culpa.
Culpa existe quando alguém obriga outra pessoa a
fazer o que não quer.
Veja Até
que ponto a discriminação afeta o relacionamento
amoroso entre homossexuais?
Ana
Muitos homossexuais optam por não tornar públicos
seus relacionamentos. É um problema, pois a vida
pode se tornar mais difícil e sofrida. Esconder-se
não significa estar protegido, pois se está
sempre sujeito ao preconceito indireto. O homossexual ouve
comentários desrespeitosos, não em relação
a ele em particular, mas a sua identidade sexual de maneira
geral. Como tenta manter a farsa, encontra cada vez maior
dificuldade em ser autêntico nas relações
sociais. Em alguns lugares ele se assume, em outros não.
Vive em dois mundos separados e o risco de esses mundos
se encontrarem é uma fonte permanente de sofrimento
e tensão.
Veja Como
o homossexualismo afeta as relações de trabalho?
Ana
Quem esconde a identidade sexual acaba numa
espécie de mundo subterrâneo que não
contribui para seu avanço profissional. Por exemplo,
quando o diretor da escola descobre que o professor é
gay e o demite. O professor, por ter optado por não
tornar pública sua opção sexual, deixa
de reagir, de denunciar. Torna-se, portanto, cúmplice
do preconceito, ao mesmo tempo que é vítima.
Com isso a sociedade perde a oportunidade de melhorar, pois
ela só avança à medida que enfrenta,
debate e resolve os problemas. A questão não
interessa apenas aos homossexuais. É um assunto que
diz respeito a nossas relações sociais e,
portanto, interessa a todos nós.