Edição 1 646 -26/4/2000

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Da dependência à conectividade

"O problema agora é assegurar que a nação
esteja ligada a essa imensa rede em que se
tornou a economia mundial"

Ilustração: Alê Setti


Muitos especialistas americanos em questões geopolíticas acham que a China jamais vai deixar a internet entrar em suas fronteiras. A grande rede oferece, afinal, o caos e o esplendor da economia de mercado em sua forma mais exacerbada. É a informação e a comunicação sem obstáculos, a interação entre as pessoas e a formação de mercados, tudo isso sem autoridades para atazanar os envolvidos e limitar a livre circulação de idéias e de negócios. Uma sociedade autoritária não pode permitir que esse mecanismo possa fluir sem solapar suas próprias bases de sustentação. Para começar, a internet não comporta censura: como pode um regime não democrático subsistir sem constranger o direito de ir e vir e à informação, justamente o que a internet permite a qualquer um?

Não se trata apenas de informação, mas também da serventia que ela tem para a economia. A instituição básica da economia capitalista é o mercado, que nada mais é que um lugar, real ou virtual, de troca de informações que, uma vez processadas, ensejam transações. A internet torna muito mais eficiente a infra-estrutura de todos os mercados. Mercados que não existiam – porque os custos de coletar e processar as informações pertinentes eram proibitivos – começam a emergir em toda parte. Mercadorias "sem liquidez", como bicicletas usadas e espaços em caminhões, subitamente se vêem transacionadas em mercados virtuais que aparecem em todo lugar, com a facilidade de uma sala de "chat" e a agilidade de uma bolsa de valores. Mercados imperfeitos e cheios de intermediários, corretores e atravessadores começam a funcionar melhor, pois a internet nos livra dessas "impurezas" interpostas entre compradores e vendedores. A indústria fala em "portais verticais", B2B, e coisas desse tipo, mas o substrato econômico é um só: mercados que otimizam a alocação de recursos e fazem a produtividade crescer para todos.

A conectividade ensejada pela internet dá origem a uma espécie de hipercapitalismo que acelera a velocidade das transações, da tecnologia e da circulação de informações. Não é de hoje que se fala em uma aceleração da história. Tudo está acontecendo mais rápido, e por isso mesmo qualquer buraquinho no caminho vai fazer o carro sacudir mais. A volatilidade tem tudo a ver com a velocidade. As piruetas da Nasdaq não devem ofuscar as reais transformações de nosso tempo. A internet poderá democratizar a China, e também torná-la uma economia de mercado, numa velocidade estranha aos hábitos dos chineses, os quais, conforme a velha piada, acham que a Revolução Francesa é um evento ainda muito recente para uma interpretação definitiva.

É interessante notar que há pouco mais de uma década o mundo estava dividido entre superpotências hostis prestes a se destruir. Seus diferentes sistemas econômicos eram separados por muros de arame farpado e, pela periferia, muitas nações, ao mesmo tempo em que perseguiam gente, também perseguiam estratégias econômicas de auto-suficiência e de industrialização à custa da inflação. Durante esses anos de Guerra Fria e estranhamento entre países, as superpotências se falaram algumas vezes naquele velho telefone analógico de cor vermelha e tiveram o bom senso de não apertar os botões errados em momentos de nervosismo. A periferia, por sua vez, foi progredindo, mas gerando, em alguns casos, tanta desigualdade que o próprio desenvolvimento ficou comprometido.

Mas as coisas foram mudando numa velocidade espantosa. O Império Soviético desintegrou-se de forma trágica, enquanto a China luta para fazer uma transição gradual na direção de um mundo que não comporta mais muros, segregações e preconceitos. Numa outra oitava, o Brasil se esforça para fazer reformas nessa mesma direção, ou seja, em vez de autonomia, integração. Em vez da inflação e do Estado como motores do desenvolvimento, a excelência empresarial. E em vez de dependência, o problema passa a ser conectividade, isto é, assegurar que a nação esteja ligada a essa imensa rede em que se tornou a economia mundial e que não será deixada para trás.

Gustavo Franco é economista da PUC-RJ e
ex-presidente do Banco Central (gfranco@palavra.inf.br)