Da dependência à conectividade
"O problema agora é assegurar que a nação
esteja ligada a essa imensa rede em que se
tornou a economia mundial"
Ilustração: Alê
Setti
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Muitos especialistas americanos em questões geopolíticas
acham que a China jamais vai deixar a internet entrar em
suas fronteiras. A grande rede oferece, afinal, o caos e
o esplendor da economia de mercado em sua forma mais exacerbada.
É a informação e a comunicação sem obstáculos, a interação
entre as pessoas e a formação de mercados, tudo isso sem
autoridades para atazanar os envolvidos e limitar a livre
circulação de idéias e de negócios. Uma sociedade autoritária
não pode permitir que esse mecanismo possa fluir sem solapar
suas próprias bases de sustentação. Para começar, a internet
não comporta censura: como pode um regime não democrático
subsistir sem constranger o direito de ir e vir e à informação,
justamente o que a internet permite a qualquer um?
Não se trata apenas de informação, mas também da serventia
que ela tem para a economia. A instituição básica da economia
capitalista é o mercado, que nada mais é que um lugar, real
ou virtual, de troca de informações que, uma vez processadas,
ensejam transações. A internet torna muito mais eficiente
a infra-estrutura de todos os mercados. Mercados que não
existiam porque os custos de coletar e processar as informações
pertinentes eram proibitivos começam a emergir em toda
parte. Mercadorias "sem liquidez", como bicicletas
usadas e espaços em caminhões, subitamente se vêem transacionadas
em mercados virtuais que aparecem em todo lugar, com a facilidade
de uma sala de "chat" e a agilidade de uma bolsa
de valores. Mercados imperfeitos e cheios de intermediários,
corretores e atravessadores começam a funcionar melhor,
pois a internet nos livra dessas "impurezas" interpostas
entre compradores e vendedores. A indústria fala em "portais
verticais", B2B, e coisas desse tipo, mas o substrato
econômico é um só: mercados que otimizam a alocação de recursos
e fazem a produtividade crescer para todos.
A conectividade ensejada pela internet dá origem a uma
espécie de hipercapitalismo que acelera a velocidade das
transações, da tecnologia e da circulação de informações.
Não é de hoje que se fala em uma aceleração da história.
Tudo está acontecendo mais rápido, e por isso mesmo qualquer
buraquinho no caminho vai fazer o carro sacudir mais. A
volatilidade tem tudo a ver com a velocidade. As piruetas
da Nasdaq não devem ofuscar as reais transformações de nosso
tempo. A internet poderá democratizar a China, e também
torná-la uma economia de mercado, numa velocidade estranha
aos hábitos dos chineses, os quais, conforme a velha piada,
acham que a Revolução Francesa é um evento ainda muito recente
para uma interpretação definitiva.
É interessante notar que há pouco mais de uma década o
mundo estava dividido entre superpotências hostis prestes
a se destruir. Seus diferentes sistemas econômicos eram
separados por muros de arame farpado e, pela periferia,
muitas nações, ao mesmo tempo em que perseguiam gente, também
perseguiam estratégias econômicas de auto-suficiência e
de industrialização à custa da inflação. Durante esses anos
de Guerra Fria e estranhamento entre países, as superpotências
se falaram algumas vezes naquele velho telefone analógico
de cor vermelha e tiveram o bom senso de não apertar os
botões errados em momentos de nervosismo. A periferia, por
sua vez, foi progredindo, mas gerando, em alguns casos,
tanta desigualdade que o próprio desenvolvimento ficou comprometido.
Mas as coisas foram mudando numa velocidade espantosa.
O Império Soviético desintegrou-se de forma trágica, enquanto
a China luta para fazer uma transição gradual na direção
de um mundo que não comporta mais muros, segregações e preconceitos.
Numa outra oitava, o Brasil se esforça para fazer reformas
nessa mesma direção, ou seja, em vez de autonomia, integração.
Em vez da inflação e do Estado como motores do desenvolvimento,
a excelência empresarial. E em vez de dependência, o problema
passa a ser conectividade, isto é, assegurar que a nação
esteja ligada a essa imensa rede em que se tornou a economia
mundial e que não será deixada para trás.
Gustavo Franco é economista
da PUC-RJ e
ex-presidente do Banco Central (gfranco@palavra.inf.br)