Edição 1 633 -26/1/2000

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DISCOS

Viola, Fabio Tagliaferri (Ná Records) — Este músico paulista executa um instrumento pouco convencional na MPB: a viola de arco, típica das orquestras. Com ela, acompanhado de conjunto, desfila um repertório inspirado que inclui chorinhos, baiões e baladas. Ao contrário do que fazem muitos instrumentistas ao gravar seus discos-solo, Fabio não cai na tentação do virtuosismo e das intermináveis jam sessions jazzísticas. As faixas têm a medida certa. O som da viola, semelhante ao do violino, porém mais grave e aveludado, empresta originalidade aos arranjos. O disco conta com a participação de Paulinho da Viola, ao violão, em Inesquecível, um choro de sua autoria, e da cantora portuguesa Eugénia Melo e Castro, em Pela Manhã.

Radamés Gnattali (Som Livre) — O maestro gaúcho Radamés Gnattali (1906-1988) costuma ser lembrado por sua atuação na MPB. Ele fez um arranjo antológico de Aquarela do Brasil e trabalhou com Pixinguinha. Mas Radamés também é dono de um respeitável currículo na área erudita. Compôs sinfonias, cantatas e sonatas, sempre exaltando temas brasileiros. Este álbum, lançado originalmente em 1976, mostra a qualidade de seu trabalho erudito. São quatro faixas. A melhor delas é Bate Papo, uma sonata inspirada no ritmo do choro. Maria de Jesus dos Anjos é uma cantata grandiosa, com coral e narração do ator Milton Gonçalves, que exalta os deuses da umbanda. Já a Sonatina Coreográfica, composta especialmente para um balé, tem melodia dolente. Bem que a gravadora poderia ter um pouco mais de cuidado com seu produto: a capa original foi substituída por uma ilustração horrorosa e, na lombada do CD, o maestro foi rebatizado, acredite-se, de Gnattah.

The Sounds of Science, Beastie Boys (Grand Royal/EMI) — Nos anos 80, quando a simples menção do nome "rap" provocava urticária na maioria dos roqueiros, os Beastie Boys inovaram. O trio de Nova York fundiu as batidas primais do rap com solos de guitarra e bateria típicos do rock. O grupo começou assumindo uma postura insolente, escrevendo letras machistas e excursionando ao lado da cantora Madonna (eles já se arrependeram disso), para depois se reinventar a cada lançamento. Os três músicos namoraram o jazz, a música latina e hoje estão apaixonados pela MPB de Tom Jobim e Jorge Ben Jor — influência de seu produtor, que é brasileiro. Esta coletânea, em dois CDs, mostra todas as fases do conjunto. É certo que a fusão de diferentes gêneros musicais é praticada por boa parte dos artistas do pop atual. No entanto, The Sounds of Science mostra que poucos se igualam aos Beastie Boys em criatividade.

LIVRO

Pequenas Infâmias, de Carmen Posadas (tradução de Claudia Schilling; Objetiva; 291 páginas; 29 reais) — Dizem que o melhor romance de mistério é aquele que não se afasta muito das fórmulas consagradas. Carmen Posadas parece saber disso. Seu livro já começa com morte. Durante um fim de semana, na casa de um rico colecionador de arte, o cozinheiro é assassinado numa câmara frigorífica. Há vários suspeitos, todos personagens curiosos com alguma culpa no cartório. A autora mantém o enigma até as páginas finais. Mas ela ainda acrescenta alguns ingredientes à receita do gênero: pitadas de crítica social, humor apurado e mudanças constantes de foco narrativo, que dão um toque de modernidade ao texto. Nascida no Uruguai em 1953 e radicada na Espanha desde a infância, Carmen bateu recordes de venda com este romance e, em 1998, ganhou o Prêmio Planeta, um dos mais importantes da literatura espanhola.

TELEVISÃO

Especial Tina Turner (quinta-feira, às 22h, no Fox) — O show em que a grande dama da música negra comemorou seus 60 anos, no final de 1998, foi gravado pela BBC inglesa e transformado neste especial. Convidados ilustres, como o cantor Bryan Adams, cantam Parabéns a Você e fazem duetos com a homenageada. Tina, como em todas as suas apresentações, domina o palco como um furacão. Interpreta seus maiores sucessos, como What's Love Got to Do With It e River Deep, Mountain High. A cantora, há pouco, anunciou sua aposentadoria. Como mostra o programa, será uma perda para o universo pop.

FILME

Divulgação
Whitaker,
em Ghost Dog:
assassino zen


Ghost Dog
(Ghost Dog — The Way of the Samurai, Estados Unidos, Alemanha, França, 1999, em cartaz no Rio de Janeiro) — O diretor Jim Jarmusch, de Estranhos no Paraíso e Uma Noite sobre a Terra, volta ao seu tema predileto: os excluídos da sociedade. Nesta fita policial atípica, o protagonista é um assassino profissional (Forest Whitaker), cujo método de trabalho baseia-se num livro japonês sobre a honra dos samurais. Ele é um matador zen, que não faz estardalhaço e leva seu isolamento ao extremo. Com seus clientes — a máfia italiana —, ele se comunica por meio de mensagens levadas por um pombo-correio. O filme é um exercício sobre a incomunicabilidade na vida moderna e sobre a estranha ética que pode florescer no cotidiano de quem já perdeu as esperanças.