O imigrante e o turista
"A febre
amarela voltou às
nossas plagas. E lá vamos nós, mais uma vez,
nos beneficiar dos melhoramentos induzidos por esta nova
fase de globalização"
Ilustração Alê
Setti
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Causou surpresa o estudo
da Organização das Nações Unidas,
ONU, citado na edição de VEJA de 12 de janeiro,
que aponta a necessidade de aumentar o fluxo de imigrantes
para a Europa, em resposta ao declínio da natalidade
e ao avanço dos direitos sociais dos europeus. Segundo
a ONU, para manter as vantagens sociais de seus assalariados,
entre as quais a diminuição da idade de aposentadoria
e a redução da jornada de trabalho, a Europa
teria de acolher cerca de 159 milhões de estrangeiros
nos próximos 25 anos. O título do editorial
do jornal conservador parisiense Le Figaro exprimiu
uma reação irritada: "A provocação
da ONU". De fato, para boa parte da opinião francesa
e européia, a perspectiva de um afluxo da imigração
não européia aparece como uma ameaça
à nacionalidade. No Brasil, e nas Américas
em geral, a atitude em face da imigração é
diferente.
É verdade que
a imigração de africanos livres, eventualmente
subvencionada pelos fazendeiros fluminenses, foi vetada
pelo Império e que os asiáticos tiveram de
esperar a proclamação da República
para começar a desembarcar em Santos. Contudo, o
maior entrave à imigração para o Brasil
oitocentista vinha de duas circunstâncias distintas:
a febre amarela e a truculência das relações
trabalhistas num país marcado pela escravidão.
Assim, a pressão dos cônsules europeus em defesa
de seus cidadãos amarrados ao eito de fazendeiros
inescrupulosos aparece como um dos fatores responsáveis
pela melhoria das relações trabalhistas brasileiras.
A tal ponto que Oswald de Andrade dizia, criticando a atitude
passiva das autoridades paulistas diante dos abusos dos
patrões, quando os migrantes do Nordeste começaram
a substituir os estrangeiros no mercado de trabalho: "O
problema dos nordestinos é que eles não têm
um cônsul em São Paulo". Da mesma forma, um
dos motivos que levaram as autoridades a sanear as cidades
portuárias, principalmente Rio e Santos, foi fazer
cessar a alta mortalidade causada pela febre amarela, fator
dissuasivo da imigração. Atacados pelos sanitaristas,
os mosquitos transmissores do mal desapareceram no século
XX, e os portos brasileiros viraram um destino tão
sadio quanto os da Argentina para os imigrantes.
Escusado dizer que
todos os brasileiros também se beneficiaram da extinção
da febre amarela e do progresso da legislação
trabalhista. Agora, nos albores do século XXI, a
febre amarela voltou às nossas plagas, ameaçando
o turismo, afluxo de estrangeiros que forma um movimento
muito mais volátil e bem mais rentável, pelo
menos no curto prazo, que a imigração de outrora.
Lá vamos nós,
mais uma vez, nos beneficiar dos melhoramentos induzidos
por esta nova fase de globalização. O primeiro
alerta, com cifras e tudo, veio do município de Alto
Paraíso (Goiás), lugar de peregrinação
de místicos e esotéricos: o surgimento da
febre amarela provocou redução de 90% no número
de turistas e queda de 80% no comércio local. Sem
nenhum misticismo particular, os turistas nacionais e estrangeiros
que gostam do Carnaval brasileiro podem provocar uma recuada
parecida nas estatísticas do Rio e da Bahia se a
febre amarela se disseminar nessas regiões. Parece
claro que as autoridades fluminenses e baianas têm
todo o interesse em exterminar a casta de mosquitos que
cruzam os ares dessas belas paragens.
Da mesma forma, diante
dos desastres com ônibus argentinos, é óbvio
que as autoridades catarinenses envidarão esforços
para melhorar as estradas regionais. Várias outras
coisas (respeito à travessia dos pedestres, cuidados
nos parques aquáticos, segurança pública)
podem melhorar, com benefício para todos os brasileiros,
quando as agências estrangeiras de turismo começarem
a chiar. Até a próxima globalização.
Ou até que as agências governamentais nacionais
se sintam obrigadas a tratar os cidadãos brasileiros
com o mesmo cuidado que devem reservar aos turistas estrangeiros.
Luiz Felipe
de Alencastro é historiador (lfa@workmail.com)