Edição 1 633 -26/1/2000

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O imigrante e o turista

"A febre amarela voltou às nossas plagas. E lá vamos nós, mais uma vez, nos beneficiar dos melhoramentos induzidos por esta nova fase de globalização"


Ilustração Alê Setti

Causou surpresa o estudo da Organização das Nações Unidas, ONU, citado na edição de VEJA de 12 de janeiro, que aponta a necessidade de aumentar o fluxo de imigrantes para a Europa, em resposta ao declínio da natalidade e ao avanço dos direitos sociais dos europeus. Segundo a ONU, para manter as vantagens sociais de seus assalariados, entre as quais a diminuição da idade de aposentadoria e a redução da jornada de trabalho, a Europa teria de acolher cerca de 159 milhões de estrangeiros nos próximos 25 anos. O título do editorial do jornal conservador parisiense Le Figaro exprimiu uma reação irritada: "A provocação da ONU". De fato, para boa parte da opinião francesa e européia, a perspectiva de um afluxo da imigração não européia aparece como uma ameaça à nacionalidade. No Brasil, e nas Américas em geral, a atitude em face da imigração é diferente.

É verdade que a imigração de africanos livres, eventualmente subvencionada pelos fazendeiros fluminenses, foi vetada pelo Império e que os asiáticos tiveram de esperar a proclamação da República para começar a desembarcar em Santos. Contudo, o maior entrave à imigração para o Brasil oitocentista vinha de duas circunstâncias distintas: a febre amarela e a truculência das relações trabalhistas num país marcado pela escravidão. Assim, a pressão dos cônsules europeus em defesa de seus cidadãos amarrados ao eito de fazendeiros inescrupulosos aparece como um dos fatores responsáveis pela melhoria das relações trabalhistas brasileiras. A tal ponto que Oswald de Andrade dizia, criticando a atitude passiva das autoridades paulistas diante dos abusos dos patrões, quando os migrantes do Nordeste começaram a substituir os estrangeiros no mercado de trabalho: "O problema dos nordestinos é que eles não têm um cônsul em São Paulo". Da mesma forma, um dos motivos que levaram as autoridades a sanear as cidades portuárias, principalmente Rio e Santos, foi fazer cessar a alta mortalidade causada pela febre amarela, fator dissuasivo da imigração. Atacados pelos sanitaristas, os mosquitos transmissores do mal desapareceram no século XX, e os portos brasileiros viraram um destino tão sadio quanto os da Argentina para os imigrantes.

Escusado dizer que todos os brasileiros também se beneficiaram da extinção da febre amarela e do progresso da legislação trabalhista. Agora, nos albores do século XXI, a febre amarela voltou às nossas plagas, ameaçando o turismo, afluxo de estrangeiros que forma um movimento muito mais volátil e bem mais rentável, pelo menos no curto prazo, que a imigração de outrora.

Lá vamos nós, mais uma vez, nos beneficiar dos melhoramentos induzidos por esta nova fase de globalização. O primeiro alerta, com cifras e tudo, veio do município de Alto Paraíso (Goiás), lugar de peregrinação de místicos e esotéricos: o surgimento da febre amarela provocou redução de 90% no número de turistas e queda de 80% no comércio local. Sem nenhum misticismo particular, os turistas nacionais e estrangeiros que gostam do Carnaval brasileiro podem provocar uma recuada parecida nas estatísticas do Rio e da Bahia se a febre amarela se disseminar nessas regiões. Parece claro que as autoridades fluminenses e baianas têm todo o interesse em exterminar a casta de mosquitos que cruzam os ares dessas belas paragens.

Da mesma forma, diante dos desastres com ônibus argentinos, é óbvio que as autoridades catarinenses envidarão esforços para melhorar as estradas regionais. Várias outras coisas (respeito à travessia dos pedestres, cuidados nos parques aquáticos, segurança pública) podem melhorar, com benefício para todos os brasileiros, quando as agências estrangeiras de turismo começarem a chiar. Até a próxima globalização. Ou até que as agências governamentais nacionais se sintam obrigadas a tratar os cidadãos brasileiros com o mesmo cuidado que devem reservar aos turistas estrangeiros.

Luiz Felipe de Alencastro é historiador (lfa@workmail.com)