Fotos: Alfredo Franco

A geração que fez a revolução
sexual
está pasma com a precocidade e a
liberdade da vida amorosa de seus
filhos. Poucos sabem como lidar
com a primeira vez dos adolescentes
Juliana De Mari
Joel Rocha
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"Como pais temos de nos preparar
e dar espaço para o diálogo. Sabemos
que os filhos, um dia, vão aprender
a andar de bicicleta. O mesmo acontece com a primeira
transa."
Irone Magnini, com os filhos e
o marido, em Curitiba
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Desde que o mundo é mundo, pais e mães têm sempre um palpite
a dar em cada etapa da vida dos filhos. Nesta virada de
milênio, talvez pela primeira vez na história, eles estão
atônitos e sem palavras diante de um momento crucial: a
iniciação sexual dos adolescentes. A precocidade e a liberalidade
com que a garotada está se iniciando na vida amorosa são
mesmo de tirar o fôlego de qualquer adulto. Os adolescentes
de hoje são filhos da geração que se casou no final da década
de 70. Na época estavam em alta o relacionamento liberal,
o sexo livre e a contestação à ordem social. É gente que
deu liberdade aos filhos, mas não incluiu no pacote um modelo
de comportamento sexual. Mães e pais estão confusos, preocupados
e tão carentes de modelo quanto os próprios filhos. Algumas
pistas de como os pais podem agir assim como uma
idéia mais clara de como a garotada lida com a delicada
questão da perda da virgindade estão surgindo de
uma enxurrada de estudos sobre a sexualidade. Esses levantamentos
nos informam que o mais surpreendente sinal dos tempos não
é a idade em que acontece a iniciação, mas onde: na casa
da família. Entende-se daí o tamanho da confusão. A juventude
já percebeu que sua vida sexual pode contar, de uma forma
ou de outra, com a cumplicidade dos pais.
Selmy Yassuda
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"Tinha 15 anos e já pintavam uns
climas com a menina com quem
eu estava 'ficando'. Fui falar com
a minha mãe. Tomei coragem e
perguntei como era fazer sexo."
Alair Ferreira, 18 anos, estudante
carioca
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Do ponto de vista cultural, a mudança é profunda, quase
revolucionária. Até bem pouco tempo atrás, a iniciação do
garoto se dava com prostitutas e a da garota com o marido
na noite de núpcias. Hoje, como regra geral, a primeira
relação sexual ocorre entre namorados que mantêm um relacionamento
estável e o local predileto é o quarto do garoto, quando
os pais estão ausentes. Ouve-se falar bastante e
sempre em tom de alarme que os adolescentes estão
começando a vida sexual mais e mais cedo. Não é bem assim.
A idade da primeira vez (15 anos para meninas, 17 para os
garotos, em média, segundo a Sociedade Brasileira de Sexualidade
Humana) é apenas um ano menor que a registrada nos anos
80. No tempo de nossas avós era comum as mocinhas se casarem
e terem filhos aos 15 anos. A diferença é que casavam primeiro
e conheciam o sexo depois. A alteração dessa ordem acontecia
acidentalmente, mas o tabu era tamanho que poucas moças
chegavam a quebrá-lo. Quando o faziam, corriam o risco de
ser expulsas de casa pelo pai.
O
sexo, naquela sociedade tão diferente mas ainda tão perto
de nós, era totalmente vinculado ao casamento. Temos aí
mais uma reviravolta. A vida sexual ativa dos adolescentes
de hoje se dá de acordo com uma modalidade que o ginecologista
Nelson Vitiello chama de "monogamia temporária".
Significa relacionamento estável e fidelidade, mas não envolve
compromissos de longo prazo. O garoto dorme com a namorada
e tem o apoio explícito dos pais e amigos. A menina, embora
não receba tanta aprovação da família, já não corre o risco
de ser espancada porque fez sexo fora do casamento. Ao contrário,
para muitos pais é motivo de alívio saber que se trata de
um namoradinho conhecido e sadio. Pais tranqüilos? Mais
honesto é dizer que se resignaram ao mal menor.
Edison Vara
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"Conversei muito
com meu namorado
antes de transar.
Como tinha dúvidas,
procurei um médico.
Eu me senti segura e
pensei: chegou a hora."
Laura Soares da Silva,
15 anos, estudante,
de Blumenau
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Os pais adorariam encontrar a linha de equilíbrio entre o
direito dos filhos à sexualidade e a inclinação dos adultos
a adiar a perda da virgindade dos jovens. Mas, infelizmente,
isso não existe. No passado, a iniciação sexual era conduzida
de acordo com regras bem estabelecidas e a família se preocupava
com a maneira como seus rebentos iam ser vistos na sociedade.
A questão moral está hoje obscurecida por inquietações sobre
o impacto do sexo na qualidade de vida do adolescente. O grande
vilão da liberdade amorosa dos jovens desta geração se chama
sexo desprotegido. A pergunta que martela a insônia dos pais
é como o adolescente vai proteger-se do parceiro errado e
das conseqüências de uma primeira vez mal planejada. Os perigos
são reais. Desde 1982, foram diagnosticados mais de 20 000
casos de Aids entre adolescentes. Mais próximo da realidade
das famílias de classe média está o pesadelo da gravidez indesejada.
Um bebê fora de hora é o fim da autonomia e dos planos da
juventude, além de se transformar quase sempre num fardo para
os avós. Há um paradoxo nesse assunto, que só os hormônios
a mil e a impetuosidade natural da idade podem explicar. Nunca
uma geração esteve tão bem informada sobre métodos anticoncepcionais
e a necessidade de proteção contra doenças sexualmente transmissíveis.
Os números a cada ano nasce 1 milhão de filhos de mães
adolescentes no Brasil mostram que nem por isso tomam
os cuidados necessários.
A
modelo paulistana Daniele Gomes, de 17 anos, teve sua filha
Nathalia no final de 1997. Ela engravidou de seu primeiro
namorado, um rapagão de 20 anos com quem se relacionava
já havia quase três. Ambos eram virgens e a primeira vez
ocorreu seis meses depois dos primeiros beijos. Foi no quarto
dele, num fim de semana em que a família viajou. "Nós
tínhamos aquele pensamento mágico de que nada iria acontecer
com a gente", diz Daniele. Seu pai, José Evangelista
Gomes, só soube que seria avô quando o barrigão apareceu.
"Caí das nuvens", desabafa. "Sempre fomos
muito liberais, falávamos de sexo com liberdade, sempre
orientamos nossa filha. Como pôde acontecer?" Da mesma
forma que não há receita infalível para transformar os filhos
em pessoas felizes e bem-sucedidas, não existe padrão para
encaminhá-los sem riscos pelos meandros do sexo. O mais
comum é que se repita a velha fórmula da conversa séria
de pai para filho, ou de mãe para filha, em que o adulto
constrangido dá uma noção geral e insossa de como funciona
a reprodução das espécies, quando o que está interessando
o jovem é o romance, o desconhecido, a aventura, a paixão,
o calafrio que percorre o corpo ao ver aquela pessoa especial.
Os pais também costumam falar de Aids, camisinha e, ufa,
vamos mudar de assunto. A conversa solene é um erro, pois
normalmente assusta e inibe o jovem. Há também os pais que
vão se aproximando como quem não quer nada, para sondar
se o filho ou filha está transando ou não. Alguns tratam
de criar um clima de cumplicidade forçada. Outros fingem
que não sabem de nada,
como
se isso fosse fazer o problema sumir. Não vai, pois a primeira
vez dos filhos vai ocorrer independentemente da vontade
de papai e mamãe. E eles só saberão depois, se por acaso
vierem a saber, porque o segredo é a regra. O bom senso
recomenda que os pais tratem a questão com naturalidade
desde a infância e estejam disponíveis para conversar, se
os filhos quiserem. Mas nunca devem impor o assunto, pois
os adolescentes prezam acima de tudo a própria intimidade.
Os pais precisam aceitar, por mais doloroso que pareça,
que a decisão não é deles. "Estão tendo de engolir
a vida sexual dos filhos de qualquer jeito, às vezes à custa
de muito anti-ácido", diz o psicoterapeuta Moacir Costa,
autor de vários livros sobre sexualidade.
Ana Araújo
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Morgado/Ed.
Símbolo
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"Meus pais sempre
me orientaram sobre sexo. Sabia como acontecia, passei
por vários sustos e não me cuidei. Minha gravidez aconteceu
por pura irresponsabilidade. "
Daniele Gomes, 17 anos, mãe de
Nathalia
(à dir., grávida, em 1997)
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O que passa na cabeça da princesinha do papai na hora de
tirar a roupa diante do namorado pela primeira vez? É mais
fácil dizer o que não passa na cabeça dela. Estudos mais
antigos registravam um grau maior de fantasia e uma enorme
disposição feminina de conservar a virgindade à espera de
um grande amor. Levantamentos atuais mostram que a adolescente
encara a vida afetiva de modo bem mais pragmático. Em geral,
ela perde a virgindade com um namorado firme, por quem tem
afeto e confiança e, evidentemente, atração física.
Seis meses de namoro é considerado tempo adequado para iniciar
a vida sexual. Diferentemente do que pode ter ocorrido com
suas mães, o sexo não é uma bandeira de rebeldia, mas é
visto como uma etapa natural num namoro. "A garotada
encara a primeira vez como algo inevitável no desenvolvimento
de qualquer pessoa", diz a psiquiatra Carmita Abdo,
coordenadora do Projeto Sexualidade da Universidade de São
Paulo. "A maioria está até consciente de que não será
grande coisa, porque vão estar nervosos, ansiosos e, evidentemente,
porque são inexperientes." De onde a meninada tira
tanta desenvoltura para lidar com o sexo?
A
televisão, o cinema, a imprensa, a propaganda inundam o
cotidiano dos jovens com apelos sexuais jamais vistos por
outra geração. É daí que nasce a fantasia de que toda transa
é maravilhosa. Se o adolescente se deixa influenciar por
esse bombardeio, poderá ter decepções na vida real. Mas
paradoxalmente a fantasia, alimentada pelos meios de comunicação,
é contrabalançada até certo ponto pela experiência prática
que os jovens tiram dos namoricos quentes que entraram na
moda nos últimos anos da década de 90. "A iniciação
sexual hoje tem menos fantasmas que a de gerações anteriores
porque está começando no ficar", opina Tania
Zagury, educadora especializada em adolescentes da Universidade
Federal do Rio de Janeiro. Etapa intermediária entre a paquera
e o namoro, "ficar" permite aos jovens liberdades
que a geração de seus pais só desfrutavam numa fase avançada.
"Eles conhecem as sensações de prazer e isso os empurra
com mais facilidade para a relação sexual", diz Moacir
Costa. "Os jovens aprendem como despertar o desejo
e vencem as inibições antes mesmo da transa em si."
Assim, os adolescentes chegam à primeira vez mais bem preparados
que os das gerações anteriores. Nada disso garante uma estréia
sexual de filme de Hollywood. Uma pesquisa da Secretaria
de Estado da Saúde de São Paulo notou que apenas uma em
cada cinco garotas sente prazer na primeira vez. A paulistana
Carolina Piza, 18 anos, perdeu a virgindade aos 15, com
o primeiro namorado, e lembra bem da decepção. Durante cinco
meses, ela percorreu o caminho da intimidade crescente que
vai de pegar na mão às carícias mais íntimas e se julgou
pronta para o grande salto. "Tive a impressão de que
se faz a maior propaganda de uma coisa que não corresponde
à realidade", diz. "Fiquei com medo de que fosse
sempre assim. Na segunda vez, felizmente, foi bem melhor."
Eugenio Sávio
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"Era o réveillon de 1997. Tinha muita curiosidade
sobre a primeira vez e estava apaixonada. Ficamos
sozinhos na casa dele. Não foi ruim, mas também não
foi nenhuma maravilha. "
Arislana Brito, 18 anos,
Nova Lima, Minas Gerais
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Carolina está autorizada a levar o namorado para dormir em
casa. "Permitir que minhas filhas tragam os namorados
para cá é uma forma de proteção, de mantê-las a salvo da rua
violenta", diz sua mãe, Edit. O pai, Antonio Sérgio,
diz que se incomoda menos em encontrar um rapaz desconhecido
no café da manhã do que com o jeito descontraído com que os
jovens aparentam encarar o sexo. "Parece que virou brincadeira",
pondera. A atitude da família Piza, que permitiu às filhas
dormir com os namorados dentro de casa, tornou-se comum. Os
pais têm a esperança de que seja mais fácil controlar a vida
sexual de seus filhos se ela ocorrer nos limites domésticos.
Nas gerações anteriores, seria necessário armar uma operação
de guerra para transar em casa. Pesquisa conduzida pela Sociedade
Brasileira de Sexualidade Humana verificou que 33% dos meninos
e 25% das meninas iniciam sua vida sexual tendo como cenário
o próprio quarto. Apenas 10% dos meninos transam pela primeira
vez em motéis. O carro, o ícone sexual por excelência de gerações
anteriores, fica somente com 6%.
A dona de casa Irone Magnini, de Curitiba, sempre procurou
tratar com naturalidade assuntos espinhosos, como sexo,
com os filhos Mayron, 18 anos, e Markyan, 16. O mais velho
viu uma camisinha pela primeira vez aos 5 anos, quando manifestou
curiosidade sobre o assunto. "A primeira transa é tão
natural quanto a primeira volta de bicicleta", resume
Irone. Mayron optou por ter uma iniciação sexual à moda
tradicional. O pai, o advogado Marlus, pagou uma prostituta
pelo serviço. "A pressão dos amigos era tremenda. Eu
era o único virgem da turma", diz Mayron. "Foi
bom, mas não é uma experiência que gostaria de repetir ou
recomendar." O caçula Markyan já decidiu que sua primeira
vez será com uma namorada, "uma pessoa legal".
O carioca Alair Ferreira, 18 anos, quando determinou que
era chegada sua vez, há três anos, consultou a mãe. "Ela
me perguntou se não era muito cedo, conversamos e chegamos
à conclusão de que o legal é a transa acontecer com alguém
que tenha a ver com a gente." Está se generalizando
o conceito de que a mulher
tem
o mesmo direito dos homens de fazer sexo antes do casamento,
mas nenhuma menina deve esperar que papai aplique essa regra
com entusiasmo. Quando se trata de filhas, o recado é quase
sempre "não tem pressa". Os pais têm razão, porque
é para a menina que sobra a gravidez indesejada. Ela também
está mais suscetível às doenças sexualmente transmissíveis.
Bem comum é a mãe, diante da inevitabilidade da iniciação
sexual da filha, levá-la ao ginecologista para uma sessão
de conselhos práticos. A maioria das meninas, porém, prefere
evitar as indiscrições do médico conhecido da família e
procurar alguém recomendado pelas amigas. A estudante gaúcha
Laura Soares da Silva, 15 anos, que vive em Blumenau, sempre
conversou abertamente com os pais sobre sexo. Se sobrava
alguma dúvida, esmiuçava os detalhes em livros especializados
e revistas femininas. Em julho do ano passado, dois meses
depois de começar a namorar um colega de sala de aula, Laura
procurou ajuda profissional. O casalzinho havia decidido
transar e não estava seguro de como prevenir a gravidez.
"Depois de conversar com a médica, fiquei mais tranqüila
e tomei a primeira pílula quando saí do consultório",
conta Laura. A primeira transa foi na casa dela e a pílula
foi reforçada com o uso da camisinha. "Não havia por
que impedi-la de dormir com o namorado", avalia a mãe,
Maria Iderna Ramires. "Quando eu tinha a idade dela,
isso acontecia com muita culpa. Não queria que a minha filha
fizesse nada escondido." A trajetória da mineira Arislana
Brito, 18 anos, seguiu por caminhos diferentes. A primeira
experiência aconteceu numa noite de réveillon na casa do
namorado, há dois anos. A mãe, Elizete, só soube no ano
passado, quando Arislana engravidou de outro namorado.
"Fiquei
chocada. Na minha época, se uma moça transasse com o namorado,
ficasse grávida ou não, tinha de casar", diz Elizete.
Ela deu à filha a mesma educação conservadora que recebeu
dos pais e hoje se arrepende de não ter conversado sobre
sexo em casa. Apesar do susto, deu total apoio à filha.
"Não tive escolha. Afinal, os tempos são outros e casar
virgem faz parte do passado." No que vai dar isso tudo?
São mais de 32 milhões de jovens entre 15 e 24 anos no Brasil,
criando novas regras para um jogo eterno. Alguns são maduros
para jogar no primeiro time. Procuram ajuda profissional,
usam preservativos e conversam com os pais. A maioria não
está nem aí. Os pais, bem, os pais estão preocupados.
Com reportagem de Rodrigo
Vieira da Cunha, de Porto Alegre,
Daniella Camargos, de Belo Horizonte, Rachel
Verano, de Curitiba, Pablo Nogueira, de São
Paulo