Doença em campo
O jogador de futebol Narciso, exemplo de
saúde, se prepara para enfrentar a leucemia
Alexandre Battibugli
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Narciso: as vantagens
do condicionamento
físico e de
exames
periódicos
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O meia Narciso, do Santos, enfrentou a jogada mais difícil
de sua carreira no início do mês. Depois de
treinar com seus companheiros na manhã do dia 4,
uma terça-feira, em Atibaia, onde o time estava concentrado,
o jogador voltou a Santos para ter uma conversa com os médicos
do clube. Ficou sabendo então que os exames de rotina
que fizera uma semana antes tinham constatado que estava
com leucemia, um tipo de câncer que afeta a produção
de sangue da pessoa e que, na forma aguda, pode matar. Narciso
ficou chocado. "Por que eu, se até agora mesmo estava
treinando normalmente, se não sinto nada?", disse
ele aos médicos. O jogador, que já fez dezenove
partidas com a camisa da seleção, é
realmente um modelo de saúde e vigor físico.
Mas não havia dúvidas. Os exames, refeitos
e analisados por especialistas, indicavam uma quantidade
excessiva de glóbulos brancos, o que denuncia a doença.
Doenças como a leucemia, que afetam uma em cada
10.000 pessoas, não escolhem
paciente. Giba, jogador de vôlei do Minas e da seleção
brasileira, teve a enfermidade quando era criança,
livrou-se dela e de qualquer seqüela. Uma das vítimas
de câncer mais conhecidas no mundo foi Jeff Blatnick,
atleta de luta greco-romana dos Estados Unidos. Em 1982,
Blatnick descobriu que estava doente. Tratou-se, e dois
anos depois estava na arena de lutas das Olimpíadas
de Los Angeles para ganhar a medalha de ouro. A vantagem
dos atletas está no condicionamento físico
privilegiado para enfrentar a enfermidade. Narciso foi beneficiado
também pelo fato de a leucemia ter sido detectada
em estágio inicial, graças a um exame de sangue
que, como jogador profissional, costuma fazer a cada seis
meses.
Um dia depois de receber a notícia, Narciso adotou
cuidados preventivos, para baixar a taxa de glóbulos
brancos do sangue. O tratamento definitivo implica a substituição
da medula dos ossos. Não confundir a medula óssea
com a medula espinhal, que é o feixe nervoso que
percorre a coluna vertebral. Narciso poderia esperar até
um ano para fazer o transplante, sem correr riscos adicionais.
"Se quisesse, continuaria jogando", diz o médico
do Santos, Jorge Merouço. "O único inconveniente
seria de ordem psicológica."
O
jogador prefere fazer logo o transplante. Para isso contará
com a colaboração de um de seus cinco irmãos,
entre os quais é boa a chance de encontrar um doador
geneticamente compatível. O transplante é
um procedimento simples, semelhante a uma transfusão
de sangue (veja quadro). Narciso poderá ir
a Seattle, nos Estados Unidos, o centro pioneiro da técnica
no mundo. Outra opção é São
Paulo, onde a proximidade da família e dos amigos
tornará mais suportável a internação,
que pode passar de dois meses. "No Brasil temos vários
hospitais e médicos capacitados para fazer esse tipo
de transplante", diz Frederico Dulley, chefe da Unidade
de Transplante de Medula Óssea do Hospital das Clínicas.
A cada ano são realizados 20.000
em todo o mundo. O tratamento é eficiente, mas doloroso.
Com 26 anos de idade, Narciso certamente voltará
aos gramados, mas não antes de um ano. "Sofri muito,
mas hoje levo uma vida absolutamente normal", diz o economista
Carlos Vitor Baptista, 55 anos, que passou pelo transplante
há nove anos e preside uma associação
de apoio a transplantados.