Edição 1 633 -26/1/2000

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Doença em campo

O jogador de futebol Narciso, exemplo de
saúde, se prepara para enfrentar a leucemia

 
Alexandre Battibugli

Narciso: as vantagens
do
condicionamento
físico e de exames
periódicos

O meia Narciso, do Santos, enfrentou a jogada mais difícil de sua carreira no início do mês. Depois de treinar com seus companheiros na manhã do dia 4, uma terça-feira, em Atibaia, onde o time estava concentrado, o jogador voltou a Santos para ter uma conversa com os médicos do clube. Ficou sabendo então que os exames de rotina que fizera uma semana antes tinham constatado que estava com leucemia, um tipo de câncer que afeta a produção de sangue da pessoa e que, na forma aguda, pode matar. Narciso ficou chocado. "Por que eu, se até agora mesmo estava treinando normalmente, se não sinto nada?", disse ele aos médicos. O jogador, que já fez dezenove partidas com a camisa da seleção, é realmente um modelo de saúde e vigor físico. Mas não havia dúvidas. Os exames, refeitos e analisados por especialistas, indicavam uma quantidade excessiva de glóbulos brancos, o que denuncia a doença.

Doenças como a leucemia, que afetam uma em cada 10.000 pessoas, não escolhem paciente. Giba, jogador de vôlei do Minas e da seleção brasileira, teve a enfermidade quando era criança, livrou-se dela e de qualquer seqüela. Uma das vítimas de câncer mais conhecidas no mundo foi Jeff Blatnick, atleta de luta greco-romana dos Estados Unidos. Em 1982, Blatnick descobriu que estava doente. Tratou-se, e dois anos depois estava na arena de lutas das Olimpíadas de Los Angeles para ganhar a medalha de ouro. A vantagem dos atletas está no condicionamento físico privilegiado para enfrentar a enfermidade. Narciso foi beneficiado também pelo fato de a leucemia ter sido detectada em estágio inicial, graças a um exame de sangue que, como jogador profissional, costuma fazer a cada seis meses.

Um dia depois de receber a notícia, Narciso adotou cuidados preventivos, para baixar a taxa de glóbulos brancos do sangue. O tratamento definitivo implica a substituição da medula dos ossos. Não confundir a medula óssea com a medula espinhal, que é o feixe nervoso que percorre a coluna vertebral. Narciso poderia esperar até um ano para fazer o transplante, sem correr riscos adicionais. "Se quisesse, continuaria jogando", diz o médico do Santos, Jorge Merouço. "O único inconveniente seria de ordem psicológica."

O jogador prefere fazer logo o transplante. Para isso contará com a colaboração de um de seus cinco irmãos, entre os quais é boa a chance de encontrar um doador geneticamente compatível. O transplante é um procedimento simples, semelhante a uma transfusão de sangue (veja quadro). Narciso poderá ir a Seattle, nos Estados Unidos, o centro pioneiro da técnica no mundo. Outra opção é São Paulo, onde a proximidade da família e dos amigos tornará mais suportável a internação, que pode passar de dois meses. "No Brasil temos vários hospitais e médicos capacitados para fazer esse tipo de transplante", diz Frederico Dulley, chefe da Unidade de Transplante de Medula Óssea do Hospital das Clínicas. A cada ano são realizados 20.000 em todo o mundo. O tratamento é eficiente, mas doloroso. Com 26 anos de idade, Narciso certamente voltará aos gramados, mas não antes de um ano. "Sofri muito, mas hoje levo uma vida absolutamente normal", diz o economista Carlos Vitor Baptista, 55 anos, que passou pelo transplante há nove anos e preside uma associação de apoio a transplantados.