A guerrilheira
A brasileira do Greenpeace na luta contra
os
japoneses que caçam baleias na Antártica
Ricardo Villela
Fotos: divulgação

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Cristina, a bordo do MV
Arctic Sunrise:
"Missão importante
e emocionante"
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A bióloga brasileira Cristina Bonfiglioli, 31 anos,
mora em São Paulo e cumpre expediente num escritório
da organização não governamental ambientalista
Greenpeace no bairro de Pinheiros. Até o ano passado,
sua mais longa experiência no mar havia sido um fim
de semana com amigos a bordo de um veleiro em Angra dos
Reis, no litoral sul fluminense. Há dois meses, Cristina
está no gelado e agitado mar da Antártica
na companhia de trinta colegas do Greenpeace vindos de treze
países. Ela é a única brasileira e
uma das sete mulheres a bordo do navio MV Arctic Sunrise
em missão no extremo sul do planeta. Seu objetivo
é ajudar a organização a atrapalhar
uma frota de cinco navios japoneses que estão caçando
baleias na região. Para impedir a ação
dos baleeiros, Cristina e seus colegas se colocam entre
o arpão e as baleias em botes infláveis, dependuram-se
nos animais arpoados para que eles não sejam puxados
para bordo, jogam-se no mar para bloquear o caminho dos
caçadores e fazem muito, muito barulho enviando fotos
da ação para o mundo inteiro. "Além
de nossa missão ser importante, é muito emocionante
também", diz Cristina. "Imagine o que é estar
num bote inflável boiando sobre um mar repleto de
imensos blocos de gelo e colocar-se à frente de um
navio entre a mira de um arpão e um grupo de baleias."
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O bote do Greenpeace
com Cristina a bordo corre para cruzar o caminho
do baleeiro japonês |
A missão que tanto orgulha Cristina vem sendo feita
anualmente pelo Greenpeace desde 1988. Em 1986, a Comissão
Baleeira Internacional, CBI, órgão que regula
a pesca de baleias, proibiu a caça comercial em todo
o mundo para colocar um freio no ritmo da matança.
Espécies grandes, como a jubarte, a baleia-azul e
a franca, já estavam quase extintas. No ano seguinte
à decisão da CBI, o governo japonês
deu a partida num programa de caça científica
na Antártica. O objetivo anunciado pelo Japão
é pesquisar a população das baleias
minke, seus hábitos, seus índices de mortalidade
e a idade em que atingem a maturidade. O Greenpeace e boa
parte dos países que integram a CBI acham que, sob
a máscara da ciência, o que os japoneses fazem
mesmo é chacina de baleia. Todo verão, uma
frota japonesa composta de três baleeiros, um barco
especial para avistar os animais e um navio-fábrica
vai para a Antártica e caça em torno de 400
baleias da espécie minke. Os animais mortos são
transferidos para o navio-fábrica, no qual a carne
é processada, levada para o Japão e vendida
para um mercado consumidor disposto a pagar muito pela iguaria.
Componente antigo do cardápio alimentar japonês,
o quilo da carne de baleia pode chegar a 200 dólares
no país, o que gera um faturamento de até
35 milhões de dólares com a caça científica.
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Há duas semanas, dois ativistas
prenderam
seu bote a uma baleia no momento em que
ela era içada para bordo do navio.
Os japoneses cortaram a corda
com uma faca e o bote voltou ao mar
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Como se isso já não fosse suficiente para
despertar a ira dos ativistas verdes, em 1994 o mar da Antártica
foi decretado pela CBI um santuário livre da caça.
A decisão se baseou em pesquisas que mostram que
três quartos da população de baleias
do mundo se alimentam na região. Os navios japoneses
ignoraram o santuário, lembrando novamente que sua
caça serve à pesquisa. "Até agora,
não se tem conhecimento de nenhuma conclusão
relevante por parte dos envolvidos nesse projeto", protesta
Cristina. "Para pescar lá, eles quebram duas decisões
da CBI. A moratória decidida em 1986 e a criação
do santuário." No estilo barulhento que o caracteriza,
o Greenpeace procura atrapalhar os japoneses ano após
ano. Uma das maiores e mais radicais ONGs ambientalistas
do mundo, o Greenpeace atua em quarenta países e
tem 4 milhões de associados. Entre as causas em que
é mais ativo estão a defesa da Floresta Amazônica,
o combate à produção de alimentos transgênicos
e de energia nuclear e a luta para proteger espécies
ameaçadas de extinção. A organização
é conhecida no mundo todo pela audácia de
suas ações.
As
atribuições de Cristina no MV Arctic Sunrise
vão desde o plantão na sala de comando até
a participação no rodízio de limpeza
da louça. Sua principal função, contudo,
é produzir relatórios de divulgação
da operação em português. Apenas uma
vez a brasileira foi autorizada a descer para os botes e
ir para a linha de frente dos arpões. Ainda assim,
não tem faltado adrenalina em sua rotina. Quando
estava no bote, bateu com a cabeça numa alça
de segurança por causa de uma manobra abrupta feita
pelo condutor para passar à frente de um dos baleeiros.
O momento de maior risco, contudo, aconteceu a bordo do
navio. Pouco antes do Natal, o navio-fábrica dos
japoneses colidiu com o MV Arctic Sunrise. "Nós
estávamos a 500 metros de distância quando
eles se afligiram e fizeram uma manobra equivocada", conta
ela. Cristina estava na cozinha tomando chá e foi
jogada no chão. "Foi horrível. Houve um grande
estrondo e toda a louça caiu. Achei que tivéssemos
nos chocado com um iceberg", diz. A colisão foi leve,
o casco não foi danificado e a confusão terminou
num chocolate quente para tranqüilizar os ânimos.
Antes mesmo de encontrar os navios japoneses, houve dificuldades.
No vigésimo dia de viagem, o navio do Greenpeace
enfrentou um mar agitado que o fez oscilar até 60
graus. Nessas condições é impossível
comer, ficar de pé ou dormir porque o balanço
do mar é tão forte que derruba qualquer um
da cama. Durante 24 horas, Cristina teve de ficar sentada
no corredor, esperando a tormenta passar.
O motivo de todo esse sacrifício é uma baleia
de cerca de 8 metros de comprimento e 8 toneladas de peso
que deve sua sobrevivência justamente a essas dimensões.
No decorrer do século, os caçadores concentraram-se
em espécies maiores e, portanto, mais rentáveis.
Não há dados precisos, mas estima-se que povoem
os oceanos 900.000 baleias minke.
Com as populações de baleias jubarte (20.000
indivíduos), franca (5.000)
e azul (2.000) reduzidas, os
arpões voltaram-se para a pequena minke. A luta de
Cristina é para que ela não tenha o mesmo
destino das irmãs maiores.