Edição 1 633 -26/1/2000

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A guerrilheira

A brasileira do Greenpeace na luta contra os
japoneses que caçam baleias na Antártica

Ricardo Villela

 
Fotos: divulgação

Cristina, a bordo do MV
Arctic Sunrise:

"Missão importante
e emocionante"

A bióloga brasileira Cristina Bonfiglioli, 31 anos, mora em São Paulo e cumpre expediente num escritório da organização não governamental ambientalista Greenpeace no bairro de Pinheiros. Até o ano passado, sua mais longa experiência no mar havia sido um fim de semana com amigos a bordo de um veleiro em Angra dos Reis, no litoral sul fluminense. Há dois meses, Cristina está no gelado e agitado mar da Antártica na companhia de trinta colegas do Greenpeace vindos de treze países. Ela é a única brasileira e uma das sete mulheres a bordo do navio MV Arctic Sunrise em missão no extremo sul do planeta. Seu objetivo é ajudar a organização a atrapalhar uma frota de cinco navios japoneses que estão caçando baleias na região. Para impedir a ação dos baleeiros, Cristina e seus colegas se colocam entre o arpão e as baleias em botes infláveis, dependuram-se nos animais arpoados para que eles não sejam puxados para bordo, jogam-se no mar para bloquear o caminho dos caçadores e fazem muito, muito barulho enviando fotos da ação para o mundo inteiro. "Além de nossa missão ser importante, é muito emocionante também", diz Cristina. "Imagine o que é estar num bote inflável boiando sobre um mar repleto de imensos blocos de gelo e colocar-se à frente de um navio entre a mira de um arpão e um grupo de baleias."

 

O bote do Greenpeace
com Cristina a bordo corre para cruzar o caminho
do baleeiro japonês

A missão que tanto orgulha Cristina vem sendo feita anualmente pelo Greenpeace desde 1988. Em 1986, a Comissão Baleeira Internacional, CBI, órgão que regula a pesca de baleias, proibiu a caça comercial em todo o mundo para colocar um freio no ritmo da matança. Espécies grandes, como a jubarte, a baleia-azul e a franca, já estavam quase extintas. No ano seguinte à decisão da CBI, o governo japonês deu a partida num programa de caça científica na Antártica. O objetivo anunciado pelo Japão é pesquisar a população das baleias minke, seus hábitos, seus índices de mortalidade e a idade em que atingem a maturidade. O Greenpeace e boa parte dos países que integram a CBI acham que, sob a máscara da ciência, o que os japoneses fazem mesmo é chacina de baleia. Todo verão, uma frota japonesa composta de três baleeiros, um barco especial para avistar os animais e um navio-fábrica vai para a Antártica e caça em torno de 400 baleias da espécie minke. Os animais mortos são transferidos para o navio-fábrica, no qual a carne é processada, levada para o Japão e vendida para um mercado consumidor disposto a pagar muito pela iguaria. Componente antigo do cardápio alimentar japonês, o quilo da carne de baleia pode chegar a 200 dólares no país, o que gera um faturamento de até 35 milhões de dólares com a caça científica.

 

Há duas semanas, dois ativistas prenderam
seu bote a uma baleia no momento em que
ela era içada para bordo do navio.
Os japoneses cortaram a corda
com uma faca e o bote voltou ao mar

Como se isso já não fosse suficiente para despertar a ira dos ativistas verdes, em 1994 o mar da Antártica foi decretado pela CBI um santuário livre da caça. A decisão se baseou em pesquisas que mostram que três quartos da população de baleias do mundo se alimentam na região. Os navios japoneses ignoraram o santuário, lembrando novamente que sua caça serve à pesquisa. "Até agora, não se tem conhecimento de nenhuma conclusão relevante por parte dos envolvidos nesse projeto", protesta Cristina. "Para pescar lá, eles quebram duas decisões da CBI. A moratória decidida em 1986 e a criação do santuário." No estilo barulhento que o caracteriza, o Greenpeace procura atrapalhar os japoneses ano após ano. Uma das maiores e mais radicais ONGs ambientalistas do mundo, o Greenpeace atua em quarenta países e tem 4 milhões de associados. Entre as causas em que é mais ativo estão a defesa da Floresta Amazônica, o combate à produção de alimentos transgênicos e de energia nuclear e a luta para proteger espécies ameaçadas de extinção. A organização é conhecida no mundo todo pela audácia de suas ações.

As atribuições de Cristina no MV Arctic Sunrise vão desde o plantão na sala de comando até a participação no rodízio de limpeza da louça. Sua principal função, contudo, é produzir relatórios de divulgação da operação em português. Apenas uma vez a brasileira foi autorizada a descer para os botes e ir para a linha de frente dos arpões. Ainda assim, não tem faltado adrenalina em sua rotina. Quando estava no bote, bateu com a cabeça numa alça de segurança por causa de uma manobra abrupta feita pelo condutor para passar à frente de um dos baleeiros. O momento de maior risco, contudo, aconteceu a bordo do navio. Pouco antes do Natal, o navio-fábrica dos japoneses colidiu com o MV Arctic Sunrise. "Nós estávamos a 500 metros de distância quando eles se afligiram e fizeram uma manobra equivocada", conta ela. Cristina estava na cozinha tomando chá e foi jogada no chão. "Foi horrível. Houve um grande estrondo e toda a louça caiu. Achei que tivéssemos nos chocado com um iceberg", diz. A colisão foi leve, o casco não foi danificado e a confusão terminou num chocolate quente para tranqüilizar os ânimos. Antes mesmo de encontrar os navios japoneses, houve dificuldades. No vigésimo dia de viagem, o navio do Greenpeace enfrentou um mar agitado que o fez oscilar até 60 graus. Nessas condições é impossível comer, ficar de pé ou dormir porque o balanço do mar é tão forte que derruba qualquer um da cama. Durante 24 horas, Cristina teve de ficar sentada no corredor, esperando a tormenta passar.

O motivo de todo esse sacrifício é uma baleia de cerca de 8 metros de comprimento e 8 toneladas de peso que deve sua sobrevivência justamente a essas dimensões. No decorrer do século, os caçadores concentraram-se em espécies maiores e, portanto, mais rentáveis. Não há dados precisos, mas estima-se que povoem os oceanos 900.000 baleias minke. Com as populações de baleias jubarte (20.000 indivíduos), franca (5.000) e azul (2.000) reduzidas, os arpões voltaram-se para a pequena minke. A luta de Cristina é para que ela não tenha o mesmo destino das irmãs maiores.

 

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Greenpeace - Site Oficial