As mamães cangurus
Bebês nascidos antes do tempo desenvolvem-se
mais rápido se trocam a incubadora pelo colo materno
Cristina Poles
A criaturinha, aninhada entre os seios de Cristiane Quintana,
era de uma fragilidade assustadora. Aos 21 anos, a mãe
tinha poucas esperanças na sobrevivência de
Luma. No quarto dia de vida, de tão transparente,
a pele da recém-nascida revelava o sangue correndo
pelas veias e artérias do corpinho de apenas 680
gramas. Tubos e fios sustentavam-lhe a vida. Apesar
de toda essa parafernália, a menina foi retirada
da incubadora e levada para o colo materno. Luma nasceu
antes do tempo, aos cinco meses e meio de gestação
três meses e meio antes do normal. Em
11 de dezembro, um mês antes da data prevista para
seu nascimento, se a gravidez tivesse sido de nove meses,
Luma recebeu alta do hospital e Cristiane levou para casa
uma criança saudável, de quase 2 quilos.
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Arquivo pessoal

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Ricardo Benichio
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Cristiane e a pequena Luma:
nascimento de alto risco no quinto mês.
À esquerda, 4 dias após o nascimento,
à direita um dia antes da alta |
Até pouco tempo atrás seria considerado uma
sandice tirar um prematuro tão cedo da incubadora.
Não é mais. A figura da mãe canguru
está se tornando comum nas maternidades brasileiras.
Nesses casos, se já tiver certas condições
clínicas de sobrevivência, o prematuro pode
dar adeus à incubadora e terminar seu desenvolvimento
no aconchego do tórax materno. A nova filosofia de
tratamento de prematuros é simples e revolucionária.
Resulta da ousadia do pediatra colombiano Edgar Ruy Sanabria,
que precisou encontrar uma alternativa diante da escassez
de incubadoras no precário Instituto Materno Infantil
de Bogotá, onde trabalhava em 1979. Inspirado nos
marsupiais aqueles que completam a gestação
dos filhotes dentro de uma bolsa na qual estão os
mamilos , tão logo o quadro clínico
dos recém-nascidos permitia, o doutor Sanabria tirava-os
da incubadora e amarrava-os ao corpo das mães. Daí
a expressão "mãe canguru".
Com a troca da incubadora-máquina pela incubadora
humana, notou Sanabria, os prematuros se desenvolviam melhor
e mais rápido. Da Colômbia, as mães
cangurus espalharam-se pelo mundo. "Em 1996, na Alemanha,
vi pela primeira vez bebês com menos de 1 quilo e
ainda intubados fazendo parte do programa", conta o pediatra
Fernando de Andrade Guimarães. Chefe do berçário
da Maternidade Pró-Matre, em São Paulo, ele
foi um dos primeiros a adotar o método no Brasil.
O sistema funciona melhor nas boas maternidades, principalmente
as particulares. "O hospital precisa dispor de médicos
em número suficiente para monitorar o tempo todo
os bebês", diz o pediatra Paulo Pachi, chefe da unidade
neonatal da Santa Casa de São Paulo. Na maioria das
maternidades públicas, incapazes de garantir tanta
atenção, os médicos, por segurança,
só colam a criança à mãe quando
o bebê já respira sozinho, alimenta-se pela
boca e pesa no mínimo 1,2 quilo.
Dos
3,4 milhões de crianças nascidas no Brasil
em 1998, cerca de 9% foram prematuras. Algumas passam até
três meses na incubadora. O aparelho mantém
a temperatura, a oxigenação e a umidade apropriadas
durante o tempo necessário para o amadurecimento
mínimo dos órgãos do recém-nascido
(veja quadro). Graças a avanços tecnológicos
acoplados à chocadeira artificial, hoje se consegue
salvar bebês de meio quilo e menos de seis meses de
gestação o que seria impossível
há apenas cinco anos. É uma vitória
e tanto. A dúvida não é quanto à
utilidade, mas quanto ao tempo em que o prematuro é
mantido na incubadora. Tradicionalmente, só é
retirado quando atinge 1,8 quilo e pode ir para casa. Vale
a pena mantê-lo dentro de uma máquina se a
mamãe canguru consegue o mesmo resultado com muito
mais carinho?
Os
prematuros colados ao corpo materno tendem a sofrer menos
alterações nos batimentos cardíacos
e nos níveis de oxigênio no sangue. Aquecidos
pelo calor materno e embalados pelo pulsar do coração
da mãe, os bebês cangurus não têm
tanta dificuldade para respirar, um dos maiores desafios
de quem nasce antes do tempo. A respiração
é mais serena, sem sobressaltos. No sossego do colo,
os prematuros ganham em média o dobro do peso obtido
por dia pelas crianças enclausuradas na incubadora.
Quando a mãe é canguru, o período de
internação hospitalar chega a reduzir-se pela
metade (veja quadro). Os benefícios são
tão evidentes que o Ministério da Saúde
criou recentemente um projeto de incentivo ao método
canguru em todos os hospitais conveniados ao Sistema Único
de Saúde, o SUS. "O programa diminui as despesas
com o tratamento dos prematuros", atesta a pediatra Geise
Maria de Souza Lima, do Instituto Materno Infantil de Pernambuco,
o Imip, no Recife. Os custos de um dia de incubadora beiram
os 90 reais. Com o recém-nascido grudado à
mãe, não chegam a 20 reais. Ganham todos:
as maternidades, as mães e os bebês.
Leo Caldas/Lumiar
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No Instituto Materno Infantil
de Pernambuco: ala exclusiva para
que as mulheres sejam cangurus 24 horas por dia
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Na luta pela sobrevivência, com a criança na
incubadora, corre-se o risco de se criar um abismo afetivo
entre mãe e filho. "Com o receio da morte do prematuro,
muitas mães acabam, inconscientemente, se distanciando
da criança", diz a psicóloga Lídia
Weber, professora da Universidade Federal do Paraná.
"Com o método canguru, o cenário muda." Bastam
alguns dias para que mamãe canguru perca o temor
de pegar, mexer e cuidar do bebê. A segurança
não é apenas psicológica. Longe de
suas crianças, as mulheres que deram à luz
precocemente têm dificuldade para manter a produção
de leite. "O contato físico constante com o bebê
faz com que o cérebro da mãe estimule a glândula
hipófise a produzir o hormônio responsável
pelo controle da liberação de leite", explica
a pediatra Lélia Cardamone, presidente do departamento
de aleitamento materno da Sociedade de Pediatria de São
Paulo.
Leo Caldas/Lumiar
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Substituto para o colo:
almofada especial |
Cerca de trinta maternidades brasileiras já adotaram
o método canguru. No Hospital Guilherme Álvaro,
em Santos, no litoral paulista, 97% dos prematuros já
estão mamando no peito ao receber alta. Na maternidade
Alexander Fleming, do Rio de Janeiro, 95%. É uma
façanha, num país em que apenas quatro de
cada dez bebês de até 3 meses são amamentados.
Se o leite materno é essencial para a boa saúde
de todas as crianças, o benefício para os
prematuros não tem preço. Com o sistema imunológico
ainda imaturo, o organismo deles não está
preparado para combater as bactérias. "A mãe,
que já possui anticorpos contra esses germes, pode
imunizar o filho através do leite", diz o pediatra
Mário Alves Rosa, do Hospital Guilherme Álvaro.
Onde se adota o método mãe canguru, cai drasticamente
o número de prematuros vítimas de infecções
graves. Isso decorre não apenas do aleitamento, mas
também da alta precoce, que os afasta do risco de
infecção hospitalar.
Ricardo Benichio
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Manoel, com a filha Manoela
e a mulher, Mônica: papai
canguru duas vezes por
semana, duas horas por noite |
Algumas maternidades estimulam os pais a ser cangurus.
É assim no Imip e na Pró-Matre. Duas vezes
por semana, sempre à noite, depois do trabalho, o
comerciante paulistano Manoel Ribeira fica com Manoela grudada
por duas horas sobre seu peito. A menina nasceu aos seis
meses e meio de gestação e foi para o colo
da mãe, Mônica, de 32 anos, com apenas 3 dias
de vida. Desde então, não se desgrudaram mais.
"Parece que ela está dentro de mim outra vez", emociona-se
Mônica, que de bom grado se afasta da filhinha quando
chega o marido canguru para dar seu plantão de afeto.