Visão biônica
Cego volta a enxergar com ajuda de cabos
e computadores ligados a seu cérebro
Durante 21 anos, Jerry, um cego nova-iorquino de 62 anos,
viveu com um buraco aberto na cabeça, logo acima
da orelha direita. De tempos a tempos, ia a uma sala de
testes num laboratório da cidade. Lá, um cabo
era conectado no buraco e detonava reações
variadas dentro de sua cabeça. Uma equipe de médicos
do hospital Columbia-Presbyterian havia instalado sobre
a superfície do cérebro um grupo de 68 eletrodos
de platina eram eles que recebiam os impulsos transmitidos
pelo cabo. O espetacular resultado dessas duas décadas
de testes exaustivos foi exibido na semana passada. Graças
à parafernália, Jerry, cego desde um acidente,
em 1974, recuperou parte da visão. Ainda não
é a cura da cegueira, mas um fantástico avanço
nessa direção.
A
façanha foi obtida com o uso de computadores portáteis
que enviam diretamente ao cérebro sinais coletados
por uma microcâmara. Trata-se, em outras palavras,
de um desvio eletrônico para exercer as funções
do nervo óptico danificado. Se demorou tanto para
funcionar foi porque somente agora existem computadores
e componentes eletrônicos suficientemente pequenos
para tornar viável o sistema. Jerry (o sobrenome
é mantido em sigilo) já conseguiu em testes
andar sozinho de metrô e ler algumas das placas. Vê
apenas pontos de luz, que delineiam as formas de objetos,
letras e sinais. Seu campo de visão é limitado
a um retângulo de 5 por 20 centímetros e a
profundidade de campo é bastante precária.
Ainda assim, o sistema é muito superior a outros
em desenvolvimento.
A Universidade Johns Hopkins, em Baltimore, está
pesquisando um aparelho parecido em que o estímulo
é dado por um chip instalado na retina. Foi o modelo
que encantou o músico Stevie Wonder, no mês
passado. A diferença é que a tecnologia usada
não permite que o paciente deixe a sala de testes.
Em ambos os casos, a novidade só vale para quem tem
cegueira causada por acidente ou doença. Por enquanto
é pré-requisito para a instalação
do olho biônico que o cérebro tenha aprendido
a ver e praticado essa habilidade por algum tempo. William
Dobelle, o biofísico que desenvolveu o sistema, pretende
colocá-lo à venda no próximo ano. Vai
custar o equivalente a um carro de luxo: 50 000 dólares.