Edição 1 633 -26/1/2000

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Meu cão, meu tesouro

Fartura de artigos para o totó de luxo estimula o lado Vera Loyla de cada um

Marcelo Camacho

Mario Rodrigues

Zezinho e Willie, com a filhote Magali:
lua-de-mel em "hotel"

Em outubro do ano passado, a socialite carioca Vera Loyola deu uma festança pelo aniversário de 12 anos de sua cadela, "Pepezinha", com direito a bolo, refrigerante (caldo de carne enlatado), presentes, lembrancinhas e Parabéns a Você ao ritmo de au-au-au. Deu o que falar, pelo exagero de gastos e de paparicação em torno de um animalzinho de estimação. Vera, é certo, extrapolou – como, aliás, é de seu muito particular e celebrado estilo. Mas que Vera Loyola não é a única a tratar cachorro como gente, isso ela não é. Cada vez mais, nas famílias de classe média e alta, reinam totós cobertos de mimos e carinhos que comem ração importada, dormem na cama dos donos, usam roupinhas, têm os pêlos lavados com xampu, freqüentam dentista, massagista, acupunturista. Ah, sim, alguns fazem aula de natação. O aniversário de Pepezinha virou escândalo num país que tem crianças dormindo na rua e mães de família pedindo esmola no semáforo. O escândalo é meio de verdade e meio fingido, porque há uma Vera Loyola em cada quarteirão do Brasil abastado. Somando-se as Veras Loyolas com os brasileiros que simplesmente cuidam corretamente de seus animais, tem-se um número suficiente de donos de bichos caseiros capaz de movimentar cifras impressionantes.

Só no setor de rações, foram consumidas 855.000 toneladas (sem contar as importadas) pelos totós no ano de 1999, que representam 1,8 bilhão de reais. Os sabores variam: tem de carne, peru, galinha, fígado, até vegetariana. Os consumidores, também – existe ração para filhotes, para cães idosos, para obesos, para cadelas gestantes, para cardíacos (com baixo colesterol). "Em relação ao ano anterior, o crescimento em 1999 foi de 25% e em 2000 deve ser de 15%", festeja Bernard Divry, diretor da Associação Nacional dos Fabricantes de Alimentação Animal, Anfal-Pet. Espaço para expansão não falta. Dos 25 milhões de cães de estimação no Brasil, só 30% comem produtos industrializados. O cardápio dos outros consiste de restos, apesar da constante pregação em contrário dos veterinários – este, outro mercado em franco progresso. Em 1981, havia no Rio de Janeiro 2.500 veterinários; hoje já são 6.000 (consulta média: 50 reais). De acordo com dados do Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Saúde Animal, Sindam, o setor que trabalha com vacinas e remédios para cães e gatos cresceu, em 1999, 3% em relação a 1998 e movimentou cerca de 100 milhões de reais. Isso num ano em que todo o restante do setor veterinário (bovinos, suínos etc.) verificou uma queda de 20% em suas atividades.

 
Ricardo Benichio

Tratamento de dentes:
poucas cáries, mas problemas
de gengiva


Dia dos Namorados –
Cães, mais do que qualquer outro animal de estimação, adoram agrados e suportam enfeites e penduricalhos com fleuma quase britânica. Bichinhos dóceis, somados a donos ávidos por gastar, fazem a festa das pet shops, as lojinhas de produtos para animais domésticos. A The Pet From Ipanema, do Rio, já tem três filiais na cidade e está abrindo uma franquia de 450 metros quadrados em São Paulo. A Cobasi, a maior loja da capital paulista, tem 10.000 itens em suas prateleiras. "É um mercado que não pára de crescer", diz seu diretor, Paulo Nassar. Nessas lojas se encontram casinhas de resina em formato de iglu, com isolamento térmico, por 800 reais, sorvete (nos sabores carne e leite, 10 reais o pacote com quatro), escova e pasta de dente (40 reais), roupas (em média 30 reais a peça), vestidos para as cadelinhas, uniformes de times de futebol, chapéus variados, capas de chuva, até galochas. A coisa vai ao ponto em que é possível tirar uma "carteira de identidade" para cachorros, igual à oficial, que custa 10 reais e vem com nome, foto e uma patinha padrão no lugar da impressão digital. Já existem na praça equipamentos como uma coleira "no bark" (120 reais), dotada de dispositivo eletrônico que dá um pequeno choque quando o cão late. Detalhe: só é ativado pelo latido dele, pré-gravado. Os outros podem fazer barulho à vontade. Esse pelo menos é um equipamento útil – para os vizinhos.

Na hora de cruzar, cachorros de luxo dispõem de intermediários e até de hotel para a lambança. A Cane & Gatto, de São Paulo, começou como clínica veterinária e loja com serviços como banho, tosa e hotel. Há dois anos, Patrícia Harich, a dona do lugar, bolou uma promoção no Dia dos Namorados: listou candidatos e candidatas ao acasalamento e fez o contato entre os donos. Deu tão certo que virou outro serviço da casa. Foi lá que "Zezinho", 3 anos, poodle champanhe com pedigree, encontrou sua cara-metade, "Willie", 4 anos. Dois dias no hotel (diária: 20 reais, com refeições) bastaram para produzir "Magali", única filhote do casal.

 
Selmy Yassuda

Ultra-som na gravidez:
pré-natal para saber
o número de filhotes


"Bino" e "Bina" –
Na onda dos animais tratados com cuidados muitas vezes negados a seres humanos, a medicina veterinária progride a passos largos. Em Nova York, o Animal Medical Center é um hospital em regra, até com listas de benfeitores nas paredes das alas. No Brasil, cães já são submetidos a exames como ultra-sonografia, tomografia computadorizada e eletroencefalograma. "Fazemos cesarianas só com pontos internos. Também oferecemos terapias a laser para remover tumores e manchas de pele e no tratamento oftalmológico", diz o veterinário Jorge Pereira, presidente do escritório carioca da Associação Nacional dos Clínicos Veterinários de Pequenos Animais, Anclivepa. A veterinária carioca Yana Siqueira especializou-se em exames de ultra-sonografia (65 reais), técnica que pode ajudar a diagnosticar problemas hepáticos, renais e cardíacos – além, claro, do acompanhamento pré-natal. "O dono do animal gosta de saber quantos filhotinhos virão. Também dá para prever com mais exatidão a época do parto", diz Yana.

 
Oscar Cabral

Massagem: ajuda no
tratamento de dificuldades
de locomoção

Em São Paulo, a clínica Odontovet trata exclusivamente dos dentes (50 reais a consulta) de cães e gatos. Com os animais anestesiados, os veterinários removem placa bacteriana e curam gengivas inflamadas (cáries são raras). Há clínicas que oferecem acupuntura e outras, sessões de massagem e hidroterapia para tratar de problemas locomotores, chegando a aulas de natação (20 reais cada uma), como no Pet Place, em São Paulo, no qual o veterinário Renato Miracca construiu uma piscina aquecida com ondas, onde cachorrinhos fora de forma nadam para melhorar o condicionamento físico. Para o veterinário paulista Mauro Lantzman, doutorando em psicologia pela Pontifícia Universidade Católica, PUC, de São Paulo, mimar o cãozinho não é, necessariamente, exagero condenável. "Algumas pessoas transferem para o animal de estimação o papel que seria de outro ser humano", diz ele. "Não vejo isso de forma negativa. É uma maneira normal de troca de afeto." Difícil, em muitos casos, é definir o limite entre a simples troca de afeto e a paparicação extremada. A carioca Fabiana Malta, 32 anos, é da turma do "mimo mesmo, e daí?". Ao se separar do marido, no ano passado, decidiu comprar um poodle para lhe fazer companhia. Chamada pelos amigos de "Bina", batizou o bichinho de "Bino". "Ele é o meu companheiro, minha sombra, me olha no olho e sabe o que estou sentindo. Tento freqüentar mais os lugares onde ele pode ir. Onde ele não entra, não vou", avisa. Pelas suas contas, gasta cerca de 500 reais por mês com Bino. O dinheiro vai para a ração importada (que come em tigela de louça inglesa), roupinhas (até uma jaqueta de aviador ele tem), xampu, perfume, fraldas. Bino, como se vê, poderia ter sido convidado para o aniversário da cadela de Vera Loyola sem destoar.

Casais jovens que trabalham muito e não têm filhos também são mestres em transferir para os cães parte de sua afetividade. O ator Fábio Assunção e sua mulher, a modelo Priscila Borgonovi, vivem no Rio em companhia de três: um labrador, um mastiff inglês e um rodhesian ridgeback. Eles têm liberdade de vagar pela casa e de dormir no quarto do casal quando assim lhes apetece. "São parte da família. Acho que cachorro é o filho de quem não tem filho", filosofa o ator. Em matéria de ranking de raças, Fábio Assunção está muito bem informado. O labrador é o cão da moda. O rodhesian ridgeback tem tudo para ser o próximo. Um filhote de labrador está custando de 600 a 1.000 reais, dependendo da cor do pêlo. O do rodhesian ridgeback (cão grande, de pêlo curto, que raramente late e tem entre seus criadores no Brasil o empresário José Roberto Marinho, das Organizações Globo), 800 reais. Outro candidato ao estrelato próximo é o border collie (600 reais), cão pastor recentemente considerado o mais inteligente do mundo. "O problema é que ele não pára nunca. Pode levar o dono à exaustão", avisa a treinadora paulista Claudia Pizzolatto, especialista em comportamento animal. Alguém se habilita?

Com reportagem de Aida Veiga

 

Grande oferta

Nas lojas de animais chiques, a variedade de produtos nunca pára de crescer. Importados na maioria, eles têm em comum o esforço de apagar as características caninas nos cães. Confira alguns:

Fotos: Paulo Jares

Mochila (38 reais):
leva um casaquinho, para o caso de esfriar

Sorvete (10 reais
o pacote com quatro):
sabores carne e leite

Coleira "no bark"
(120 reais): choque
contra latidos
Casinha de resina (800
reais): em forma de iglu,
com isolamento térmico

 

Spray antibichos (27
reais), xampu "pina
colada" (32 reais)
e anticheiro (27 reais):
importados