Edição 1 633 -26/1/2000

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O que dizem de nós

Nos relatórios das empresas mundiais de segurança,
o Brasil é um país violento, corrupto e perigosíssimo

Sandra Boccia

A imagem do Brasil no exterior não é grande coisa, como se sabe. Notícias sobre crianças abandonadas, assassinatos e corrupção são comuns na imprensa estrangeira. Nenhum documento sobre o país tem mais influência que os relatórios elaborados por empresas de investigação internacional. Isso porque essas análises se destinam a um leitor de peso: os executivos de multinacionais interessadas em fazer negócios ao redor do mundo. Quanto pior o retrato do Brasil, maiores os riscos de impacto negativo sobre os investimentos e o turismo no país. VEJA teve acesso ao material confidencial de duas das maiores companhias especializadas no assunto, a americana Kroll Associates e a inglesa Control Risks. Essas análises, que podem ser consultadas na internet pelos assinantes do serviço – o preço é salgado, entre 3.000 e 17.000 dólares, conforme a complexidade do pedido do cliente –, são uma espécie de guia turístico às avessas. Não se fala da beleza das praias, mas dos perigos que as cercam. É uma profusão de "cuidado, evite, não faça isso ou aquilo". Não se diz qual gorjeta deixar para o garçom, mas a propina usualmente desembolsada pelos empresários nas licitações públicas (de 10% a 25%).

 
Bia Parreiras

Nem poderia ser diferente. Primeiro, empresas como a Kroll e a Control Risks vivem de oferecer proteção. Segundo, seus clientes não querem saber de Carnaval, futebol ou mulheres sensuais. Deles, 95% são grandes corporações que pretendem ampliar seus domínios mundo afora ou simplesmente enviar um executivo para uma missão internacional. Os cuidados dispensados incluem carros blindados, seguranças armados e consultorias em caso de seqüestro. Oferecem ainda relatórios interpretativos sobre a legislação local e a estabilidade política do país. A Kroll e a Control Risks também dão suporte a litígios, investigam a saúde financeira de uma empresa em processo de fusão ou aquisição e analisam os costumes, a política e a economia de determinado país. A pedido do Congresso Nacional, a Kroll rastreou as contas de PC Farias no exterior, no início dos anos 90.

 

O retrato que traçam do Brasil é desalentador e um tanto exagerado. A polícia é descrita como ineficiente e quase sempre corrupta. A tão decantada simpatia dos habitantes locais pode ser uma armadilha de criminosos. A propina é regra, e não exceção. O tom exacerbado fica bem evidente nos rankings dos lugares mais perigosos do planeta. Para medir o grau de periculosidade das cidades, a Control Risks criou uma escala de 1 a 7. A Kroll, outra de 1 a 10 (veja quadro ao lado). Quanto maior a pontuação, pior a ameaça. Na lista da Kroll, o Rio de Janeiro aparece com 8 pontos. É a mesma classificação atribuída às áreas rurais da Colômbia e à Faixa de Gaza. O interior colombiano é dominado por narcotraficantes e por uma guerra civil que já dura trinta anos. A Faixa de Gaza apresenta mazelas que lembram o Brasil (favelas, alta taxa de desemprego e corrupção na administração pública). Mas o terrorismo, o fanatismo religioso e o sangrento conflito entre palestinos e judeus ridicularizam a comparação. "Sempre pensamos do ponto de vista do viajante internacional em um país desconhecido", diz Eduardo Sampaio, diretor-geral da Kroll Associates no Brasil. "No Rio não há jovens andando com fuzis no ombro e a última bomba foi a do caso Riocentro, mas achamos que, no Rio ou em Gaza, a possibilidade de um executivo estrangeiro se envolver em situações de risco é a mesma."

Os investigadores da Kroll e da Control Risks nem sempre dispõem de informações exclusivas. O que fazem é cruzar dados oficiais com recortes de jornais e tirar conclusões. O problema é que os analistas de informação se preocupam em superdimensionar o item "risco". No capítulo sobre a violência, alertam que turistas e executivos estrangeiros são os principais alvos dos bandidos. As estatísticas mostram que não é verdade, pois se rouba e mata muito mais nas periferias pobres das cidades. Sobre a polícia, generalizam. "Não vale a pena reportar pequenos crimes, a não ser para receber o dinheiro do seguro", recomenda a Control Risks. "Se algum policial pedir gorjeta, finja não entender e procure imediatamente o consulado", ensina a Kroll.

 
Valdemir Cunha

Mais curiosas são as recomendações de comportamento pessoal. Muitas dicas costumam ser fornecidas em conversas particulares com os clientes. Numa avenida à beira-mar, o visitante não deve imaginar-se em um bordel só porque está cercado por mulheres de biquíni, saia curta ou decote profundo, por exemplo. Parece ingênuo, mas deve-se levar em conta que muitos executivos são caipiras vindos de grotões puritanos e podem entusiasmar-se com a sexualidade cosmopolita do Rio. Recomenda-se evitar o o.k. à moda americana, com o polegar e o indicador formando um círculo. Há também conselhos de puro bom senso, como não beber água diretamente da torneira. Nem toda informação é negativa. A nosso favor conta a ausência de conflitos étnicos e religiosos ou de disputas de fronteiras. Falamos a mesma língua de norte a sul – são dados preciosos para quem quer pôr seu dinheiro no país.

Como os estrangeiros reagem ao ler relatórios tão bombásticos e negativos? No ano passado, o Brasil recebeu investimentos estrangeiros de 29,9 bilhões de dólares, um recorde histórico. Só se pode especular se a quantidade de dinheiro seria maior não fosse a má imagem construída nos relatórios. "Precisamos combater a criminalidade sob pena de perder oportunidades de negócios", diz o cientista político Paulo Mesquita, pesquisador do Open Society Institute, de Nova York, uma fundação para estudos na área de justiça criminal. De concreto, sabe-se que o Brasil é um mercado importante para as empresas internacionais de investigação. A Control Risks tem 3.000 clientes em 120 países, e a página do Brasil é a sétima mais visitada de seu site, com 116 acessos diários. Gigante do ramo, com 4.000 funcionários e setenta escritórios em cinqüenta países, a Kroll costuma brindar os viajantes com um último conselho: jamais fale mal do Brasil diante de brasileiros, pois eles não suportam críticas.