O que dizem de nós
Nos relatórios das empresas
mundiais de segurança,
o Brasil é um país violento, corrupto e perigosíssimo
Sandra Boccia
A imagem do Brasil no exterior não é grande
coisa, como se sabe. Notícias sobre crianças
abandonadas, assassinatos e corrupção são
comuns na imprensa estrangeira. Nenhum documento sobre o
país tem mais influência que os relatórios
elaborados por empresas de investigação internacional.
Isso porque essas análises se destinam a um leitor
de peso: os executivos de multinacionais interessadas em
fazer negócios ao redor do mundo. Quanto pior o retrato
do Brasil, maiores os riscos de impacto negativo sobre os
investimentos e o turismo no país. VEJA teve acesso
ao material confidencial de duas das maiores companhias
especializadas no assunto, a americana Kroll Associates
e a inglesa Control Risks. Essas análises, que podem
ser consultadas na internet pelos assinantes do serviço
o preço é salgado, entre 3.000
e 17.000 dólares, conforme
a complexidade do pedido do cliente , são uma
espécie de guia turístico às avessas.
Não se fala da beleza das praias, mas dos perigos
que as cercam. É uma profusão de "cuidado,
evite, não faça isso ou aquilo". Não
se diz qual gorjeta deixar para o garçom, mas a propina
usualmente desembolsada pelos empresários nas licitações
públicas (de 10% a 25%).
Bia Parreiras
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Nem poderia ser diferente. Primeiro, empresas como a Kroll
e a Control Risks vivem de oferecer proteção.
Segundo, seus clientes não querem saber de Carnaval,
futebol ou mulheres sensuais. Deles, 95% são grandes
corporações que pretendem ampliar seus domínios
mundo afora ou simplesmente enviar um executivo para uma
missão internacional. Os cuidados dispensados incluem
carros blindados, seguranças armados e consultorias
em caso de seqüestro. Oferecem ainda relatórios
interpretativos sobre a legislação local e
a estabilidade política do país. A Kroll e
a Control Risks também dão suporte a litígios,
investigam a saúde financeira de uma empresa em processo
de fusão ou aquisição e analisam os
costumes, a política e a economia de determinado
país. A pedido do Congresso Nacional, a Kroll rastreou
as contas de PC Farias no exterior, no início dos
anos 90.
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O
retrato que traçam do Brasil é desalentador
e um tanto exagerado. A polícia é descrita
como ineficiente e quase sempre corrupta. A tão decantada
simpatia dos habitantes locais pode ser uma armadilha de
criminosos. A propina é regra, e não exceção.
O tom exacerbado fica bem evidente nos rankings dos lugares
mais perigosos do planeta. Para medir o grau de periculosidade
das cidades, a Control Risks criou uma escala de 1 a 7.
A Kroll, outra de 1 a 10 (veja quadro ao lado). Quanto
maior a pontuação, pior a ameaça. Na
lista da Kroll, o Rio de Janeiro aparece com 8 pontos. É
a mesma classificação atribuída às
áreas rurais da Colômbia e à Faixa de
Gaza. O interior colombiano é dominado por narcotraficantes
e por uma guerra civil que já dura trinta anos. A
Faixa de Gaza apresenta mazelas que lembram o Brasil (favelas,
alta taxa de desemprego e corrupção na administração
pública). Mas o terrorismo, o fanatismo religioso
e o sangrento conflito entre palestinos e judeus ridicularizam
a comparação. "Sempre pensamos do ponto de
vista do viajante internacional em um país desconhecido",
diz Eduardo Sampaio, diretor-geral da Kroll Associates no
Brasil. "No Rio não há jovens andando com
fuzis no ombro e a última bomba foi a do caso Riocentro,
mas achamos que, no Rio ou em Gaza, a possibilidade de um
executivo estrangeiro se envolver em situações
de risco é a mesma."
Os investigadores da Kroll e da Control Risks nem sempre
dispõem de informações exclusivas.
O que fazem é cruzar dados oficiais com recortes
de jornais e tirar conclusões. O problema é
que os analistas de informação se preocupam
em superdimensionar o item "risco". No capítulo sobre
a violência, alertam que turistas e executivos estrangeiros
são os principais alvos dos bandidos. As estatísticas
mostram que não é verdade, pois se rouba e
mata muito mais nas periferias pobres das cidades. Sobre
a polícia, generalizam. "Não vale a pena reportar
pequenos crimes, a não ser para receber o dinheiro
do seguro", recomenda a Control Risks. "Se algum policial
pedir gorjeta, finja não entender e procure imediatamente
o consulado", ensina a Kroll.
Valdemir
Cunha
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Mais curiosas são as recomendações
de comportamento pessoal. Muitas dicas costumam ser fornecidas
em conversas particulares com os clientes. Numa avenida
à beira-mar, o visitante não deve imaginar-se
em um bordel só porque está cercado por mulheres
de biquíni, saia curta ou decote profundo, por exemplo.
Parece ingênuo, mas deve-se levar em conta que muitos
executivos são caipiras vindos de grotões
puritanos e podem entusiasmar-se com a sexualidade cosmopolita
do Rio. Recomenda-se evitar o o.k. à moda americana,
com o polegar e o indicador formando um círculo.
Há também conselhos de puro bom senso, como
não beber água diretamente da torneira. Nem
toda informação é negativa. A nosso
favor conta a ausência de conflitos étnicos
e religiosos ou de disputas de fronteiras. Falamos a mesma
língua de norte a sul são dados preciosos
para quem quer pôr seu dinheiro no país.
Como os estrangeiros reagem ao ler relatórios tão
bombásticos e negativos? No ano passado, o Brasil
recebeu investimentos estrangeiros de 29,9 bilhões
de dólares, um recorde histórico. Só
se pode especular se a quantidade de dinheiro seria maior
não fosse a má imagem construída nos
relatórios. "Precisamos combater a criminalidade
sob pena de perder oportunidades de negócios", diz
o cientista político Paulo Mesquita, pesquisador
do Open Society Institute, de Nova York, uma fundação
para estudos na área de justiça criminal.
De concreto, sabe-se que o Brasil é um mercado importante
para as empresas internacionais de investigação.
A Control Risks tem 3.000 clientes
em 120 países, e a página do Brasil é
a sétima mais visitada de seu site, com 116 acessos
diários. Gigante do ramo, com 4.000
funcionários e setenta escritórios em cinqüenta
países, a Kroll costuma brindar os viajantes com
um último conselho: jamais fale mal do Brasil diante
de brasileiros, pois eles não suportam críticas.