Edição 1 633 -26/1/2000

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Mulheres presas.
Motivo: drogas

As condenadas por narcotráfico,
quase sempre meras transportadoras, já
são a maioria nos presídios femininos

Fabio Schivartche

 
Joel Rocha

Insuspeita
Márcia, de 32 anos, foi presa ao tentar embarcar para a Itália com cápsulas de cocaína no estômago

Loira, alta, cabelos longos, rosto bonito, corpo estonteante. Márcia Marcucci trabalhava como secretária e sonhava com as passarelas. Tudo isso é passado. Ela foi presa em maio de 1997 no aeroporto de Londrina, no Paraná, tentando embarcar para Roma com 75 cápsulas no estômago, num total de 225 gramas de cocaína. A viagem lhe renderia o equivalente a quase seis meses de salário. A Polícia Federal não teve dificuldade para pegá-la em flagrante. Havia tempo estava de olho em seus patrões, uma quadrilha de traficantes, e tinha grampeado os telefones da firma. Condenada a cinco anos e quatro meses, Márcia, hoje com 32 anos, cumpre pena na Penitenciária Feminina do Paraná, na região metropolitana de Curitiba. "Caí na primeira aventura", lamenta. A 3.078 quilômetros de distância, no Recife, as irmãs Anjos também caíram. Elisângela, Eliana e Maria dos Anjos estão presas na Colônia Penal do Bom Pastor por tráfico de drogas. Juntas, segundo os próprios cálculos, vendiam em média meia tonelada de maconha por mês. Era um negócio familiar. A mãe, Tereza, que morreu há seis anos, foi presa duas vezes. O pai, também traficante, sumiu. As "filhas de Tereza", como eram conhecidas nas bocas-de-fumo da periferia do Recife, continuaram o negócio até ser presas.

Márcia e as irmãs Anjos são figuras simbólicas de uma nova realidade no sistema penitenciário do Brasil: nada menos que 60% das 4.550 presas em todo o país foram condenadas por tráfico de drogas (veja quadro). A proporção, revelada pelas estatísticas repassadas ao Ministério da Justiça pelos Estados, é surpreendente se comparada à dos homens, que representam 96% da população carcerária. Apenas 15% deles foram condenados por envolvimento com tóxicos. A maioria das presas eram, como a loira bonita de Londrina, simples "mulas" – a arraia miúda contratada para o transporte da droga. Umas poucas são como as irmãs Anjos, donas do próprio negócio. A primeira das filhas de Tereza a ser presa foi Eliana, em 1996. No ano seguinte, foi a mais velha, Maria. E em 1998 a caçula, Elisângela, foi flagrada no sertão pernambucano com dezenas de tijolos de maconha. O transporte, diz Elisângela, era feito com a conivência da polícia local, que recebia parte dos lucros – mas uma equipe policial enviada do Recife não topou o suborno. Aos 25 anos, grandes olhos negros, fivelas coloridas no cabelo, Elisângela aguarda julgamento. Se for condenada a doze anos de cadeia, como as irmãs, perderá a chance de ver a filha de 10 anos atravessar a adolescência.

Fenômeno mundial – Há duas décadas era raro ver nos tribunais uma traficante. Em São Paulo, das 106 mulheres recolhidas em 1977 à Penitenciária Feminina da Capital, no complexo do Carandiru, apenas 7,5% estavam envolvidas com drogas. Atualmente, as traficantes somam 51% das 447 detentas. A mudança ocorreu de norte a sul. No Paraná, sete de cada dez estão presas por tráfico – quase o dobro do registrado em 1993. No Rio de Janeiro, as condenações femininas pelo mesmo crime saltaram de 40% para 55% nos últimos dois anos (veja quadro). O fenômeno é mundial. Um estudo produzido em três Estados americanos concluiu que entre 1986 e 1996 a quantidade de mulheres encarceradas por crimes relacionados a entorpecentes cresceu quase nove vezes. Nesse período, o número de presas por outros delitos, como assaltos e homicídios, apenas dobrou. Há dois anos, a prefeitura de Buenos Aires inaugurou um presídio destinado única e exclusivamente a traficantes. A novidade deve-se em grande parte ao tráfico feminino.

A presença das mulheres no narcotráfico tem certas particularidades. Elas exercem as funções menos perigosas e quase nunca são as donas do produto. Não se conhece nenhuma "baronesa" do tráfico. Por enquanto, elas predominam como mulas, atividade que não exige necessariamente violência física, armas em punho nem perseguições policiais. "O universo cultural feminino é menos violento que o do homem", diz Tulio Kahn, coordenador de pesquisa do Instituto Latino-Americano das Nações Unidas para a Prevenção do Delito e Tratamento do Delinqüente. É assim em todas as facetas do crime. Um em cada três presos em São Paulo está detido por assalto. Entre as mulheres, a proporção é de uma em sete.

Amor bandido – Cientes de que o sexo feminino desperta menos suspeita da polícia, os chefões do narcotráfico começaram a arregimentar mulheres para o transporte de drogas no final da década de 80. Já no início dos anos 90, deixou de ser surpresa em aeroportos nacionais a prisão de estrangeiras, principalmente nigerianas, carregadas de cocaína. Perto de 30% dos 284 estrangeiros presos pela Polícia Federal entre 1990 e 1999 eram mulheres. Como o Brasil deixou de servir de simples corredor para o envio de droga colombiana à Europa e aos Estados Unidos e passou a ter narcoexportadores próprios, as mulas brasileiras começaram a encher os presídios.

 
Ricardo Benichio

Culpa dele
Detida com 30 quilos
de
maconha e duas armas
roubadas, Patrícia diz que
tudo era
do marido traficante

Razões variadas levam uma mulher a encarar o desafio do narcotráfico. As irmãs Anjos, do Recife, mantinham uma tradição familiar. Nasceram e cresceram no meio de traficantes. Adolescentes, divertiam-se em ludibriar a polícia. "Mamãe não gostava que a gente mexesse com fumo, mas nós aprendemos a gostar daquele mundo", conta Elisângela. Diferentemente do que ocorre com os homens, o coração pode levar muitas ao crime. Não faltam presas com uma história de amor bandido para contar. Tatuagem de Cristo no peito, Maria da Glória Lima franze o cenho ao falar do marido. Ressente-se até hoje da traição. Ela sabia que vivia com um traficante, mas por lealdade diz nunca ter contado nada a ninguém. No dia em que a casa foi cercada pela polícia, ele não titubeou. Fugiu e deixou-a sozinha com 800 gramas de maconha. Presa há cinco anos, ela deve ganhar a liberdade em algumas semanas. Batom vermelho nos lábios carnudos, Patrícia Lira, de 23 anos, está presa em São Paulo há oito meses. Condenada a cinco anos como cúmplice, ela diz que está atrás das grades também por culpa do marido, um traficante foragido. Homem violento, ele matou por ciúme um paquerador que dirigiu galanteios a Patrícia. No entanto, quando percebeu que os policiais estavam em seu encalço, simplesmente sumiu no mundo. Largou Patrícia em casa com 30 quilos de maconha e duas armas roubadas.

"Quando a cassa cai" – Há aquelas que se sujeitam ao comércio de drogas para sustentar o vício. Aos 22 anos, a alemã Ivonne Balas tem uma história de vida de tirar o fôlego. Aos 16, fugiu da casa dos pais, em Colônia. Na Grécia ela se prostituiu e se iniciou nas drogas. Na Itália provou crack e não conseguiu mais parar. Para manter o vício, aceitou trabalhar como mula. Escapou de ladrões e de traficantes rivais, envolveu-se com políticos e barões do pó. Calcula ter transportado mais de 35 quilos de cocaína por vários países, inclusive o Brasil. Foi presa em abril de 1998, no Aeroporto de Cumbica, em Guarulhos, na Grande São Paulo. Num português arrastado e com forte sotaque, filosofa: "Quando a cassa cai, você não segurra nada do que tinha". Ivonne refere-se às mordomias que conquistou à custa do tráfico: dinheiro, um apartamento, carros – tudo confiscado pelos tribunais europeus.

A ganância, amor, aventura ou vício, soma-se outro fator. "O tráfico transforma-se em atividade atrativa diante do desemprego crescente, principalmente nas grandes cidades", afirma o sociólogo paulista Guaracy Mingardi, pesquisador da Unesco para o tráfico de entorpecentes. Nas últimas décadas, as mulheres iniciaram uma conquista crescente de postos de trabalho em todo o mundo. Nos anos 30, de cada 100 pessoas empregadas apenas seis eram do sexo feminino. No final dos anos 60, já representavam 14% da força produtiva. Hoje, são 35%. Mas, a exemplo do que vem ocorrendo na região metropolitana de São Paulo, elas são mais afetadas pela crise na oferta de empregos. Uma pesquisa do governo paulista, de agosto de 1999, mostra que a taxa de desemprego na população feminina da Grande São Paulo pulou de 16,9% para 20,5% entre 1994 e 1998. Entre os homens, de 13% subiu para 14,7%. A falta de meios honestos para ganhar a vida também pode contribuir para levar uma pessoa ao crime, desde que haja predisposição para isso.

 

A separação
Aos 4 meses, Laura será afastada da mãe, Celitalva, condenada por vender oito papelotes de cocaína

Vida nova – A vendedora ambulante Celitalva de Jesus, de 30 anos, foi pega em flagrante em 1998 passando adiante oito papelotes de cocaína. Franzina, tímida, Celitalva nunca empunhou um revólver. Até onde pôde, diz, tentou manter-se na linha, mesmo depois de perder a barraca em uma blitz da prefeitura paulistana. Um ano sem trabalho e ela se deixou vencer pela promessa do dinheiro fácil. Durante uma visita íntima ao namorado na prisão, Celitalva engravidou. No final de janeiro, a filha, Laura, completa 4 meses. Quando isso acontecer, a criança terá de se separar da mãe. "Sei que não é bom para ela crescer num lugar desses, mas ela precisa de mim", chora. A mãe só deve sair da cadeia em julho de 2001.

 

Vida nova
A venezuelana Edith diz ter abandonado o vício, rege o coral da cadeia e busca ajuda para lançar um CD

Fora da prisão, a maioria tenta enfrentar as dificuldades de readaptação, com subempregos e baixos salários. Só uma minoria consegue. Em Pernambuco, oito em cada dez ex-detentas voltam ao tráfico, segundo informações do Instituto Recife de Atenção Integral às Dependências, o Raid. A venezuelana Edith Salazar tenta caminhar em direção oposta. Pianista, violonista e compositora, viciou-se em cocaína na Espanha. No auge da loucura, consumia até 5 gramas do pó por dia. Foi presa no Aeroporto de Cumbica, em agosto de 1996, com 1 quilo da droga. Edith jura ter abandonado o vício e hoje dirige o coral e o grupo de teatro da Penitenciária Feminina da Capital. Toca com um quarteto chamado Vozes da Verdade e busca patrocínio para gravar um disco. "Estou pronta para minha segunda vida", diz. Aos 36 anos, não espera a liberdade para tentar recomeçar.

 

"Me leva"

A paulista S., de 23 anos,
presa no Nordeste: deixou-se
levar pela promessa
de dinheiro fácil

Estudante aplicada, S., de 23 anos, tinha planos de vida modestos em Mogi das Cruzes, cidade da Grande São Paulo. Morava em um sobradinho com a mãe. Morena, pele bronzeada, olhos ligeiramente puxados, suas curvas insinuantes faziam sucesso nas apertadas minissaias que usava para trabalhar como modelo em shoppings, feiras de automóveis e promoções de empresas. No trabalho ganhava cerca de 100 reais por evento – suficientes para seus pequenos prazeres, um jantar com os amigos, um cinema no final de semana. S., no entanto, fraquejou ao primeiro sinal de vida fácil. A proposta feita por um vizinho era tentadora: 3 000 dólares para levar 2,5 quilos de cocaína para a Costa do Marfim, na África. O bandido jurou que S. não correria perigo. E ela acreditou. Em 7 de outubro do ano passado, foi presa no Aeroporto Internacional dos Guararapes, no Recife. Sem experiência, estava de sobretudo de lã num calor pernambucano de 35 graus. Suava em bicas para tentar disfarçar a calça larga, que escondia a droga que ela levava presa ao corpo com fita isolante. Hoje, S. é a "Paulista", da Colônia Penal do Bom Pastor. Sem amigos nem parentes na cidade, a moça sofre com a distância da terra natal. Um mês depois de ter sido presa, recebeu a visita de uma irmã. Nunca mais ninguém foi vê-la em Pernambuco. S. passa os dias vendo TV, chorando e escrevendo cartas para a mãe. Parece ainda não se ter dado conta de como foi parar na prisão. Compõe o retrato da ingenuidade – pelo menos é o que ela aparenta –, que já levou muitas das traficantes de saias para trás das grades. Com o rosto colado às grades, puxa conversa com o repórter de VEJA. Quer saber de onde ele vem. Quando ouve "São Paulo", seus olhos ficam vermelhos e a testa se franze. O braço atravessa as barras de ferro. A voz, quase inaudível, pede: "Me leva".