Prazer pelo prazer
O grande chef francês
de Nova York diz que a boa comida é uma experiência
sensorial e não intelectual
Tania Menai, de Nova
York
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Thomas Hooper

"Muitos chefs
se acham mais importantes
do que seus clientes"
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Cena: jantar para sessenta
pessoas na casa de um banqueiro. Cada convidado tinha desembolsado
40.000 dólares para dividir a noite com o presidente
Bill Clinton e colaborar com o Partido Democrata dos Estados
Unidos. A refeição foi preparada sob o olhar
rigoroso de um oficial da Marinha, enquanto cozinheiros
trançavam entre cães farejadores e seguranças
que inspecionavam cada panela. No instante em que o presidente
pisasse na casa, ninguém deveria se mover. Nem na
cozinha. Ao chegar, Clinton simplesmente ignorou os convidados.
Acompanhado de Hillary, foi direto à cozinha, onde
passou quinze minutos conversando com o chef. Só
então reapareceu na sala de jantar. Que o presidente
americano é dado a esse tipo de gesto todo mundo
sabe. Mas ele não tomaria essa atitude, no caso de
um jantar formal, se o piloto do fogão não
fosse o francês Daniel Boulud, 44 anos, dono de três
dos melhores restaurantes de Nova York Daniel, Café
Boulud e Payard e do caríssimo e requisitado
serviço de bufê Feast & Fêtes. Antes
de lançar-se em vôo próprio, Daniel
Boulud assinou por seis anos a cozinha do famoso restaurante
nova-iorquino Le Cirque. Nascido nos arredores de Lyon,
na França, e morando há vinte anos nos EUA,
ele trabalha seis dias por semana, por até dezessete
horas diárias. Reinaugurado há pouco mais
de um ano, o novo restaurante Daniel sugou 10 milhões
de dólares nas obras. Na cozinha de 464 metros quadrados,
o barulho da correria dos trinta cozinheiros da casa não
tira a calma e o bom humor do chef. Daniel Boulud deu a
seguinte entrevista a VEJA.
Veja O que
é comer bem?
Boulud
É se sentir bem, comer algo de que você se
lembre. Sou bastante ligado a lembranças gastronômicas.
É sempre um momento emocional. Você aprecia
o sabor, o vinho, o pão, o serviço
é toda a composição da refeição.
Há quem passe a maior parte do tempo dissecando a
comida em vez de apreciá-la. Não como com
o cérebro, prefiro o prazer.
Veja Ser
um bom chef é...
Boulud
Saber se auto-administrar, além de administrar
sua equipe e seus negócios. É necessário
ser bom e humilde ao mesmo tempo. Um bom chef deve ter consistência
e dedicação e saber lidar com mil coisas simultaneamente.
Muitos chefs têm problema de ego. Eles pensam que
são mais importantes do que seus clientes.
Veja O senhor
se autodefine um chef franco-americano. Como é isso?
Boulud
É ter morado nos Estados Unidos o suficiente para
sentir que não vou voltar para a França, e
ter vivido o bastante na França para sentir que nunca
me tornarei um americano. Como é preciso fazer uma
escolha e não sou nem um nem outro, optei por ser
franco-americano. Mas amo a minha herança e acredito
nela. Foi ela que me fez quem hoje sou nos Estados Unidos.
Veja No filme
americano Big Night, dois irmãos imigrantes
italianos não se entendem na cozinha de seu restaurante,
em Nova Jersey. Enquanto um insiste em preservar a autenticidade
da cozinha italiana, o outro tenta abrir mão de certas
tradições para fisgar a clientela local. O
senhor cedeu muito para conquistar o gosto dos americanos?
Boulud
Não se trata do gosto, mas de atitude. Tenho
a liberdade de derrubar as barreiras impostas pela cozinha
francesa. O menu do restaurante Daniel é francês,
mas às vezes me inspiro na cozinha asiática
sem fazer disso uma obrigação. Pode ser um
molho ou um ou outro ingrediente. Já no Café
Boulud salpicamos o cardápio com pratos de diferentes
nacionalidades isso faz parte da cultura americana,
uma grande Torre de Babel. Os americanos têm sido
expostos a todas as cozinhas do mundo. Muito mais do que
os franceses ou até mesmo do que eu em minha juventude.
Em Lyon não tínhamos restaurantes turcos,
indianos ou chineses.
Veja Mas os
americanos sabem apreciar arte culinária?
Boulud Nova
York não é Estados Unidos. A energia desta
cidade é completamente diferente da de qualquer outra.
Aqui há gente do mundo todo. Ao mesmo tempo, acredito
que os americanos sabem apreciar a boa mesa. Eles têm
uma mente mais aberta que os franceses. Meus pais não
sabiam o que era vinho bordeaux até o dia em que
levei-lhes uma garrafa. Eles estavam satisfeitos com o bourgogne
e, na cabeça deles, não precisavam conhecer
nenhum outro. Os americanos conhecem vinhos da Austrália,
Espanha ou Itália. Nos EUA, a culinária tem
muito mais exposição na mídia e do
ponto de vista comercial. Com canais como TV Network, quem
mora em Oklahoma e nunca veio a Nova York nos conhece. Além
disso, vários cinqüentões profissionais
de outras áreas fazem estágio aqui no restaurante
simplesmente pela paixão de cozinhar. Diferentemente
dos franceses e de outras culturas, os americanos não
vêem problema nenhum em voltar para a universidade
nessa idade para aprender mais. Sem contar com as centenas
de aulas de vinho e culinária no país. Há
vinte anos essa febre não existia. Os americanos
estão, aos poucos, mudando seus valores, deixando
de comprar coisas superficiais para gastar um pouco mais
numa boa refeição.
Veja O que
o senhor acha do McDonald's?
Boulud
Gostaria que o McDonald's tivesse sido uma invenção
dos franceses. Esse tipo de restaurante é uma necessidade.
Como o mundo poderia comer todos os dias se não fossem
estabelecimentos onde você pode fazer uma refeição
por 7 dólares? O que é triste é que
muitas pessoas dependam dele. Quem tem quinze minutos para
almoçar não tem opção. O McDonald's
é o cenário global, mas em qualquer bairro
existe uma lanchonete de sanduíches, seja de peru,
seja de misto-quente. Cadeias de fast food se proliferaram
por causa da falta de tempo e de dinheiro das pessoas. Mas
o único problema é que elas seduzem as crianças
em troca de presentes. Eles se aproveitam de Pokémon
e Super-Homem para conquistá-las. Esta é a
má notícia. Seria melhor se eles dessem a
elas um morango em vez de um boneco de plástico.
Veja O senhor
conhece a cozinha brasileira?
Boulud
Bastante. Gosto de feijoada e acho bobó de
camarão superbe, realmente fantástico.
Não é uma comida muito leve, mas os brasileiros
não comem esses pratos diariamente. Uma boa caipirinha
ainda ajuda a descer.
Veja O nome
do Café Boulud é o mesmo do pequeno café
que sua família manteve por mais de 100 anos em Saint-Pierre
de Chandieu, perto de Lyon. Como a família influenciou
a sua cozinha?
Boulud
Cresci na fazenda e comida era o tópico número
1 da minha família. Passávamos horas à
mesa. Minha mãe cozinhava enquanto meu pai e tios
cuidavam do campo. Preferia ficar em casa, por isso o meu
gosto pela cozinha foi despertado logo cedo. Quando decidi
que queria ser chef, meus pais me matricularam numa escola,
onde estudei por dois meses. Odiei. Eles ensinavam como
ser chef numa cafeteria. Era tudo muito acadêmico,
sem expressão nem emoção. Mas aos 14
anos comecei a trabalhar num restaurante depois da escola
e foi aí que engrenei. Nessa idade é que se
aprende, pois nos colocam para fazer de tudo.
Veja Num outro
filme, o mexicano Como Água para Chocolate,
os pratos preparados pela personagem principal fazem as
pessoas chorarem ou até mesmo as deixam com vontade
de fazer amor. O humor do cozinheiro influencia no resultado
final da comida?
Boulud
Claro. O tempo todo. Em casa somos capazes de transmitir
nossos sentimentos na comida. No entanto, no restaurante
não podemos nos esquecer que cada cliente vem com
uma expectativa diferente. Cada prato é uma arte.
Quanto mais confortável com a cozinha, mais expressiva
é a comida que preparo. Estou aqui para dar prazer
às pessoas, mas não posso esquecer que tenho
uma empresa. Às vezes é difícil combinar
as duas coisas. Não faço as pessoas chorarem.
Acho que elas acabam se apaixonando.
Veja Talento
para cozinhar é algo que está no sangue ou
para se aprender num curso de culinária?
Boulud
Se você tiver paixão, capacidade de
aprender rápido e muita persistência, pode
cozinhar com sucesso em casa. Mas para cozinhar comercialmente
num restaurante, numa linha de produção, é
preciso ser obcecado. Quando jovens, somos todos bons e
temos chances iguais. Mas apenas alguns "terminarão
a corrida". Outros abandonarão a prova no meio. Muitos
colegas largaram a profissão. Hoje eles olham para
mim e dizem que sou bem-sucedido, isso e aquilo. Mas eu
tenho 30 anos de cozinha, com altos e baixos, e nunca desisti.
Veja Como
o senhor cria os pratos?
Boulud
Nem todo prato é criado com o mesmo propósito.
Tampouco todos eles são histórias de sucesso.
Quando crio um menu sazonal, utilizo os alimentos da estação.
Já os pratos do dia eu crio na hora, vendo quais
os legumes que estão bonitos naquele dia. Às
vezes me inspiro pelo próprio ingrediente. Outras
vezes somos desafiados. Por exemplo, teremos uma semana
só de trufas, por isso comprei uma grande quantidade
delas para testar diferentes receitas.
Veja O senhor
diz que antes de ser um bom chef é fundamental ser
um bom saucier, o cozinheiro que prepara o molho. Por quê?
Boulud
A frescura, o equilíbrio e a textura do molho
são essenciais. Seu preparo dá tanto trabalho
e custa tão caro quanto o próprio prato. Para
fazer o molho da carne, gastamos a mesma quantidade de carne
que usamos no prato. Caso contrário, não obtemos
o sabor do alimento.
Veja Quantos
ingredientes em média o senhor usa num só
prato?
Boulud
De seis a vinte, incluindo temperos e especiarias.
O segredo está no equilíbrio de tudo isso.
Nossos ingredientes vêm de todas as partes do país
e do mundo, e os peixes, de quase todos os mares.
Veja O senhor
é autor dos livros Cozinhando com Daniel Boulud
e o recém-lançado Café Boulud Cookbook.
Será que os leitores não se intimidam ao tentar
seguir as suas receitas?
Boulud
Não. As críticas ao livro têm
sido excelentes, com uma boa aceitação do
público do país inteiro. Todas as receitas
foram testadas várias vezes por nós.
Veja Na sua
cozinha trabalha gente do mundo inteiro, incluindo brasileiros.
Como administrar um exército de pessoas?
Boulud
Danço conforme a música. Às
vezes o relógio é mais rápido do que
eu. Meu dia é recheado de palestras em escolas de
culinária ou jantares feitos fora do restaurante.
Hoje mesmo o bufê está preparando um jantar
da Louis Vuitton para 700 pessoas e eu vou cozinhar outro
jantar para Hillary Clinton. Não adianta se estressar,
estou cada vez mais zen. Caso alguém erre, tudo bem.
Se eu quiser ser o mais perfeccionista do mundo, nunca serei
feliz. Eu teria de ficar no pé dos cozinheiros a
cada minuto, e isso não seria saudável nem
para mim nem para eles. Delego responsabilidades para cada
um e os pago muito bem. Esse é o grande segredo para
mantê-los felizes.
Veja O que
o restaurante faz com a comida que sobra?
Boulud
Calculamos o bastante para que não haja desperdício.
Cozinhamos apenas o que se pede. Não deixamos comidas
pré-preparadas. Quando servimos em bufê, damos
o que sobra para instituições de caridade.
Os pães, que também são preparados
aqui, e as saladas vão para os funcionários.
Veja O senhor
se machuca muito na cozinha?
Boulud
Às vezes. Quando eu tinha 15 anos, uma faca
caiu com a ponta para baixo diretamente no meu pé.
No dia-a-dia corto os dedos, me queimo, mas isso faz parte
da profissão.
Veja O senhor
freqüenta outros restaurantes de Nova York?
Boulud
Não o suficiente. Como todos os outros chefs,
trabalhamos justamente na hora das refeições.
Mas de vez em quando dou umas escapadas. Gosto de comida
de todas as nacionalidades, contanto que sejam bem preparadas.
Costumo comer sushi num japonês que fica aberto até
as 4 da manhã. Lá não conheço
ninguém, só há japoneses.
Veja Numa
famosa foto de divulgação, o senhor está
segurando um ganso e uma mala. O que isso representa?
Boulud
O ganso simboliza o menino de fazenda, o chef, a
minha ligação com a comida. A mala, o jovem
imigrante chegando à América com um sonho.
Há vários simbolismos nessa foto, por isso
ela se tornou tão marcante.
Veja O senhor
cozinha em casa?
Boulud
Sim, mas não todos os dias. Aos domingos à
noite, preparo um frango cozido com vegetais, ou qualquer
outro prato simples. Janto todas as noites aqui, na mesa
do meu escritório. Moro no mesmo prédio do
restaurante, por isso minha esposa e minha filha descem
todas as noites para jantar comigo. Com uma cozinha deste
tamanho, não preciso mais cozinhar em casa. Mas adoro
fazê-lo para amigos em ocasiões especiais.
Veja A sua
filha (Alexis, de 11 anos) cozinha?
Boulud
Ela sabe preparar ovos, o que já é
um ótimo começo. Deixar o ovo no ponto certo
não é uma tarefa fácil.
Veja Se o
senhor pudesse escolher, qual seria o último prato
da sua vida?
Boulud
Algo bem simples, como loup de mer, um peixe quase
cru, cozido na lenha, com azeite e sal fresco. Este é
o prato perfeito. Quando trabalhei em Cannes, em Provence
os pratos eram assim, sardinha, vermelho, loup de mer. Contanto
que os peixes ainda estejam pulando, esse seria o prato
ideal para a minha última ceia.