Edição 1 633 -26/1/2000

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A poupança que vem de fora


A reportagem de VEJA sobre
o capital estrangeiro


A principal notícia produzida pela economia brasileira na semana passada chama mais a atenção pelo que tem de repetitivo do que por se tratar de uma novidade. Na quarta-feira, o banco espanhol Santander comprou 97% do Grupo Meridional, que inclui o Banco Bozano, Simonsen. Foi o oitavo banco brasileiro de grande porte a ver seu controle migrar para as mãos de grupos internacionais nos últimos três anos. A transação alimentou uma discussão cuja temperatura tem crescido nas últimas semanas. Será que o capital estrangeiro está indo longe demais na compra de empresas nacionais? Será que isso se mostrará prejudicial ao país? Cada vez se ouve com maior estridência de políticos e empresários que chegou a hora de o Brasil impor limites à atuação do capital estrangeiro. Percebe-se nas manifestações, por sua freqüência e articulação, o surgimento de um sentimento que se pode rotular de neonacionalista.

A questão exige uma reflexão mais detida e menos acalorada. De acordo com números do Banco Central, de 1995 a 1999 o ingresso de capital estrangeiro no Brasil foi de 95 bilhões de dólares. No mesmo período saíram, principalmente na forma de remessa de lucros, cerca de 8 bilhões. O saldo positivo de dólares internados no país investidos em atividades produtivas e não na especulação financeira foi, naquele período, de 87 bilhões de dólares. Antes de buscar no capital estrangeiro um bode expiatório, é bom lembrar que esse dinheiro foi uma das raras fontes de recursos para promover o crescimento da economia brasileira. A poupança nacional, item em que historicamente o Brasil é de uma vulnerabilidade sem par, tem sido quase integralmente utilizada para rolar a dívida interna. Sem a aposta dos investidores estrangeiros no Brasil a economia poderia ter paralisado. Ao governo cabe garantir que o país não se feche à riqueza que vem de fora e assegurar tratamento justo e idêntico a quem deseja investir na produção, seja qual for a cor de seu dinheiro.